No limiar entre a ciência e a justiça social, um estudo brasileiro revela que uma injeção semestral contra o HIV desperta desejo onde o comprimido diário não chegou: entre aqueles que nunca haviam se protegido. A Fiocruz demonstrou, às vésperas da Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro, que o lenacapavir conquista quase unanimidade entre voluntários — mas a promessa esbarra numa negociação de preço que separa a descoberta do acesso. A inovação, sem equidade, permanece privilégio.
PrEP injetável contra HIV aplicada duas vezes por ano tem 97% de aceitação em estudo da Fiocruz
Inovação sem acesso é injustiça
Por que 97% dos participantes escolheram a injeção em vez dos comprimidos diários?
Porque a vida real não funciona como um protocolo de pesquisa. Tomar um comprimido todo dia exige disciplina, memória, rotina — coisas que falham. Uma injeção a cada seis meses é simples, previsível, difícil de esquecer.
Mas o estudo não prova que as pessoas vão continuar voltando para as injeções depois que terminar?
Não prova, mas sugere algo importante: 78% nunca tinham usado PrEP antes. Não é que trocaram de método. É que encontraram uma porta de entrada que finalmente funciona para eles.
Como exatamente o lenacapavir funciona diferente dos outros antiretrovirais?
A maioria dos medicamentos bate em uma coisa específica do vírus. O lenacapavir bate na estrutura inteira — o capsídeo, que é como a casca protetora. Quando você danifica a casca, tudo desaba ao mesmo tempo.
E por que isso permite aplicações a cada seis meses?
Porque a ligação é duradoura. O medicamento fica lá, no seu corpo, fazendo seu trabalho por meses. Não é como um comprimido que você toma e sai do seu sistema em horas.
Então por que o Brasil não consegue negociar um preço melhor?
Porque a Gilead sabe que funciona. Sabe que as pessoas querem. E está cobrando como se fosse ouro. O Brasil ofereceu dez vezes mais do que paga a Indonésia e ainda foi rejeitado.
O que acontece agora?
Espera. O governo diz que não vai pagar preço estratosférico. A Gilead diz que está conversando. Enquanto isso, 140 mil pessoas no Brasil tomam PrEP diária, e essa injeção que 97% querem fica fora do alcance.
El Pulso
- 97% dos voluntários elegíveis escolheram a injeção semestral em vez dos comprimidos diários, um sinal de que a forma de uso importa tanto quanto a eficácia.
- Quase 80% dos participantes nunca haviam usado nenhuma forma de PrEP antes, revelando uma lacuna de prevenção que o lenacapavir pode ser capaz de preencher.
- Com eficácia próxima a 100% e recomendação da OMS, o medicamento já é considerado a melhor alternativa disponível contra o HIV enquanto não existe vacina.
- O governo brasileiro se recusa a pagar o preço exigido pela Gilead, e o ministro da Saúde adverte que não drenará recursos públicos para o lucro de uma empresa.
- A Gilead menciona conversas regionais e possíveis parcerias de fabricação, mas não apresenta cronograma — deixando o acesso ao SUS em compasso de espera.
No limiar entre a ciência e a justiça social, um estudo brasileiro revela que uma injeção semestral contra o HIV desperta desejo onde o comprimido diário não chegou: entre aqueles que nunca haviam se protegido. A Fiocruz demonstrou, às vésperas da Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro, que o lenacapavir conquista quase unanimidade entre voluntários — mas a promessa esbarra numa negociação de preço que separa a descoberta do acesso. A inovação, sem equidade, permanece privilégio.
Um medicamento injetável aplicado apenas duas vezes por ano contra o HIV obteve adesão quase unânime em estudo conduzido pela Fiocruz: 651 dos 668 voluntários elegíveis — 97% — optaram pelo lenacapavir em vez dos comprimidos diários de PrEP já disponíveis no SUS. Os dados preliminares do ImPrEP LEN-Brasil, primeiro estudo de implementação do medicamento na América Latina, serão apresentados na 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro.
O que torna o resultado ainda mais expressivo é o perfil dos participantes: 78,3% nunca haviam usado nenhuma forma de PrEP anteriormente. Para os pesquisadores, isso indica que a opção injetável de longa duração pode alcançar justamente quem enfrenta dificuldades em manter o uso diário de medicamentos orais. A coordenadora do estudo, Beatriz Grinsztejn, do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz, destacou que estratégias de ação prolongada têm grande potencial de ampliar a cobertura preventiva na vida real.
O lenacapavir age de forma distinta dos antivirais convencionais: em vez de bloquear uma única etapa da infecção, ele mira o capsídeo do vírus, impedindo que o material genético do HIV alcance o núcleo da célula. Estudos clínicos de grande porte demonstraram eficácia próxima a 100%, inclusive entre mulheres — grupo historicamente sub-representado nas estratégias de prevenção. A Organização Mundial da Saúde já o recomenda como a melhor alternativa disponível enquanto não existe vacina.
