Posse realizada pela primeira vez fora da capital, em Cali, com 28 minutos de orações religiosas e presença de líderes evangélicos no novo gabinete. De la Espriella proferiu discurso de uma hora em batalhão militar, reafirmando política de segurança dura contra crime organizado e narcoterrorismo.
Posse de De la Espriella na Colômbia marca mudanças simbólicas com religião, militares e apoio popular
O Tigre chegou, e vocês verão como ele morde forte
Por que escolher Cali em vez de Bogotá? Parece uma decisão simbólica muito deliberada.
É. Bogotá é o centro do poder tradicional, o lugar onde tudo sempre aconteceu. Ao se afastar, De la Espriella estava dizendo que seu governo não será uma continuação do que veio antes. Cali é a terceira maior cidade, tem uma história própria, e escolhê-la foi uma forma de sinalizar que ele quer falar diretamente com o país, não apenas com a elite de Bogotá.
E quanto ao papel tão proeminente da religião? A Constituição colombiana estabelece um Estado laico.
Exatamente. Isso é o que torna tão significativo. Não é incomum presidentes colombianos mencionarem Deus, mas 28 minutos de orações, com líderes evangélicos no gabinete e "Viva Cristo Rei" como última frase do discurso — isso é uma mudança de tom. De la Espriella está sinalizando que a fé será central em seu governo, e alguns veem isso como uma ameaça ao caráter laico do Estado.
E o discurso no quartel militar? Isso também parece deliberado.
Muito. Ele queria tomar posse em um contexto militar, não civil. Isso envia uma mensagem sobre suas prioridades: segurança, autoridade, linha dura contra o crime. Ao fazer o discurso principal em um batalhão, cercado apenas por soldados, ele estava dizendo que as Forças Armadas são seus aliados principais nessa luta.
Quem é Luis Felipe Yagüé e por que ele importa tanto?
Ele é um vendedor de panelas de 74 anos que se tornou um símbolo durante a campanha. Um cliente o confrontou por ter votado em De la Espriella, e Yagüé respondeu com dignidade. A cena virou viral, gerou solidariedade, e agora ele está na posse como representante dos eleitores comuns. De la Espriella o apresenta como o primeiro beneficiário de um programa para pequenas empresas. É uma forma de dizer que seu governo se importa com empreendedores.
E a mudança em relação a Israel? Isso é uma ruptura real com o governo anterior?
Completa. Petro rompeu relações com Israel por causa de Gaza e se tornou uma voz da causa palestina. De la Espriella está fazendo o oposto — chamando Israel de principal aliado em segurança e prometendo transferir a embaixada para Jerusalém. Isso pode provocar reações internacionais, porque a maioria dos países vê Jerusalém como uma questão a ser decidida em negociações de paz, não unilateralmente.
The Pulse
- Posse realizada em Cali, primeira vez fora de Bogotá na história moderna
- 28 minutos de orações religiosas com líderes evangélicos e católicos
- Discurso de uma hora em batalhão militar, não no Congresso
- Promessa de transferir embaixada colombiana para Jerusalém
- Luis Felipe Yagüé, vendedor de panelas, apresentado como símbolo de apoio popular
Posse realizada pela primeira vez fora da capital, em Cali, com 28 minutos de orações religiosas e presença de líderes evangélicos no novo gabinete. De la Espriella proferiu discurso de uma hora em batalhão militar, reafirmando política de segurança dura contra crime organizado e narcoterrorismo.
Novo presidente colombiano Abelardo de la Espriella tomou posse em Cali com cerimônia inusitada fora de Bogotá, marcada por elementos religiosos, discurso militar e apoio a empreendedores, sinalizando prioridades de segurança linha-dura e realinhamento internacional.
Abelardo de la Espriella tomou posse como presidente da Colômbia numa sexta-feira de agosto, e desde o primeiro momento deixou claro que seu governo seria diferente do que veio antes. A cerimônia, realizada em Cali e não em Bogotá como manda a tradição moderna, durou quase três horas e funcionou menos como um ritual institucional convencional e mais como uma declaração de intenções.
