Em um país onde o endividamento das famílias beira o universal e os juros corroem a capacidade produtiva, Alexandre Ostrowiecki, presidente da Multilaser, escolheu um caminho incomum entre empresários: defender o fim da escala 6×1 enquanto aponta o Estado — e não o trabalhador — como o verdadeiro obstáculo à competitividade. Sua voz surge num momento em que a inteligência artificial redefine o valor do tempo humano e em que o debate sobre jornada de trabalho tende a se confundir com disputas mais profundas sobre quem, afinal, arca com o custo do modelo econômico brasileiro.
Presidente da Multilaser defende fim da escala 6×1 e critica privilégios do Estado
O Estado nunca faz dieta. Quando falta dinheiro, aumenta a conta dos outros
Por que um empresário como Ostrowiecki, que poderia se beneficiar de jornadas mais longas, defende o fim da escala 6×1?
Ele vê a questão por um ângulo diferente. Para Ostrowiecki, a produtividade não depende de horas extras — depende de tecnologia, de um ambiente fiscal saudável e de consumidores com poder de compra. Um trabalhador descansado é mais produtivo. E um país com juros altos e impostos pesados não compete, independentemente de quantas horas as pessoas trabalham.
Mas ele não oferece números sobre o impacto real dessa mudança nos custos da Multilaser. Ele diz que "a economia se adaptou" historicamente, mas não mostra dados específicos de quanto custaria implementar dois dias de descanso em sua própria empresa.
Ele critica muito o Estado. Mas o Estado também financia infraestrutura, educação, segurança — coisas que beneficiam empresas. Como ele vê isso?
Ele não nega que o Estado tem funções. O que ele critica é o crescimento automático do orçamento, os supersalários, os gastos que crescem sem controle enquanto a receita não acompanha. Ele quer que o Estado faça "dieta", como ele diz.
Verdade. Mas "privilégios do Estado" é uma categoria vaga. Ele fala em desvinculação de gastos, reforma administrativa — essas são propostas reais, mas ele não detalha quais gastos cortaria ou como faria isso sem prejudicar serviços.
A Multilaser está exposta às Casas Bahia, que pediu recuperação judicial. Isso influencia sua visão sobre juros e endividamento?
Claramente. Ele provisionou R$ 31 milhões por causa dessa exposição. Vê de perto como o endividamento em cascata destrói empresas. Quando 82% das famílias têm dívidas a vencer e 84 milhões de pessoas estão negativadas, o mercado interno encolhe. Isso afeta todo mundo.
Sim, mas ele está protegido — a maior parte das vendas tem seguro de crédito. Então o risco dele é moderado. Nem todas as empresas têm essa proteção. Sua perspectiva é a de quem conseguiu se blindar, não a de quem está totalmente exposto.
The Pulse
- A defesa do fim da escala 6×1 por um grande empresário rompe com o alinhamento habitual do setor produtivo e reacende um debate que divide trabalhadores, sindicatos e empregadores.
- Ostrowiecki alerta que 82% das famílias brasileiras estão endividadas e que quase 84 milhões de pessoas estavam negativadas em agosto — sinais de que o modelo atual já não sustenta o consumo.
- A Multilaser provisionou R$ 31 milhões pela exposição às Casas Bahia em recuperação judicial, evidenciando como a crise de crédito atravessa toda a cadeia produtiva.
- O empresário cobra reforma estrutural do gasto público — revisão de supersalários, desvinculações orçamentárias e corte de privilégios — como condição para reduzir os juros que sufocam empresas e consumidores.
- A tributação assimétrica sobre importações de até US$ 50 preocupa a indústria nacional: sem equiparação fiscal, a produção e os empregos tendem a migrar para marketplaces asiáticos.
Em um país onde o endividamento das famílias beira o universal e os juros corroem a capacidade produtiva, Alexandre Ostrowiecki, presidente da Multilaser, escolheu um caminho incomum entre empresários: defender o fim da escala 6×1 enquanto aponta o Estado — e não o trabalhador — como o verdadeiro obstáculo à competitividade. Sua voz surge num momento em que a inteligência artificial redefine o valor do tempo humano e em que o debate sobre jornada de trabalho tende a se confundir com disputas mais profundas sobre quem, afinal, arca com o custo do modelo econômico brasileiro.
Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho da Multilaser, tomou uma posição incomum no empresariado brasileiro ao defender publicamente o fim da escala 6×1. Para ele, exigir que trabalhadores descansem apenas um dia por semana é incompatível com a era da inteligência artificial e da robótica. Todos deveriam ter dois dias livres — e o custo dessa mudança, embora real, vale a melhoria na qualidade de vida.
O empresário rebate o argumento de que a redução de jornada gera demissões em massa. Historicamente, diz ele, cada mudança desse tipo provocou alarme e, depois, adaptação. O verdadeiro problema de competitividade da indústria brasileira, na sua avaliação, está em outro lugar: burocracia, impostos sobre o consumo e juros elevados. "Quem se preocupa com a competitividade deveria começar cortando os privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador", afirmou.