O principal obstáculo à chegada do medicamento ao SUS é o preço. O Brasil se propôs a pagar até dez vezes o valor praticado em países como Indonésia e Tailândia, mas a fabricante Gilead não aceitou a proposta. O ministro da Saúde, Marcelo Padilha, foi categórico: o governo não avançará na incorporação enquanto o preço for incompatível com a capacidade do sistema público, afirmando que inovação sem acesso é injustiça. A Gilead, por sua vez, afirma seguir os processos regulatórios brasileiros e avalia parcerias regionais de fabricação, mas sem apresentar cronograma concreto. Com cerca de 140 mil pessoas usando PrEP no Brasil e 40,8 milhões vivendo com HIV no mundo, a negociação de preço se torna o próximo — e decisivo — capítulo dessa história.
Um medicamento injetável aplicado apenas duas vezes por ano contra o HIV conquistou uma adesão surpreendente em um estudo brasileiro conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz. De 668 voluntários elegíveis para a pesquisa, 651 — ou 97% — escolheram começar a usar o lenacapavir em vez de continuar com os comprimidos diários de PrEP já disponíveis no Sistema Único de Saúde desde 2018. Os números preliminares fazem parte do ImPrEP LEN-Brasil, o primeiro estudo de implementação deste medicamento na América Latina, e serão apresentados na 26ª Conferência Internacional de Aids, que ocorre no Rio de Janeiro.
A PrEP — profilaxia pré-exposição — é uma estratégia de prevenção para pessoas que não têm HIV. Os medicamentos impedem que o vírus se estabeleça no organismo caso haja exposição. O que torna o lenacapavir particularmente atraente é sua frequência de aplicação: uma injeção a cada seis meses, em contraste com a necessidade de tomar comprimidos todos os dias. Entre fevereiro e julho deste ano, 695 pessoas passaram por triagem para o estudo; 668 atendiam aos critérios de elegibilidade.
Um dado que os pesquisadores consideram especialmente relevante é que 78,3% dos voluntários que começaram a usar o lenacapavir nunca haviam utilizado nenhuma forma de PrEP anteriormente. Isso sugere que a opção injetável de longa duração pode alcançar justamente as pessoas que enfrentam dificuldades para iniciar ou manter o uso consistente de medicamentos orais. Beatriz Grinsztejn, pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz e coordenadora do estudo, afirmou que as pessoas demonstram grande interesse por novas tecnologias de prevenção e que estratégias de ação prolongada podem ser muito efetivas na vida real, ampliando as possibilidades de cobertura preventiva.
O lenacapavir, comercializado como Sunlenca, funciona de forma inovadora. Em vez de atacar uma única etapa da infecção pelo HIV, o medicamento mira o capsídeo — a estrutura de proteína que funciona como uma cápsula protetora do material genético do vírus. Ao interferir nesse processo, o lenacapavir dificulta que o vírus se desencaixe no momento certo e leve seu material genético até o núcleo da célula, etapa essencial para que a infecção se estabeleça. Estudos clínicos de grande porte mostraram eficácia próxima a 100% na prevenção do HIV, inclusive entre mulheres, grupo que historicamente enfrenta mais limitações com os métodos disponíveis. A Organização Mundial da Saúde passou a recomendar o lenacapavir como opção adicional de PrEP e o classificou como a melhor alternativa disponível enquanto não existe uma vacina contra o vírus.
Mas há um obstáculo significativo entre o resultado promissor do estudo e a chegada do medicamento ao SUS: o preço. O preço máximo ainda precisa ser definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos antes de uma eventual avaliação para incorporação ao sistema público. O Brasil se dispôs a pagar até dez vezes o valor oferecido a países como Indonésia e Tailândia, mas a proposta não foi aceita pela fabricante Gilead. O ministro da Saúde, Marcelo Padilha, afirmou que o governo não pretende avançar na incorporação enquanto o preço for considerado incompatível com a capacidade de pagamento do SUS, declarando que não vai drenar recursos que são fruto dos impostos dos cidadãos brasileiros para o interesse de lucro de uma empresa. Ele também ressaltou que inovação sem acesso é injustiça e exigiu que as novas tecnologias sejam oferecidas com preços adequados, não estratosféricos.
A Gilead, em nota, disse que segue no Brasil os processos de definição de preço e avaliação previstos no sistema de saúde, mas ainda não há um cronograma para a conclusão dessas etapas. A empresa afirmou que mantém conversas com a Organização Pan-Americana da Saúde sobre uma possível estratégia regional para ampliar o acesso ao lenacapavir na América Latina e no Caribe, e que avalia possíveis parcerias com organizações locais para desenvolver capacidade de fabricação na América Latina, inclusive no Brasil. Qualquer iniciativa, segundo a Gilead, dependerá de análises regulatórias, técnicas e econômicas. Atualmente, cerca de 140 mil pessoas utilizam a PrEP diariamente no Brasil, e 40,8 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo. O próximo passo é a negociação de preço que determine se essa tecnologia promissora chegará aos brasileiros que mais precisam dela.
Citas Notables
As pessoas estão mais atentas e demonstram muito interesse pelas novas tecnologias de prevenção. A gente precisa ampliar as possibilidades de as pessoas estarem cobertas por uma estratégia de prevenção.— Beatriz Grinsztejn, pesquisadora do INI/Fiocruz e coordenadora do estudo
Não vamos drenar o recurso que é fruto dos impostos dos cidadãos brasileiros para o interesse de lucro de uma empresa apenas.— Marcelo Padilha, ministro da Saúde