A Esquerda venceu eleições em Berlim com 43-48% do voto jovem, capitalizando crise habitacional onde 85% dos domicílios são alugados e preços subiram 78% em nove anos. Eralp planeja estatizar apartamentos via 'socialização' (figura jurídica alemã), custando €7-40 bilhões, enquanto enfrenta acusações de antissemitismo e ligações com crime organizado.
Prefeita eleita de Berlim promete estatizar apartamentos e assusta establishment alemão
Fizemos história, amigos. Disse em turco, idioma que usou em boa parte de sua campanha.
Por que a vitória de Eralp assusta tanto o establishment alemão se ela não tem maioria?
Porque ela representa algo que a Alemanha não via há décadas — um partido de esquerda radical ganhando em uma capital europeia enquanto a extrema direita avança simultaneamente. É o espectro político se rasgando.
Mas vale notar que A Esquerda não é classificada como extremista pelos serviços de segurança alemães, ao contrário da AfD. Há uma diferença real ali.
E quanto às acusações de antissemitismo? Parecem graves.
São tensas, sim. O partido atraiu movimentos pró-Palestina, e Eralp chamou Israel de extremista. Mas há também 150 intelectuais judeus que veem instrumentalização do termo por parte da própria comunidade.
Isso é importante: há desacordo genuíno dentro da comunidade judaica sobre como interpretar essas posições. Não é consenso, e a reportagem deixa isso claro.
Ela realmente mora em um apartamento alugado?
Sim, em Kreuzberg, com marido e dois filhos. É inquilina de verdade, não é retórica.
E isso significa que se sua política passar, ela própria será afetada. Há uma coerência ali que vale mencionar.
Os números da crise habitacional são realmente tão extremos?
Completamente. Oitenta e cinco por cento dos domicílios alugados, preços subindo 78% em nove anos, 211 mil novos domicílios necessários até 2040. É uma crise real.
E ela ressoa especialmente com jovens — 43 a 48% do voto dela veio de pessoas entre 16 e 34 anos. Não é um voto de protesto abstrato, é sobre onde morar.
O que acontece agora?
Negociações de coalizão com Verdes e SPD. Eles vão cobrar limites ao radicalismo em troca de apoio.
E há uma questão prática: o SPD vai precisar aceitar a socialização de apartamentos para governar com ela. É um teste real de quanto estão dispostos a ceder.
O Pulso
- A Esquerda venceu eleições em Berlim com 43-48% do voto entre jovens de 16-34 anos
- 85% dos domicílios berlinenses são alugados; preços subiram 78% em nove anos
- Eralp planeja estatizar 200 mil apartamentos custando €7-40 bilhões
- Elif Eralp, 45, filha de refugiados turcos, mora em apartamento alugado em Kreuzberg
- AfD avança simultaneamente em outras regiões alemãs rumo ao primeiro governo de extrema direita desde 1945
A Esquerda venceu eleições em Berlim com 43-48% do voto jovem, capitalizando crise habitacional onde 85% dos domicílios são alugados e preços subiram 78% em nove anos. Eralp planeja estatizar apartamentos via 'socialização' (figura jurídica alemã), custando €7-40 bilhões, enquanto enfrenta acusações de antissemitismo e ligações com crime organizado.
Elif Eralp, filha de refugiados turcos e advogada, foi eleita provável prefeita de Berlim com promessa de socializar 200 mil apartamentos. Sua vitória reflete preocupação dos jovens berlinenses com crise habitacional, mas gera tensões sobre antissemitismo e radicalismo.
Elif Eralp usava um cordão dourado no pescoço com uma palavra em alemão: Mietendeckel. Teto para aluguel. Era sua campanha resumida em um acessório, e funcionou. A advogada de 45 anos, filha de refugiados turcos que fugiram de um golpe de Estado nos anos 1980, tornou-se a provável próxima prefeita de Berlim após seu partido, A Esquerda, vencer as eleições no último domingo. Ela mesma é inquilina — mora em um apartamento alugado no bairro de Kreuzberg com o marido e dois filhos — e sua campanha de porta em porta, frequentemente conduzida em turco, ressoou especialmente entre os jovens da cidade.
