Comunidade Guna, isolada há 500 anos, considera abrir suas terras para rodovia e cabos de alta tensão conectando redes elétricas regionais. Pandemia de covid-19 intensificou pressão por infraestrutura; moradores de aldeias remotas enfrentam dias de caminhada pela selva para acessar serviços básicos.
Povo Guna debate abertura histórica de terras para rodovia e transmissão de energia
Simplesmente acontecerá, porque ninguém impediu
Por que agora? O povo Guna resistiu a pressões externas por séculos. O que mudou?
A pandemia acelerou tudo. Sem voos, as pessoas ficaram presas. Crianças não conseguiam ir à escola, doentes não conseguiam chegar a hospitais. O isolamento que os protegia virou uma armadilha.
Mas espera — o Times diz que moradores começaram a abrir caminhos por conta própria em 2013, antes da pandemia. Então a pressão já existia?
Sim, mas era mais silenciosa. A pandemia apenas tornou urgente o que já era um problema crônico.
E o governo panamenho, está realmente oferecendo essa rodovia sem condições?
Não exatamente. Segundo o Times, tentaram condicionar o apoio à rodovia ao avanço das negociações sobre a transmissão de energia. É um pacote.
Então não sabemos se a rodovia sairia do papel sem o projeto de energia? Porque isso muda a dinâmica inteira.
Verdade. O porta-voz do Ministério fala em "dívida histórica", mas as prioridades do governo podem ser outras.
E os que se opõem — quantos são? O texto menciona Mordí, mas parece que há apoio popular forte.
O texto não quantifica a oposição. Sabemos que há preocupações com animais e espaços sagrados, mas não temos números.
Exatamente. O Times documenta entusiasmo e abertura de caminhos, mas não diz se é maioria ou minoria. Isso importa muito para entender o que vai acontecer em outubro.
E a questão ambiental — o Tapón del Darién é realmente tão frágil assim?
Candanedo diz que madeireiros e especuladores já avançam sobre a floresta. A rodovia aceleraria isso, mas o processo já está em curso.
Mas ela também admite incerteza. Não sabe se há como reverter. Então estamos falando de um risco real, mas com muita coisa ainda desconhecida.
O Pulso
- Povo Guna manteve isolamento por quase 500 anos; pandemia de covid-19 intensificou pressão por infraestrutura
- Projeto Interconexión prevê rodovia de duas faixas e cabos de alta tensão; orçamento de aproximadamente 100 milhões de dólares
- Liderança de Wargandí votou para iniciar consulta oficial; Gunayala deve votar em outubro
- Moradores de aldeias remotas como Mordí enfrentam dias de caminhada pela selva para acessar escolas e serviços básicos
Comunidade Guna, isolada há 500 anos, considera abrir suas terras para rodovia e cabos de alta tensão conectando redes elétricas regionais. Pandemia de covid-19 intensificou pressão por infraestrutura; moradores de aldeias remotas enfrentam dias de caminhada pela selva para acessar serviços básicos.
O povo indígena Guna do Panamá debate a construção de rodovia e sistema de transmissão de energia através de seu território, potencialmente encerrando séculos de isolamento após pressões logísticas agravadas pela pandemia.
Há quase cinco séculos, o povo Guna do Panamá manteve o mundo à distância. Agora, reunidos em suas ilhas e florestas, enfrentam uma decisão que pode encerrar esse isolamento de uma vez por todas: abrir suas terras para uma rodovia e um sistema de transmissão de energia de grande porte.
A proposta, chamada Interconexión, não é nova. Em 2007, uma comissão binacional Panamá-Colômbia procurou os Guna para instalar cabos de alta tensão sob a água, conectando as redes elétricas dos dois países. Embora os fios ficassem submersos, a obra exigiria abrir uma estrada através da densa floresta tropical e construir dezenas de pontes para máquinas pesadas. O projeto ressurgiu agora com força renovada, potencialmente ligando Gunayala à Cidade do Panamá pela Rodovia Pan-Americana e beneficiando mais de vinte mil moradores da região. Em seu alcance máximo, poderia interconectar sistemas elétricos de países tão distantes quanto Guatemala e Equador.
