Em Portugal, a distância entre o que os consumidores dizem valorizar e o que realmente compram revela uma tensão antiga entre convicção e bolso. O Clube de Produtores Continente, criado há quase três décadas, tenta habitar esse espaço difícil: tornar a produção nacional competitiva em preço sem sacrificar qualidade nem sustentabilidade, agregando mais de 400 empresas para reduzir custos partilhados. No fundo, é uma aposta em que o associativismo pode fazer o que a consciência individual ainda não consegue — aproximar o consumidor da origem sem lhe exigir um sacrifício financeiro.
Preço competitivo é chave para valorizar produção nacional, diz Continente
O preço continua a ser o que dita a escolha, apesar da preferência
Então o Clube de Produtores é basicamente um intermediário que negocia preços em nome de 400 empresas?
É mais do que isso. Sim, negocia custos de produção — energia, combustíveis, telecomunicações — mas também promove práticas agrícolas inovadoras. O ponto é que qualidade e sustentabilidade não podem resultar em preços proibitivos.
Mas quanto é que essa agregação de escala consegue realmente reduzir? Não temos números concretos sobre a poupança por produtor.
Verdade, não há números específicos. Sabemos que em 2025 houve 650 milhões de euros em compras, mas a margem de redução de custos não é quantificada.
E os consumidores — realmente não estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis?
Segundo Marta Barradas, não. Os consumidores veem sustentabilidade como responsabilidade das empresas, não como algo pelo qual devam pagar extra.
Isso é uma caracterização do comportamento de consumo baseada numa perspetiva. Pode haver segmentos de consumidores dispostos a pagar mais, mas não aparecem nesta conversa.
E a comunicação que falta — como é que o Clube de Produtores está a trabalhar nisso concretamente?
Estão a tentar dar a conhecer quem são os agricultores, como produzem, quais são os desafios. Mas Barradas reconhece que ainda há um grande espaço por preencher.
Novamente, não há exemplos concretos de campanhas de comunicação, números de alcance, ou resultados medidos. É mais uma intenção do que uma estratégia documentada.
The Pulse
- Os portugueses preferem produtos nacionais em teoria, mas no momento da compra o preço vence — e essa contradição é o nó central que o Clube de Produtores tenta desatar.
- Com 650 milhões de euros em compras de produção nacional em 2025, a organização atingiu um volume recorde, mas o desafio de competir com importações mais baratas mantém-se estrutural.
- A agregação de mais de 400 empresas permite negociar energia, combustíveis e telecomunicações a custos unitários mais baixos, transferindo essa poupança para o preço final sem penalizar o produtor.
- Práticas de agricultura regenerativa e agroecologia avançam nos campos, mas os consumidores não estão dispostos a pagar um prémio por sustentabilidade — exigem que as empresas a garantam sem repercutir o custo.
- O elo que ainda falta é a comunicação: os portugueses não conhecem quem produz os seus alimentos nem os desafios de cada produtor, e sem esse conhecimento dificilmente reconhecerão valor onde ele existe.
Em Portugal, a distância entre o que os consumidores dizem valorizar e o que realmente compram revela uma tensão antiga entre convicção e bolso. O Clube de Produtores Continente, criado há quase três décadas, tenta habitar esse espaço difícil: tornar a produção nacional competitiva em preço sem sacrificar qualidade nem sustentabilidade, agregando mais de 400 empresas para reduzir custos partilhados. No fundo, é uma aposta em que o associativismo pode fazer o que a consciência individual ainda não consegue — aproximar o consumidor da origem sem lhe exigir um sacrifício financeiro.
O Clube de Produtores Continente nasceu em 1998 por iniciativa de Belmiro de Azevedo e reúne hoje mais de 400 empresas nacionais em categorias que vão das frutas e legumes aos vinhos e azeites. Em 2025, registou um volume recorde de 650 milhões de euros em compras de produção portuguesa — 281 mil toneladas de produtos nacionais — consolidando-se como um dos principais agregadores estratégicos do setor alimentar português.
No âmbito da conferência "Comer Melhor", realizada por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, Marta Barradas, Category Specialist no Clube de Produtores, expôs o paradoxo central que define o trabalho da organização: os portugueses reconhecem a qualidade dos produtos nacionais e dizem preferir a origem local, mas no momento da compra é o preço que decide. A intenção e o comportamento divergem, e é nessa lacuna que o Clube de Produtores procura intervir.
A resposta encontrada é o associativismo aplicado à cadeia de custos. Quando 400 empresas compram energia, combustíveis ou telecomunicações em conjunto, o custo unitário cai significativamente face ao que cada produtor pagaria individualmente. Essa poupança permite que o produto final chegue ao consumidor a um preço competitivo sem comprometer margens nem qualidade. Paralelamente, a organização tem promovido práticas de agricultura regenerativa e agroecologia — solos mais saudáveis, menor dependência de produtos químicos, maior resiliência das culturas — mas sem transferir esse custo para o consumidor, que não está disposto a pagar um prémio pela sustentabilidade e entende que é responsabilidade das empresas garanti-la.
