Prefeituras adotam IA para aproximar serviços públicos do cidadão

A prefeitura vai até o cidadão. É uma mudança de paradigma.
Diretor de gestão da Empresa Municipal de Informática do Recife descreve o impacto de levar serviços públicos para plataformas digitais.
Mark

Por que a pandemia foi tão importante para esse movimento de IA nas prefeituras?

Mimi

Porque forçou as cidades a pensarem diferente. Recife precisava vacinar rápido, então criou um app em tempo recorde. Depois percebeu que tinha dados valiosos e começou a construir sobre isso.

Luke

Mas é importante notar que isso aconteceu em Recife, uma capital. A pesquisa da Gove mostra que 95% das prefeituras ainda não usam IA. Então estamos falando de exceções, não de tendência geral.

Mark

Qual é o maior obstáculo para expandir isso?

Mimi

Faltam pessoas. Dois terços das prefeituras pesquisadas não tinham nem um especialista em dados. Sem infraestrutura e sem gente qualificada, é difícil começar.

Luke

E há também a questão legal. O jurídico municipal é conservador — ninguém quer assinar um contrato para inovação se não tem precedente. Isso paralisa as decisões.

Mark

Então essas cidades que estão usando IA — elas estão realmente resolvendo problemas?

Mimi

Sim. Em Recife, o GO Recife conecta desempregados com oportunidades de trabalho. Em São Paulo, o Sofia ajuda servidores a responder perguntas sobre impostos mais rápido. No Rio, um drone planta sementes para reflorestamento.

Luke

Mas a gente não tem números sobre impacto real. Quantas pessoas conseguiram emprego via GO Recife? Quanto tempo economizou? Quantas árvores foram plantadas? Os dados de sucesso são mais qualitativos que quantitativos.

Mark

E quanto à privacidade? Essas prefeituras estão lidando com dados pessoais.

Mimi

Sim, e por isso o cuidado é maior, especialmente em parcerias com big techs. A LGPD existe justamente para isso.

Luke

Mas a pesquisa mostrou que 38% das prefeituras ainda não se adaptaram à LGPD. Então há um risco real de que dados de cidadãos não estejam sendo protegidos adequadamente enquanto essas cidades experimentam com IA.

Mark

Qual cidade está mais avançada?

Mimi

Recife e São Paulo estão à frente. Recife porque começou cedo e construiu uma estratégia integrada. São Paulo porque tem recursos e parcerias com universidades.

Luke

Verdade, mas Porto Alegre também está fazendo coisas interessantes — detecção de câncer, análise de placas de veículos. O que diferencia é que cada cidade está seguindo um caminho próprio, não há um modelo único.

Mark

Isso vai mudar a forma como as pessoas acessam serviços públicos?

Mimi

Já está mudando. Um cidadão em Recife pode resolver problemas pelo WhatsApp. Em São Paulo, um servidor consegue responder mais rápido. É uma mudança de paradigma.

Luke

Mas só para quem tem acesso a essas cidades e a essas ferramentas. A maioria das prefeituras ainda não oferece nada disso. Então há um risco de aumentar a desigualdade entre quem vive em cidades com IA e quem não vive.

  • Apenas 4,8% das prefeituras brasileiras usam IA em alguma atividade
  • 67,9% das prefeituras pesquisadas não tinham especialista em dados dedicado
  • Recife criou GO Recife em 2021, plataforma que conecta desempregados a oportunidades de trabalho
  • Drone em Rio de Janeiro consegue lançar 100 mil sementes em 5 horas para reflorestamento
  • Brasília planeja investir R$ 20 milhões em dois anos em ecossistema de IA

Prefeituras como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro já usam chatbots e sistemas de IA para conectar cidadãos a serviços públicos, reduzindo filas e burocracias tradicionais. A pandemia acelerou a transformação digital municipal, com cidades criando laboratórios de inovação e parcerias com universidades e big techs para desenvolver soluções tecnológicas.

Dezenas de cidades brasileiras integram sistemas de inteligência artificial para agilizar processos internos e facilitar o acesso a serviços públicos, desde agendamentos até análise de dados, com exemplos em Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais.

Pedir uma segunda via do IPTU ou solicitar a poda de uma árvore na rua sempre foi uma jornada burocrática nas prefeituras brasileiras — ligações, filas, formulários, esperas. Mas em dezenas de cidades, essa realidade está mudando. Governos municipais começam a integrar sistemas de inteligência artificial nos seus processos, transformando o atendimento ao cidadão e tornando serviços públicos mais acessíveis com alguns cliques.

Apesar de apenas 4,8% das prefeituras do país utilizarem IA em alguma atividade, o movimento ganha força nas capitais e em cidades médias. A pandemia funcionou como catalisador. Quando a vacinação precisava ser ágil, Recife criou um aplicativo em tempo recorde para agendamentos e descobriu, no processo, uma ferramenta poderosa: dados sobre seus cidadãos. Desde então, a prefeitura pernambucana expandiu essa experiência. Hoje, através do portal Conecta Recife, um morador acessa mais de 650 serviços municipais. Quando surge dúvida, um robô digital — alimentado por IA — identifica qual serviço é mais adequado ao problema, considerando até a localização do usuário. No WhatsApp, outro chatbot responde perguntas, avisa sobre consultas marcadas no SUS com 15 dias de antecedência e oferece guias turísticos em inglês, espanhol e francês.