No auditório de uma universidade particular, delegações internacionais e membros do Congresso assistiram ao juramento e à entrega da faixa presidencial. Mas foi o que veio depois que marcou o tom. As luzes se apagaram. A cantora Maía interpretou uma versão de Hallelujah. Então começaram as orações — 28 minutos delas, com líderes de diferentes tradições religiosas subindo ao palco. O rabino-chefe da Comunidade Judaica Sefardita encerrou sua fala com "Viva Israel!", um sinal inequívoco da mudança de rumo que De la Espriella pretende dar à política externa colombiana. Seu antecessor, Gustavo Petro, havia rompido relações com Israel por causa da ofensiva em Gaza e se tornou uma voz proeminente da causa palestina. De la Espriella, ao contrário, declarou que considerará Israel um dos principais aliados em segurança e que transferirá a embaixada colombiana para Jerusalém — uma decisão que pode provocar reações internacionais, já que a comunidade global entende que o status da cidade deve ser decidido em negociações de paz.
O papel da religião na cerimônia foi tão visível que gerou críticas imediatas. A senadora Jennifer Pedraza se retirou da posse, denunciando o que chamou de ameaça ao caráter laico do Estado colombiano, um mandato constitucional. De la Espriella, que havia se declarado ateu durante anos, converteu-se ao cristianismo há seis anos e deixou claro que a fé desempenhará um papel central em seu governo. Evangélicos já ocupam posições-chave em seu gabinete — o ministro da Habitação e a ministra da Educação construíram suas carreiras políticas em igrejas evangélicas. Seu discurso de posse terminaria com "Viva Cristo Rei".
Depois das orações, De la Espriella desapareceu do auditório e reapareceu no Batalhão Pichincha, uma base militar histórica de Cali. Ali, diante de um telão com a bandeira colombiana e apenas de esquadrões militares presentes, proferiu um discurso de uma hora sobre segurança. Havia anunciado sua intenção de tomar posse em um quartel, não no Congresso, como símbolo de apoio às Forças Armadas e para marcar o início de sua política de segurança linha-dura. A mensagem foi clara: "A segurança não se constrói fazendo concessões ao crime, mas com autoridade e perseverança." Ordenou imediatamente que as tropas confrontassem organizações criminosas. "Reafirmo minha intenção de derrotar implacavelmente o narcoterrorismo", disse. "O Tigre chegou, e vocês verão como ele morde forte quando se trata de defender o povo colombiano", acrescentou, aludindo ao seu apelido. "A opção de diálogo está completamente esgotada", concluiu.
Mas havia um terceiro elemento simbólico que revelava outra prioridade: entre a posse do presidente e do vice-presidente, Luis Felipe Yagüé, um vendedor de panelas de 74 anos de Florencia, Caquetá, subiu ao palco. Yagüé havia se tornado um símbolo durante a campanha depois que um cliente lhe disse que nunca mais compraria panelas dele porque havia votado em De la Espriella. O vendedor respondeu simplesmente: "Bem, senhor, com prazer." A cena gerou uma onda de solidariedade, e Yagüé foi convidado para a posse como representante dos eleitores do novo presidente. De la Espriella o abraçou calorosamente, pediu aplausos e o mencionou em seu discurso como um "convidado especial" e o "primeiro beneficiário" de um de seus programas sociais. Antes da posse, havia anunciado que seu governo apoiaria Yagüé através de um programa chamado La Ruta Milagro, destinado a ajudar pequenas empresas a crescerem.
Com uma oração, um discurso em um batalhão militar e um vendedor de panelas, De la Espriella imprimiu à cerimônia seu próprio estilo simbólico. Os sinais eram claros: firmeza na segurança, apoio aos empreendedores, uma dose significativa de fé, e um realinhamento da política externa colombiana. Seu antecessor não estava presente — Petro realizou uma breve cerimônia de despedida no palácio presidencial em Bogotá na manhã de sexta. Também não foram convidados os ex-presidentes Ernesto Samper e Juan Manuel Santos, ambos criticados por De la Espriella. A posse em Cali, longe da capital, foi menos um ritual de continuidade institucional e mais um ponto de ruptura.
Notable Quotes
A segurança não se constrói fazendo concessões ao crime, mas com autoridade e perseverança— Abelardo de la Espriella, em seu discurso de posse
Eles estão começando por quebrar sua primeira promessa: respeitar a Constituição— Senadora Jennifer Pedraza, criticando o papel da religião na cerimônia