O piso de preços para hardware de games é provavelmente mais alto do que era antes
Em meio à corrida global pela inteligência artificial, os componentes que movem os videogames estão sendo redirecionados para alimentar datacenters, deixando jogadores diante de uma escassez que analistas temem ser permanente. O mercado gamer, acostumado a ciclos de renovação acessíveis, enfrenta agora a possibilidade de que os preços de hardware nunca mais retornem aos patamares anteriores a 2026. É um momento de inflexão silenciosa: não uma ruptura dramática, mas uma lenta redefinição de quem pode participar do jogo — e de que forma.
- A demanda insaciável de IA está desviando a produção de memória RAM e outros componentes essenciais para datacenters, deixando o mercado gamer sem fôlego.
- Analistas alertam que os aumentos de preço ainda não atingiram o pico, com fábricas comprometidas com grandes empresas de tecnologia até pelo menos 2028.
- A divisão entre especialistas é reveladora: enquanto alguns apostam em recuperação gradual após 2028, outros preveem que o hardware gamer acessível simplesmente deixará de existir como categoria.
- O modelo de acesso ao gaming pode mudar radicalmente, com grandes empresas migrando para o aluguel de PCs e consoles virtuais na nuvem por assinatura mensal.
- O mercado já esboça sua adaptação: catálogos antigos, mobile gaming, serviços de assinatura e descontos agressivos em títulos AAA devem sustentar a base de jogadores durante a turbulência.
Os preços de computadores e consoles dispararam nos últimos meses, e analistas da indústria alertam que a tendência pode ser duradoura. A principal responsável é a demanda voraz de inteligência artificial: fábricas de componentes essenciais, especialmente memória RAM, estão tendo sua capacidade desviada para alimentar os datacenters dos grandes hyperscalers. O mercado gamer ficou em segundo plano — e os especialistas avisam que o pico dos aumentos ainda não chegou.
James McWhirter, da Omdia, é direto: as fábricas permanecerão comprometidas com os hyperscalers até pelo menos 2028, e mesmo após a expansão da capacidade, o reequilíbrio entre oferta e demanda levará tempo. Um retorno aos preços pré-2026 parece cada vez mais improvável. Tiago Reis, da Newzoo, reforça a avaliação e acrescenta um dado significativo: 66% do tempo de jogo em PC durante 2025 veio de títulos lançados há mais de seis anos, sugerindo que boa parte dos jogadores já opera fora do ciclo de hardware de ponta.
As visões sobre o futuro divergem. Joost van Dreunen, da NYU Stern, prevê que o segmento de hardware abaixo de 500 dólares simplesmente deixará de ser atendido, com as grandes empresas migrando para o modelo de aluguel de consoles e PCs virtuais na nuvem. Já o Dr. Serkan Toto, da Kantan Games, é mais cautelosamente otimista: compara o momento atual à crise de suprimentos da pandemia, quando consoles eram impossíveis de encontrar — e que, de forma surpreendentemente abrupta, se resolveu.
Rhys Elliott, da Alinea Analytics, aponta como o mercado deve se reorganizar: mais ênfase em jogos para consoles que as pessoas já possuem, descontos agressivos em títulos AAA mais antigos, expansão dos serviços de assinatura e crescimento do mobile gaming. Comprar um lançamento AAA no dia de estreia está se tornando um luxo, mas o vasto catálogo acumulado garante que os games continuem acessíveis para a maioria. A indústria não está desaparecendo — está se transformando.
Os preços dos computadores e consoles de jogos dispararam nos últimos meses, e segundo analistas da indústria, essa tendência pode estar aqui para ficar. A culpa, em grande medida, recai sobre a demanda voraz de inteligência artificial. Fábricas que produzem componentes essenciais — especialmente memória RAM — estão tendo sua capacidade desviada para alimentar os datacenters gigantescos das grandes empresas de tecnologia, os chamados hyperscalers. Essa redirecionamento de recursos deixou o mercado gamer em aperto, e os especialistas alertam que os aumentos de preço ainda nem atingiram seu pico.
A questão que paira sobre a indústria é simples, mas incômoda: quando essa escassez terminar, os preços voltarão ao que eram? James McWhirter, analista sênior da Omdia, oferece uma resposta pouco reconfortante. As fábricas permanecerão comprometidas com os hyperscalers até pelo menos 2028. Mesmo quando essa capacidade se expandir, levará tempo considerável para que a oferta se equilibre novamente com a demanda. E mesmo nesse cenário otimista, um retorno aos preços que vigoravam antes de 2026 parece cada vez mais improvável.