Essa lógica se estende à sua visão sobre o próximo governo. Ostrowiecki cobra reforma administrativa, desvinculação de gastos e revisão de supersalários. Sem esse ajuste estrutural, os juros continuarão pressionando empresas e famílias. Ele resume com uma imagem direta: o Estado brasileiro é o único agente da economia que nunca faz dieta — quando falta dinheiro, aumenta a conta dos outros.
O cenário financeiro preocupa também por razões concretas ao seu negócio. A Multilaser é fornecedora das Casas Bahia, que pediu recuperação judicial, e provisionou cerca de R$ 31 milhões pela exposição à varejista. O impacto é contido pelo seguro de crédito, mas reflete uma crise mais ampla: 82% das famílias brasileiras têm dívidas a vencer e quase 84 milhões de pessoas estavam negativadas em agosto. "Não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo", disse.
Com fábrica em Manaus, Ostrowiecki defende redução geral dos tributos sobre o consumo — não privilégios regionais, mas isonomia fiscal que permita à indústria nacional competir com vendedores estrangeiros que operam via marketplaces internacionais. Sua mensagem é coerente do início ao fim: o entrave não está na jornada do trabalhador, mas na estrutura fiscal e orçamentária de um Estado que cresce às custas de quem produz.
Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho de administração da Multilaser, entrou em um debate que divide empresários e trabalhadores quando defendeu o fim da escala 6×1. Para ele, manter trabalhadores com apenas um dia de descanso semanal é inaceitável em um momento em que a inteligência artificial e a robótica avançam rapidamente. Sua posição é clara: todos os empregados deveriam ter dois dias livres por semana.
O empresário reconhece que essa mudança tem custo. Algumas empresas podem elevar preços para compensar. Mas ele descarta o cenário de demissões em massa que costuma acompanhar essas discussões. "Toda redução de jornada da história provocou o mesmo alarme, e a economia se adaptou. É um custo que vale a pena pagar pela enorme melhoria na qualidade de vida do trabalhador", afirmou em entrevista à Folha. Ostrowiecki sustenta que a escala 6×1 não é o principal fator que prejudica a competitividade da indústria brasileira. Burocracia, impostos sobre o consumo e juros elevados são, na sua avaliação, entraves muito mais relevantes para a formação dos preços no país.
Sua crítica vai além. "Quem se preocupa com a competitividade do país deveria começar cortando os privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador", disse. Ostrowiecki tem histórico de engajamento em questões de política e gestão pública — há cerca de 15 anos ajudou a criar o Ranking dos Políticos, um site de orientação liberal que reúne perfis de congressistas.
Ao falar sobre o que espera do próximo governo, Ostrowiecki cobrou uma reforma estrutural nas despesas públicas. Ele defende reforma administrativa, desvinculação de gastos e revisão de supersalários e penduricalhos para conter o crescimento obrigatório do orçamento. Sua crítica ao Estado é contundente: "O Estado brasileiro é o único agente da economia que nunca faz dieta. Quando falta dinheiro, ele aumenta a conta dos outros". Na avaliação do executivo, sem esse ajuste os juros continuarão pressionando empresas e consumidores.
A situação financeira do país preocupa Ostrowiecki também por razões diretas ao seu negócio. A Multilaser, que reúne produtos eletrônicos, acessórios de informática, eletroportáteis, itens de beleza e mobilidade elétrica, é fornecedora das Casas Bahia, que pediu recuperação judicial. A companhia provisionou cerca de R$ 31 milhões pela exposição à varejista, valor equivalente a pouco mais de 2% de sua carteira de recebíveis. O impacto é moderado porque a maior parte das vendas da empresa conta com seguro de crédito, mas o cenário reflete uma crise maior de endividamento.
Os números que Ostrowiecki cita são alarmantes. A Confederação Nacional do Comércio aponta que 82% das famílias brasileiras têm dívidas a vencer. A Serasa registrou quase 84 milhões de negativados em agosto. "Não existe engenharia comercial que compense juro de agiota por muito tempo", disse o empresário. Ele também criticou a política tributária para encomendas internacionais de até US$ 50, conhecida como taxa das blusinhas. A diferença de tributação entre fabricantes nacionais e vendedores estrangeiros pode transferir produção e empregos para a Ásia, com expansão das vendas diretas por marketplaces internacionais.
Com fábrica em Manaus, Ostrowiecki defendeu a redução ampla dos tributos sobre o consumo e citou a Zona Franca como exemplo de ambiente em que a indústria consegue competir. "Não defendo privilégio para Manaus, e sim redução geral nos tributos sobre o consumo", afirmou. Sua mensagem é consistente: o problema não está na jornada dos trabalhadores, mas na estrutura fiscal e orçamentária do Estado.
Notable Quotes
Toda redução de jornada da história provocou o mesmo alarme, e a economia se adaptou. É um custo que vale a pena pagar pela enorme melhoria na qualidade de vida do trabalhador— Alexandre Ostrowiecki, presidente da Multilaser
Quem se preocupa com a competitividade do país deveria começar cortando os privilégios do Estado, não o descanso do trabalhador— Alexandre Ostrowiecki