O primeiro grande produto de Recife foi o GO Recife, lançado em 2021. A plataforma conecta quem procura emprego com quem oferece vagas ou contrata serviços. Um algoritmo gera um currículo profissional em segundos, baseado em dados de formação do trabalhador. O sucesso foi tal que Belo Horizonte, Londrina e Rio de Janeiro já planejam replicar o modelo. Internamente, a prefeitura também usa IA para agilizar análise e liberação de crédito no CredPop, um programa de empréstimos para micro e pequenos empreendedores. Um robô cria planos de negócios e sugere caminhos para aumentar rentabilidade. Na saúde, sistemas de IA analisam hemogramas e auxiliam médicos a detectar hipertensão, diabetes e neoplasias.

São Paulo, a maior cidade do país, acelerou seu investimento em IA após criar o hub Inspira Sampa em 2022, em parceria com big techs e universidades como a Mackenzie. Em dezembro de 2023, a Prodam-SP lançou quatro produtos da linha "Pronto": Reconhece Aí, Conversa Aí, Documenta Aí e Classifica Aí. Essas ferramentas identificam, validam, classificam e preenchem documentos, formulários e relatórios — usáveis também por empresas. Na Secretaria da Fazenda, Sofia, um chatbot interno descrito como um "ChatGPT dos servidores", ajuda funcionários a buscar informações rápidas sobre IPTU, ITBI e taxas para melhorar o atendimento. Na SPTrans, a IA auxilia no planejamento de linhas de ônibus e no gerenciamento do Bilhete Único para combater fraudes.

Outras cidades desenvolvem soluções criativas. No Rio de Janeiro, um drone pilotado por IA dispersa cápsulas de sementes nativas para reflorestamento em Campo Grande, na Zona Oeste, com capacidade de lançar 100 mil sementes em cinco horas. Outro projeto processa previsões meteorológicas em tempo real através de modelos de IA, em colaboração com instituições como Impa, LNCC, Cefet-RJ e UFF, para que o AlertaRio e o Centro de Operações Rio definam ações proativas contra fenômenos climáticos. Em Porto Alegre, um smartlab estruturou um departamento de inovação que orienta o uso de IA na administração municipal. Lá, redes neurais detectam uso de máscara em centros cirúrgicos, sistemas inteligentes avaliam a pavimentação de vias públicas, e câmeras de vigilância identificam sinais de incêndio ou invasão a prédios. Em teste estão ferramentas para detecção precoce de câncer de pele e mama, análise de placas de veículos em tempo real e o SmartGen POA, um ChatGPT municipal para análise de documentos internos.

Em cidades médias como Pindamonhangaba, seis ferramentas de IA já auxiliam a gestão municipal. Um chatbot no WhatsApp tira dúvidas sobre serviços, impostos, trânsito e mobilidade, desenvolvido com tom amigável pela startup Gove. Fortaleza lançou em novembro a Marisol, uma assistente virtual que reúne serviços on-line e informações úteis. A capital cearense também desenvolve ferramentas para videomonitoramento — contabilizar ciclistas, identificar descarte irregular de lixo e prever acidentes de trânsito. Brasília testa modelos de IA para medir qualidade do ar e água em tempo real e planeja investir R$ 20 milhões em dois anos em um ecossistema para desenvolver soluções em IA no Distrito Federal.

Mas o potencial permanece amplamente inexplorado. Uma pesquisa da Gove realizada entre 2021 e 2022 com 84 prefeituras revelou que 67,9% não tinham nem um especialista em dados dedicado. Apenas 38,1% adaptaram suas atividades à Lei Geral de Proteção de Dados. A falta de infraestrutura tecnológica, pessoal especializado e conformidade regulatória bloqueia a expansão. Rodolfo Fiori, cofundador da Gove, aponta outro obstáculo: o conservadorismo do jurídico municipal. "O jurídico municipal ainda é bastante conservador com relação à aplicação de novas leis para contratação de inovação. Isso dá muito temor e gera, no fim das contas, aquele apagão das canetas, onde ninguém quer assinar para contratar uma inovação." Gestores também precisam redobrar atenção aos riscos envolvidos no uso de IA quando lidam com extensas bases de dados de cidadãos — especialmente em parcerias com big techs, onde o manuseio de informações exige cuidado redobrado.

O salto tecnológico foi gigantesco durante a pandemia, e agora, com a IA, será ainda maior. É claro que tem cidades que já estão muito desenvolvidas e outras nem tanto. Mas a tecnologia hoje é necessária, e quem não usa perde pontos.
— Johann Dantas, presidente da Anciti
O jurídico municipal ainda é bastante conservador com relação à aplicação de novas leis para contratação de inovação. Isso dá muito temor e gera, no fim das contas, aquele apagão das canetas, onde ninguém quer assinar para contratar uma inovação.
— Rodolfo Fiori, cofundador da Gove
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