O que ainda falta, reconhece Barradas, é comunicação. Os consumidores portugueses desconhecem quem produz os alimentos que compram e os desafios concretos de cada produtor. Saber o nome do agricultor, compreender as dificuldades sazonais, entender o trabalho por detrás de um pão ou de um azeite — é esse conhecimento que transforma uma compra rotineira numa escolha consciente. O Clube de Produtores tem tentado preencher esse espaço com transparência e proximidade, mas a distância entre o que se produz bem em Portugal e o que os consumidores efetivamente reconhecem e escolhem continua a ser um desafio por resolver.
O Clube de Produtores Continente reúne mais de 400 empresas nacionais espalhadas por frutas e legumes, talho, charcutaria, queijos, padaria, pastelaria, vinhos e azeites. Em 2025, este agregador registou um volume recorde: 650 milhões de euros em compras de produção portuguesa, o equivalente a 281 mil toneladas de produtos nacionais. A organização, criada em 1998 por iniciativa de Belmiro de Azevedo, continua a reforçar a sua aposta na valorização da agricultura portuguesa num momento em que a alimentação ocupa um lugar central nas discussões sobre o futuro do país — da saúde pública à sustentabilidade, passando pela produção local.
No contexto da conferência "Comer Melhor", organizada pelo Continente por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, Marta Barradas, Category Specialist no Clube de Produtores, explicou como a organização trabalha para aproximar consumidores da produção nacional. O desafio central é simples de enunciar mas complexo de resolver: os portugueses reconhecem a qualidade superior dos produtos nacionais, valorizam a origem local e preferem itens sustentáveis. Mas no momento da compra, é o preço que determina a decisão. Um consumidor pode preferir ideologicamente um produto português, mas se o preço for significativamente mais alto do que uma alternativa importada, escolherá a segunda opção. A lacuna entre o que as pessoas dizem que querem e o que realmente compram é onde o Clube de Produtores tenta intervir.
Para tornar produtos nacionais competitivos sem comprometer a qualidade, a organização funciona como agregador de escala. Quando um produtor individual compra energia, combustíveis ou telecomunicações, paga um preço. Quando essa mesma compra é feita pelo Clube de Produtores em nome de 400+ empresas associadas, o custo unitário cai. É associativismo aplicado à redução de custos de produção. Barradas sublinhou que o trabalho desenvolvido vai além da simples negociação de preços: o Clube de Produtores tem promovido programas de agricultura regenerativa, agroecologia e produção sem resíduos de pesticidas. Um solo bem nutrido retém água com mais eficiência, reduz a necessidade de aplicações químicas e torna as plantas mais resilientes. A biodiversidade fomentada naturalmente funciona como controlo de pragas sem produtos fitofármacos. Tudo isto melhora a sustentabilidade, mas o custo não pode ser transferido integralmente para o consumidor final.
O paradoxo que emerge da conversa é que os consumidores portugueses não estão dispostos a pagar mais por sustentabilidade. Entendem que é responsabilidade das empresas garantir práticas ambientais e sociais adequadas. Portanto, o trabalho do Clube de Produtores é duplo: manter e aprofundar práticas agrícolas inovadoras e sustentáveis enquanto assegura que os produtos finais permanecem competitivos em preço. Isto exige que os agricultores tenham acesso a custos de produção reduzidos através da agregação, não que os consumidores paguem um prémio pela qualidade ou origem.
O que ainda falta, segundo Barradas, é comunicação. Os portugueses não conhecem quem produz os alimentos que compram, nem entendem os desafios específicos de cada produtor. Não sabem como é cultivada a alface, como é criado o gado, como é feito o pão ou o azeite. Sem esse conhecimento, é difícil reconhecer valor real num produto. A proximidade com a origem — saber o nome do agricultor, compreender as dificuldades sazonais, entender o trabalho envolvido — é o que transforma um produto genérico numa escolha consciente. O Clube de Produtores tem tentado fazer esse trabalho de transparência, apresentando os produtores e as suas práticas. Mas a lacuna permanece: entre o que se produz bem em Portugal e o que os consumidores efetivamente conhecem e escolhem, há ainda um espaço significativo de comunicação por preencher.
Notable Quotes
O futuro da alimentação constrói-se com uma produção nacional forte, inovadora e sustentável— Marta Barradas, Category Specialist no Clube de Produtores Continente
Uma coisa é a ideologia e outra é o comportamento de consumo— Marta Barradas, sobre a lacuna entre preferência declarada e escolha real de compra