'Presidente Curtis' leva política ao absurdo com ameaças espaciais

O absurdo deixou de ser exclusividade da ficção
A série de Dan Harmon sobre um presidente fictício reflete uma realidade política que ficou tão absurda quanto a sátira.
Mark

Por que uma série sobre um presidente fictício que enfrenta ameaças espaciais consegue falar sobre política real de um jeito que a cobertura política muitas vezes não consegue?

Mimi

Porque o absurdo permite que você veja a estrutura. Quando você tira o presidente da situação normal, coloca robôs e vampiros ao redor, de repente fica claro o que sempre esteve lá: o desprezo pela população, o círculo de aproveitadores, a priorização do espetáculo sobre o problema real.

Luke

Mas espera — Harmon diz que não quer que a série lembre as pessoas de política. Então até que ponto essa crítica é intencional e até que ponto é só coincidência de que a realidade ficou tão absurda quanto a ficção?

Mimi

Acho que é os dois. Ele nega a intenção, mas coloca uma frase de efeito sobre esperança depositada em poucas pessoas na abertura de cada episódio. Isso não é acidental.

Mark

Curtis começou durante Obama, não durante Trump. O que mudou entre então e agora que torna a série mais relevante politicamente?

Luke

Bem, a série não mudou. A política é que ficou mais absurda. Então a série que era sátira virou quase documentário.

Mimi

E acho que Harmon está ciente disso. Por isso as provocações aparecem sorrateiramente — ele sabe que não precisa forçar a crítica. A realidade já está fazendo o trabalho.

Mark

Então qual é a responsabilidade do criador quando a ficção fica tão próxima da realidade?

Luke

Aí está a questão que a série não responde completamente. Harmon sugere que nos responsabilizemos mais por nossas escolhas, mas a série também mostra que as estruturas de poder são tão absurdas que talvez a responsabilidade individual seja insuficiente.

Mimi

Talvez seja exatamente isso que ele quer que a gente pense. Não é uma resposta fácil.

  • O absurdo que antes era privilégio da ficção científica migrou para o noticiário político americano, tornando impossível separar a sátira da realidade.
  • O criador insiste que a série não é um espelho da política atual, mas o próprio Trump achou a brincadeira boa o suficiente para republicar nas redes da Casa Branca.
  • As críticas mais afiadas não vêm do protagonista, mas do mundo ao redor: agências de segurança que disputam crédito sem resolver nada, governantes que ignoram quem os elegeu.
  • A série busca seu lugar numa linhagem nobre — Os Simpsons, South Park — mas opera com um eco do presente mais imediato, ainda sem tempo de se provar premonitória.
  • As provocações filosóficas chegam sorrateiramente, às vezes cantadas no chuveiro: quem podemos culpar se não cuidamos das nossas próprias responsabilidades?

Dan Harmon inventou um presidente que nunca existiu e, ao mesmo tempo, parece existir em toda parte. 'Presidente Curtis' é uma animação que nasce do absurdo para chegar à verdade: governantes desconectados, séquitos de oportunistas e populações mais seduzidas pelo espetáculo do que pelos problemas reais. Harmon nega a intenção política, mas a frase que abre cada episódio entrega o projeto: a humanidade deposita muita esperança em poucas pessoas — e isso, sugere ele, é um péssimo hábito.

Dan Harmon criou André Curtis, um presidente fictício centrado em si mesmo, desconectado da realidade e cujas decisões terminam sistematicamente em desastre. Ele enfrenta ameaças vindas do espaço, conta com uma agente parte máquina e convive com um aliado sem qualquer respeito por limites. Harmon jura que não quer que o público enxergue na série um reflexo da política real — mas o absurdo deixou de ser exclusividade da ficção há tempo suficiente para tornar essa desconexão impossível de sustentar.

Curtis nasceu durante a presidência Obama, entre 2009 e 2017. Além de ambos serem negros, as semelhanças param por aí. Com Trump, o presidente fictício compartilha apenas um ego desmedido — tanto que os perfis oficiais da Casa Branca chegaram a publicar sua própria versão da sátira, como se a piada fosse um elogio.