O resultado reflete uma urgência que domina a política berlinense. Oitenta e cinco por cento dos domicílios na capital alemã são alugados, uma proporção que supera Paris, onde é 61%, e São Paulo, onde chega a apenas 29%. Nos últimos nove anos, o preço do metro quadrado disparou 78%. A cidade precisará de 211 mil novos domicílios até 2040. Em 2021, um referendo sobre congelamento de aluguéis recebeu apoio de 58% da população, mas não avançou no Legislativo. Este ano, moradia lidera a lista de problemas urgentes dos eleitores — citada duas vezes mais que transporte, o segundo colocado. A Esquerda conquistou entre 43% e 48% do voto de eleitores entre 16 e 34 anos, um eleitorado jovem, feminino e urbano que contrasta radicalmente com a base da AfD.
O plano de Eralp vai além de congelamento. Ela promete estatizar mais de 200 mil apartamentos através de uma figura jurídica alemã chamada "socialização", que reconhece a função social da propriedade privada como motivo para tomá-la mediante indenização. O custo estimado varia dramaticamente: seu partido calcula 7 bilhões de euros, enquanto o mercado projeta 40 bilhões. As ações da Vonovia, maior empresa do setor com 130 mil apartamentos na cidade, despencaram na Bolsa de Frankfurt. O primeiro-ministro Friedrich Merz chamou o plano de "expropriação" e prometeu legislação federal para combatê-lo, ainda que o termo seja impreciso juridicamente.
Mas a vitória de Eralp gerou turbulência que vai além da economia imobiliária. Seu partido, versão atualizada do Partido Socialista e herdeiro político do SED — a legenda única da Alemanha Oriental — atraiu uma miríade de movimentos de imigrantes, inclusive grupos pró-Palestina. Eralp classificou o governo de Israel como "extremista de direita", o que em um país com Lei Antissemitismo desde 2024 deixa pouca margem para debate. Uma das principais entidades judaicas do país pediu aos Verdes e ao SPD que não aderissem à coalizão proposta pela Esquerda para "evitar a crescente normalização do antissemitismo". Dias depois, 150 intelectuais judeus da cidade denunciaram em carta aberta o que viam como "instrumentalização" do termo por parte da própria comunidade e da imprensa.
Houve também questões de segurança. Um parlamentar do partido foi flagrado conversando com o crime organizado e afastado. O chefe da facção, de origem libanesa, apareceu em uma festa da agremiação no último fim de semana. Quando reconhecido, foi convidado a se retirar, segundo Eralp, que minimizou o ocorrido. Sua trajetória — frequentemente comparada à do prefeito de Nova York Zohran Mamdani — foi pouco explorada na imprensa alemã, mais ocupada com essas acusações.
A Esquerda não conquistou maioria em Berlim, cidade-estado onde a função de prefeito se mescla com a de governador. Eralp agora negocia coalizão com os Verdes e o SPD, que cobrarão limites ao radicalismo. Com o SPD, a discussão terá que passar especificamente pela socialização de apartamentos — incluindo, potencialmente, o próprio apartamento de Eralp em Kreuzberg. No discurso da vitória, ela agradeceu a um integrante da Anistia Internacional por salvar sua família de um abrigo de refugiados. "Fizemos história, amigos", disse em turco. Essa foi a parte fácil. O que vem agora é negociar o que significa essa história em uma Alemanha onde a AfD avança simultaneamente em outras regiões, tendo conquistado a maior votação em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e a maior bancada em Saxônia-Anhalt, negociando com a sigla nanica BSW para formar o primeiro governo de extrema direita desde a Segunda Guerra Mundial.
Citações Notáveis
Sou inquilina, advogada e mãe. Conheço o medo que muitos berlinenses têm do próximo aumento do aluguel.— Elif Eralp, em sua propaganda eleitoral
Os judeus devem se sentir seguros em nossa cidade— Elif Eralp, respondendo a acusações de antissemitismo