No Brasil, onde o HIV ainda encontra brechas na prevenção cotidiana, um estudo da Fiocruz publicado na Lancet oferece uma resposta que vai além da farmacologia: a proteção mais eficaz não é necessariamente a mais potente em laboratório, mas a que as pessoas conseguem, de fato, incorporar à vida. A PrEP injetável, aplicada a cada dois meses, protegeu 91% dos participantes contra o vírus — quase o dobro dos 47% alcançados com comprimidos diários — não porque seja quimicamente superior, mas porque libera o usuário do peso do esquecimento. O estudo, conduzido entre 2023 e 2025 com quase 1.500 pess
PrEP injetável oferece 91% de proteção contra HIV, o dobro da versão oral
O melhor vai ser o que a pessoa conseguir fazer
Por que a diferença de proteção é tão grande? A injeção é realmente mais potente?
Não é potência farmacológica. É adesão. A injeção funciona porque você não precisa lembrar de tomar algo todos os dias. A maioria das pessoas simplesmente esquece.
Mas o estudo mostra que mesmo quem escolheu a versão oral teve melhor adesão do que a rotina do SUS. Isso sugere que a escolha importa tanto quanto o formato.
Exatamente. Quando as pessoas decidem qual método usar, aderem melhor. Não é só a injeção que funciona melhor — é o empoderamento.
E quanto àqueles 17% que escolheram os comprimidos? Eles não estão em desvantagem?
Não necessariamente. Grinsztejn é clara: ambas são altamente eficazes. O melhor é o que a pessoa consegue fazer consistentemente.
Mas há um problema de equidade aqui. O estudo mostra que 80% dos usuários de PrEP oral são homens gays brancos com 30 anos ou mais. A incidência está crescendo entre jovens negros. Isso não é um fracasso do medicamento, é um fracasso de acesso.
Verdade. E é por isso que ter mais opções — injeção, comprimido, talvez em breve a versão de seis meses — importa. Diferentes pessoas precisam de diferentes soluções.
Quando a injeção vai estar disponível no SUS?
Ainda não há previsão. A Conitec está analisando. O Ministério da Saúde fez um acordo de compra em julho, mas incorporar ao SUS é outro processo.
E enquanto isso, a versão oral continua sendo a única opção pública. Para quem consegue tomar diariamente, funciona. Para quem não consegue, fica sem proteção.
Então o estudo é promissor, mas a implementação ainda é incerta?
Sim. Os dados são sólidos — 1.447 pessoas, seis cidades, um ano de acompanhamento. Mas transformar isso em política pública é mais lento.
El Pulso
- A diferença é concreta e urgente: entre mil pessoas acompanhadas por um ano, a injeção resultaria em apenas 2 infecções por HIV, contra 9 com comprimidos e 15 sem qualquer profilaxia.
- Oito em cada dez participantes escolheram a versão injetável, e a principal razão foi simples — ninguém quer depender de lembrar de um comprimido todos os dias para se proteger.
- O estudo expõe uma contradição incômoda: a maioria dos usuários atuais de PrEP oral no SUS são homens gays brancos com mais de 30 anos, enquanto o HIV avança entre jovens negros que ainda não chegam ao sistema.
- O Ministério da Saúde negocia a compra do cabotegravir e a Conitec analisa sua incorporação ao SUS, mas não há prazo definido — e cada mês de espera tem um custo humano mensurável.
- A pesquisadora principal alerta: a injeção não deve substituir o comprimido, mas ampliar o cardápio de escolhas — porque o melhor tratamento é o que cada pessoa consegue, de fato, fazer.
No Brasil, onde o HIV ainda encontra brechas na prevenção cotidiana, um estudo da Fiocruz publicado na Lancet oferece uma resposta que vai além da farmacologia: a proteção mais eficaz não é necessariamente a mais potente em laboratório, mas a que as pessoas conseguem, de fato, incorporar à vida. A PrEP injetável, aplicada a cada dois meses, protegeu 91% dos participantes contra o vírus — quase o dobro dos 47% alcançados com comprimidos diários — não porque seja quimicamente superior, mas porque libera o usuário do peso do esquecimento. O estudo, conduzido entre 2023 e 2025 com quase 1.500 pessoas do SUS em seis cidades brasileiras, coloca a autonomia do paciente no centro da saúde pública, lembrando que a melhor medicina é aquela que o ser humano consegue seguir.
Um estudo da Fiocruz publicado na Lancet redefiniu a conversa sobre prevenção do HIV no Brasil ao mostrar que a PrEP injetável oferece 91% de proteção contra o vírus, comparado a 47% da versão oral em comprimidos. A pesquisa acompanhou 1.447 usuários do SUS entre 18 e 30 anos — homens cisgêneros, pessoas transgênero, não-binárias e queer — em seis cidades que representam todas as regiões do país, entre outubro de 2023 e outubro de 2025.
A diferença de eficácia não vem da química, mas do comportamento. A infectologista Beatriz Grinsztejn, pesquisadora principal do estudo, explica que o ganho real está na adesão: a injeção, aplicada a cada dois meses, elimina o risco do esquecimento diário. Isso ficou evidente na preferência dos participantes — 83% escolheram a versão injetável, e a maioria citou dificuldade em manter a rotina de comprimidos como principal motivo.
Mas o estudo também expõe uma lacuna estrutural. Dados paralelos mostram que 80% dos usuários atuais de PrEP oral no SUS são homens gays cisgêneros, predominantemente brancos, com mais de 30 anos e alta escolaridade — um perfil que não corresponde a quem mais adquire HIV no país. A incidência cresce entre jovens negros, revelando falhas profundas no acesso equitativo à prevenção.