O que torna a série genuinamente política não é o protagonista, mas o universo que o cerca: as prioridades invertidas, o desprezo dos governantes pela população que os elegeu, o círculo de aproveitadores, a preferência do público pelo circo em vez das soluções reais. Essas críticas aparecem em cenas com bebês armados, na sobreposição cômica de agências de segurança americanas incapazes de conter uma crise mas desesperadas para levar o crédito, e num presidente que tenta usar eventos oficiais para reconquistar a ex-mulher, agora governadora.

Harmon insere suas provocações filosóficas sorrateiramente — às vezes cantadas no chuveiro na cena de encerramento de cada episódio. A frase que abre cada um deles resume o projeto: a humanidade deposita muita esperança em poucas pessoas, e isso é um péssimo hábito. Entre robôs, vampiros, bandidos espaciais e legiões pró-Napoleão, a série vai melhorando semana a semana e deixando uma pergunta no ar: algumas vezes monstros vão para a prisão, outras não — mas quem podemos culpar se não cuidamos das nossas próprias responsabilidades?

Dan Harmon criou um presidente que não existe, mas que parece cada vez mais familiar. André Curtis é um homem centrado em si mesmo, desconectado da realidade, cujas decisões rotineiramente terminam em desastre. Ele enfrenta ameaças que vêm do espaço. Tem ao seu lado uma agente que é parte máquina e um homem sem qualquer respeito por lei ou limite. Se isso soasse como ficção pura, seria mais fácil rir. Mas Harmon, criador da série de animação que leva o nome do personagem, jura que não quer que as pessoas vejam nela um reflexo daquilo que prefeririam esquecer: a política real.

O problema é que o absurdo deixou de ser exclusividade da ficção. Ele tomou conta do noticiário político, especialmente o americano, com tanta frequência que a desconexão entre a série e a realidade ficou impossível de manter. Curtis nasceu não durante os anos Trump, mas durante a presidência Obama, entre 2009 e 2017. Além de ambos serem negros, o presidente fictício pouco se parece com o democrata. Tampouco com o republicano, com quem compartilha apenas um ego desmedido — tanto que Trump achou a brincadeira tão divertida que os perfis da Casa Branca nas redes sociais publicaram sua própria versão da sátira.

O que torna a série política não é tanto o protagonista, mas o mundo ao seu redor. As piadas sobre prioridades invertidas. O desprezo generalizado dos governantes pela população que os elegeu. O círculo de aproveitadores que os cerca. A forma como o público responde muito melhor ao circo e ao espetáculo do que aos problemas reais que exigiriam soluções de verdade. Essas críticas aparecem em cenas com bebês armados, na sobreposição cômica e constante de agências de segurança americanas — nenhuma delas capaz de conter uma crise, mas todas desesperadas para levar o crédito. O presidente tenta usar eventos oficiais para reconquistar sua ex-mulher, agora governadora estadual.

Harmon não parece estar tentando escapar da política quando coloca uma frase de efeito na abertura de cada episódio: a humanidade deposita muita esperança em poucas pessoas; péssimo hábito. Ao contrário, ele sugere que nos responsabilizemos mais por nossas próprias escolhas e ações. A série pertence a uma linhagem de animação de humor fundada na crítica profunda à sociedade americana — a mesma que produziu Os Simpsons desde 1989 e South Park desde 1997. Mas aqui o eco dos acontecimentos correntes é mais sutil, ou talvez simplesmente não tenha havido tempo para que a série se provasse premonitória.

Entre robôs, vampiros, legiões pró-Napoleão em busca do pênis do imperador, bandidos espaciais e toda sorte de ficção científica que dá graça aos episódios — que melhoram a cada semana — há lições que André Curtis oferece. Essas provocações são inseridas sorrateiramente, às vezes cantadas no chuveiro na cena de encerramento. Uma delas: algumas vezes monstros vão para a prisão, outras não. Às vezes nós somos os verdadeiros monstros. Mas quem podemos culpar se a gente não lava as próprias bolas? É o tipo de pergunta que fica.

Harmon nega que quer que a série lembre as pessoas daquilo que gostariam de esquecer: a política
— Análise da série
Algumas vezes monstros vão para a prisão. Outras, eles não vão. Às vezes nós somos os verdadeiros monstros. Mas quem podemos culpar se a gente não lava as próprias bolas?
— Cena de encerramento de episódio
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