Tiago Reis, analista de marketing da Newzoo, é direto em sua avaliação: a indústria está entrando em um período onde o piso de preços para hardware de games provavelmente será mais alto do que era antes. Isso não significa que os preços não possam cair em algum momento, mas as expectativas de retorno aos patamares anteriores estão se tornando cada vez mais remotas. Reis também compartilhou um dado revelador: 66% do tempo de jogo em PC durante 2025 veio de títulos lançados há mais de seis anos. Isso sugere que muitos jogadores ativos estão dispostos a continuar aproveitando experiências mais antigas que não exigem hardware de última geração.
Nem todos os analistas veem o futuro da mesma forma. Joost van Dreunen, professor da NYU Stern, é particularmente incisivo em sua previsão. Jogadores que esperam encontrar hardware gamer abaixo de 500 dólares em breve descobrirão que ninguém está mais atendendo a esse segmento. Em vez disso, ele prevê que as grandes empresas de tecnologia tentarão alugar PCs e consoles virtuais na nuvem por uma taxa mensal. É uma mudança fundamental no modelo de acesso ao gaming.
Dr. Serkan Toto, CEO da consultoria Kantan Games, oferece uma perspectiva ligeiramente mais otimista. Ele acredita que a partir de 2028 e além, os componentes devem se tornar mais disponíveis novamente. Toto reconhece que pode estar sendo excessivamente otimista, mas compara o momento atual à crise de oferta dos primeiros dias da pandemia de COVID, quando consoles eram praticamente impossíveis de encontrar. Naquela época, também parecia inconcebível que unidades de PS5 ou Xbox pudessem estar empilhadas até o teto nas prateleiras das lojas — o que eventualmente aconteceu de forma bastante abrupta após o conserto da cadeia de suprimentos.
Rhys Elliott, chefe de análise de mercado da Alinea Analytics, oferece uma visão sobre como o mercado provavelmente se reorganizará. Haverá maior ênfase em jogos lançados para os consoles que as pessoas já possuem, descontos agressivos em títulos AAA mais antigos, serviços de assinatura e jogos mobile. Comprar novos títulos AAA no lançamento está se tornando um luxo, mas o catálogo acumulado de jogos, os títulos mobile, as assinaturas e os descontos pesados em títulos mais antigos significam que os games continuarão acessíveis para a maioria dos jogadores. A indústria não está desaparecendo — está apenas se transformando.
Notable Quotes
A indústria está entrando em um período em que o piso de preços para hardware de games é provavelmente mais alto do que era antes— Tiago Reis, analista de marketing da Newzoo
Jogadores que dependem de um PC ou console gamer abaixo de 500 dólares logo vão descobrir que ninguém está atendendo a eles— Joost van Dreunen, professor da NYU Stern
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que exatamente a IA está puxando tanta memória RAM das fábricas?
Os datacenters de IA precisam de capacidade de processamento massiva. Quando uma empresa como a OpenAI ou a Google treina um modelo de IA, ela precisa de milhões de chips e toneladas de RAM. Essas empresas têm dinheiro praticamente ilimitado e podem pagar prêmios pelos componentes. As fábricas, naturalmente, priorizam quem paga mais.
Então em 2028, quando essa demanda de IA supostamente diminuir, os preços vão cair automaticamente?
Não é tão simples. Mesmo que a demanda de IA diminua, as fábricas não vão de repente inundar o mercado gamer com componentes baratos. Elas vão precisar reconfigurar suas linhas de produção, ajustar contratos, e isso leva tempo. Além disso, as empresas de hardware já se acostumaram com margens de lucro maiores.
Então os jogadores estão basicamente presos?
Não exatamente. Muitos jogadores já estão se adaptando. Estão jogando títulos antigos que não exigem hardware novo, ou migrando para mobile e serviços de assinatura. É uma mudança de comportamento, não uma morte do gaming.
Mas e quem quer jogar os lançamentos novos?
Aí está o ponto. Comprar um console ou PC novo para jogar lançamentos está se tornando um luxo. Alguns analistas preveem que as pessoas vão alugar acesso a hardware virtual na nuvem por uma mensalidade, em vez de comprar a máquina.
Isso não soa como um retrocesso?
Depende da perspectiva. Para quem não pode pagar 2000 dólares por um PC gamer, pagar 30 dólares por mês para acessar um na nuvem pode ser uma libertação. Mas sim, muda fundamentalmente a relação entre jogador e máquina.
Algum analista acha que as coisas vão voltar ao normal?
Um ou outro é mais otimista, comparando com a crise de oferta do COVID. Mas até esses reconhecem que "normal" provavelmente não significa os mesmos preços de antes. Normal agora é mais caro.