O cabotegravir já foi aprovado pela Anvisa em 2023 e chegou ao mercado privado em agosto de 2025. O Ministério da Saúde anunciou negociações de compra, e a Conitec analisa a incorporação ao SUS, sem prazo definido. Em janeiro deste ano, a Anvisa também aprovou o lenacapavir, versão injetável com intervalo de seis meses entre doses. Para Grinsztejn, a meta não é substituir o comprimido, mas ampliar as opções — porque a melhor prevenção é a que cada pessoa consegue, de fato, sustentar.
Um estudo conduzido pela Fiocruz e publicado na revista Lancet na quinta-feira passada traz dados que redefinem a conversa sobre prevenção do HIV no Brasil. A pesquisa acompanhou 1.447 pessoas que usam o SUS entre outubro de 2023 e outubro de 2025, testando duas formas de profilaxia pré-exposição: a versão injetável, chamada cabotegravir, e a versão oral em comprimidos. Os números falam por si. Quem recebeu a injeção a cada dois meses ficou protegido em 91% do tempo de acompanhamento. Quem tomou comprimidos diários alcançou 47% de proteção. Para colocar isso em perspectiva concreta: se mil pessoas fossem acompanhadas por um ano, apenas duas que usassem a injeção adquiririam HIV. Entre os que tomavam comprimidos, seriam nove. Na rotina padrão do SUS, sem nenhuma profilaxia, seriam quinze.
O estudo foi realizado em seis cidades escolhidas para representar todas as regiões do país: Campinas, Florianópolis, Manaus, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Os participantes tinham entre 18 e 30 anos, eram homens cisgêneros, pessoas transgênero, não-binárias e queer, todos com resultado negativo para HIV e sem uso prévio de PrEP. A diferença na proteção não se deve a uma eficácia farmacológica superior da injeção, conforme esclarece Beatriz Grinsztejn, infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas e pesquisadora principal do estudo. O ganho vem da adesão. A injeção funciona porque o usuário não precisa lembrar de tomar um comprimido todos os dias. Esquecimento é o inimigo silencioso da prevenção oral.
O que surpreendeu foi a preferência esmagadora pela versão injetável. Dos 1.447 participantes, 1.201 escolheram a injeção — 83%. Apenas 246 optaram pelos comprimidos. Entre os que preferiram a injeção, 78% citaram dificuldade para tomar medicação diariamente. Outros mencionaram a crença de que injeções seriam mais eficazes ou preocupações com efeitos colaterais dos comprimidos. Já quem escolheu a versão oral apontou principalmente aversão a injeções (46%) e confiança de que seria mais fácil lembrar de tomar o comprimido (34%). Mas mesmo entre os que optaram pelos comprimidos, a adesão foi melhor do que a observada na rotina do SUS — porque puderam escolher. Grinsztejn enfatiza que o verdadeiro poder está na autonomia do paciente. "O melhor vai ser o que a pessoa vai conseguir fazer, e não a que o profissional de saúde vai obrigá-la", diz ela.
A injeção é administrada com intervalo de um mês entre a primeira e segunda dose, depois a cada dois meses. A versão oral combina dois retrovirais — tenofovir disoproxil fumarato e emtricitabina — em um comprimido diário. Ambas são altamente eficazes quando usadas corretamente. O problema é que "corretamente" exige disciplina diária, algo que nem todos conseguem manter. Há também quem rejeite os comprimidos por estigma, receando que o uso visível de medicação revele seu status de risco.
Mas há uma lacuna crítica que o estudo também expõe. Um levantamento paralelo do mesmo grupo de pesquisadores mostra que em abril de 2026, 80% das 153.529 pessoas usando PrEP oral no Brasil eram homens gays e outros homens cisgêneros que fazem sexo com homens, predominantemente brancos, com 30 anos ou mais e alto nível de escolaridade. Esse perfil não corresponde a quem adquire HIV com maior frequência no país. A incidência está crescendo entre jovens negros. A discrepância revela que muitas pessoas que poderiam se beneficiar da PrEP ainda estão sendo deixadas de lado, com lacunas críticas no acesso equitativo e nas ações de divulgação.
O Ministério da Saúde anunciou em julho um acordo de compra do cabotegravir, desenvolvido pela ViiV Healthcare, controlada majoritariamente pela GSK. A Anvisa aprovou o medicamento em 2023, e começou a ser vendido no mercado privado em agosto de 2025. Agora a decisão sobre incorporação ao SUS está sob análise da Conitec, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS. Não há previsão de quando será disponibilizado. Em janeiro deste ano, a Anvisa também aprovou outra versão injetável, o lenacapavir, com intervalo ainda maior entre aplicações — seis meses — mas seus preços ainda são desconhecidos. Grinsztejn ressalva que a injeção não deve substituir a versão oral, mas ampliá-la. "Um serviço abrangente de PrEP deve integrar as melhores opções disponíveis, aprimoradas por intervenções acessíveis que promovam a escolha, para reduzir significativamente novas infecções por HIV e melhorar os resultados em saúde pública", afirmam os pesquisadores no artigo.
Citas Notables
O que sabemos é que empoderar o paciente é a forma mais eficaz de prevenir o HIV, porque ele vai saber qual é a melhor opção para sua dinâmica de vida— Beatriz Grinsztejn, infectologista e pesquisadora principal do estudo
Um serviço abrangente de PrEP deve integrar as melhores opções disponíveis, aprimoradas por intervenções acessíveis que promovam a escolha, para reduzir significativamente novas infecções por HIV— Pesquisadores da Fiocruz no artigo publicado na Lancet