O que surpreendeu o jornalista Benjamin Howe, que documentou as negociações para a revista New York Times, foi o entusiasmo popular. Moradores começaram por conta própria a abrir caminhos na mata com facões, sem esperar autorização formal do governo. Urbano González, diretor de uma escola local, explicou a Howe por que: crianças de aldeias isoladas como Mordí precisavam caminhar dias inteiros pela selva só para chegar a Mulatupu, onde ficava a escola mais próxima. Adultos faziam o mesmo trajeto para trocar iguana e queixada defumados por sacos de arroz e açúcar. Em 2013, essa realidade inspirou voluntários Guna a abrir manualmente estradas rudimentares entre aldeias remotas e centros maiores.
A história do povo Guna com o Panamá é marcada por uma breve guerra de independência em 1925, quando o governo tentou suprimir tradições ancestrais. Desde então, embora reconheçam nominalmente a soberania panamenha, os Guna administram sua própria província, hasteiam bandeira própria e respondem a uma estrutura de liderança única: os seis Sagladummagan, caciques distribuídos entre o Congresso Geral de Gunayala e o Congresso Geral de Cultura. Essa autonomia permitiu barrar intrusos por gerações, inclusive com uso de força em certas ocasiões, embora pesquisadores, turistas e visitantes sempre tenham sido aceitos. A economia local combinou pesca, agricultura, artesanato e turismo.
A pandemia de covid-19 transformou a equação. Com a suspensão de voos, viagens por barco se tornaram a única alternativa viável, um percurso marcado por acidentes frequentes e socorro de emergência quase inexistente. Lideranças Guna começaram a pressionar abertamente por investimento em infraestrutura, solicitando ao governo panamenho recursos para pavimentar uma rodovia de duas faixas atravessando a selva, orçada em cerca de cem milhões de dólares. Segundo relatos ao Times, autoridades tentaram condicionar esse apoio ao avanço simultâneo das negociações da Interconexión. Um porta-voz do Ministério de Energia confirmou que o orçamento nacional de 2027 já prevê recursos para a rodovia, justificando o projeto como reparação de uma "dívida histórica" com comunidades historicamente excluídas do desenvolvimento.
Mas o apoio está longe de ser unânime. Moradores de Mordí relataram temer que o ruído das obras afugente animais locais e perturbe espaços considerados sagrados. A cosmologia Guna atribui a criação da Terra às entidades míticas Babdummad e Nandummad, o Grande Pai e a Grande Mãe, e concebe os seres humanos como iguais a todas as outras formas de vida do planeta. Essa visão de mundo ajudou a preservar uma das paisagens mais intocadas do planeta.
Ambientalistas como Indra Candanedo, à frente do grupo de conservação Alianza por Matusagaratí, alertam que o projeto pode acelerar o fim simbólico do Tapón del Darién, uma densa e pantanosa lacuna florestal que ainda separa fisicamente a América do Norte da América do Sul, entre Panamá e Colômbia. Para Candanedo, a ameaça não viria de uma decisão formal de "abrir" essa fronteira natural, mas de um processo gradual já em curso, impulsionado por madeireiros e especuladores que avançam sobre a floresta do leste panamenho. "Simplesmente acontecerá, porque ninguém impediu", disse ela, admitindo incerteza sobre se ainda há como reverter esse avanço.
A liderança local de Wargandí, reserva Guna que abriga Mordí, votou no mês passado para que uma fase oficial de consulta seja iniciada. Gunayala deve seguir caminho semelhante em outubro. O que acontecer nos próximos meses pode redefinir não apenas a vida do povo Guna, mas também o futuro de uma das últimas grandes florestas intocadas do continente.
Citações Notáveis
Crianças de aldeias isoladas precisavam caminhar dias inteiros pela selva só para chegar à cidade onde ficava a escola mais próxima— Urbano González, diretor de escola local, ao jornalista Benjamin Howe
O projeto pode acelerar o fim simbólico do Tapón del Darién, uma das paisagens mais intocadas do planeta— Indra Candanedo, Alianza por Matusagaratí