No domingo de novembro em que o vento varreu a Península Ibérica com força invulgar, Portugal inscreveu dois novos recordes históricos no seu sistema elétrico: a eólica produziu 110,4 GWh — cobrindo sozinha 86% do consumo nacional nesse dia — e a bombagem hidroelétrica armazenou 41,7 GWh, um salto de 24% acima do máximo anterior. Estes marcos não são apenas números: são sinais de que a transição energética portuguesa deixou de ser uma aspiração e se tornou uma realidade operacional, com as renováveis a responderem por 72% do consumo acumulado nos primeiros dez meses do ano.
Portugal bate recordes históricos em energia eólica e bombagem hidroelétrica
O sistema consegue armazenar energia quando a produção varia
O que significa exatamente este recorde de bombagem hidroelétrica? Parece um número impressionante, mas não consigo visualizar o que está a acontecer.
Imagina que tens água a cair de uma barragem e a gerar eletricidade. A bombagem faz o oposto: usa eletricidade para bombear água de volta para cima da barragem, armazenando-a. Quando precisas de eletricidade mais tarde, deixas cair essa água novamente. É como uma bateria gigante.
Mas isto só faz sentido se tiveres eletricidade em excesso para bombear. Neste caso, Portugal e Espanha tinham tanta energia eólica e solar que era mais eficiente armazenar do que desperdiçar.
Então o recorde de 41,7 gigawatts-hora significa que havia muita energia renovável a ser produzida naquele dia?
Exatamente. O vento estava forte, havia sol, e o sistema tinha mais energia do que conseguia usar imediatamente. Em vez de desligar turbinas ou exportar, bombou água para os reservatórios.
Embora seja importante notar que bombear água consome energia — não é um processo 100% eficiente. Mas ainda assim, é melhor do que desperdiçar eletricidade renovável.
E quanto ao consumo de gás natural que caiu 21%? Isso é permanente ou apenas um padrão sazonal?
Os dados mostram uma queda de 66% especificamente na produção de eletricidade a partir de gás. Isso sugere que as renováveis estão a substituir o gás nessa função.
Mas o consumo de gás no segmento convencional — aquecimento, indústria — cresceu 3%. Portanto, o gás não desapareceu, apenas deixou de ser usado tanto para eletricidade.
Qual é o significado de Portugal ter o consumo de gás mais baixo desde 2004?
Significa que a economia portuguesa consegue funcionar com muito menos gás do que conseguia há 20 anos, apesar de o consumo de eletricidade estar a crescer. É uma desconexão importante.
Embora seja justo dizer que 2004 foi há muito tempo e a economia mudou. Não é apenas sobre energia renovável — é também sobre eficiência e mudanças na estrutura industrial.
O que me preocupa é se isto é sustentável. Estes recordes dependem de condições específicas — vento forte, muita chuva para as barragens.
Verdade. Mas o padrão ao longo de dez meses mostra que as renováveis abasteceram 72% do consumo. Não é apenas um dia de sorte.
Ainda assim, a fotovoltaica em outubro teve o seu pior índice de produtibilidade desde 2010. O sistema ainda depende de importações para 19% do consumo. Há volatilidade aqui que não devemos ignorar.
Le Pouls
- O vento de 24 de novembro foi tão persistente que a energia eólica cobriu, sozinha, 86% de toda a eletricidade consumida em Portugal nesse dia — um feito sem precedentes.
- A bombagem hidroelétrica bateu o seu próprio recorde com uma margem de 24%, revelando que o sistema elétrico nacional já funciona como uma bateria gigante capaz de absorver excedentes renováveis.
- O consumo de gás natural no setor elétrico desabou 66% face a 2023, atingindo o nível mais baixo desde 2004 — uma compressão que traduz a escala real da substituição em curso.
- A fotovoltaica registou em outubro o índice de produtibilidade mais baixo desde 2010, lembrando que a transição ainda depende da complementaridade entre tecnologias e da gestão inteligente dos recursos.
- Com renováveis a cobrirem 72% do consumo acumulado até outubro, Portugal consolida uma matriz energética onde a exceção começa a ser a energia fóssil, não a energia limpa.
No domingo de novembro em que o vento varreu a Península Ibérica com força invulgar, Portugal inscreveu dois novos recordes históricos no seu sistema elétrico: a eólica produziu 110,4 GWh — cobrindo sozinha 86% do consumo nacional nesse dia — e a bombagem hidroelétrica armazenou 41,7 GWh, um salto de 24% acima do máximo anterior. Estes marcos não são apenas números: são sinais de que a transição energética portuguesa deixou de ser uma aspiração e se tornou uma realidade operacional, com as renováveis a responderem por 72% do consumo acumulado nos primeiros dez meses do ano.
No domingo, 24 de novembro, o sistema elétrico português viveu um momento duplo e histórico. A produção eólica atingiu 110,4 GWh — superando em 2,4 GWh o recorde anterior de outubro de 2023 — e representou 86% de todo o consumo nacional nesse dia. Em simultâneo, a bombagem hidroelétrica alcançou 41,7 GWh, 24% acima do máximo anterior registado em maio de 2024. Os dados são da REN, operador da rede nacional.
O recorde de bombagem revela uma lógica de sistema: com tanta energia renovável disponível na Península Ibérica, Portugal aproveitou para bombear água para os reservatórios em volumes sem precedente, funcionando como uma bateria de escala nacional. É a flexibilidade do sistema a mostrar-se à altura da abundância renovável.
Numa perspetiva mais larga, de janeiro a outubro, as renováveis abasteceram 72% do consumo total de eletricidade — hídrica com 30%, eólica com 26%, fotovoltaica com 10% e biomassa com 6%. O gás natural ficou-se pelos 9%, e o consumo desta fonte no setor elétrico caiu 66% face ao mesmo período de 2023, atingindo o nível mais baixo desde 2004.
Octubro trouxe também uma nota de cautela: o índice de produtibilidade fotovoltaica foi de apenas 0,77, o mais baixo para esse mês desde que a REN começou a registar dados em 2010. O lembrete é útil — a transição energética exige complementaridade entre tecnologias, não dependência de uma só.
O conjunto destes dados aponta para uma transformação que já não é promessa: Portugal consegue gerar energia limpa em quantidades recorde, armazená-la e distribuí-la com eficiência crescente, mesmo quando a produção oscila de dia para dia.
No domingo, 24 de novembro, o sistema elétrico português atingiu dois marcos históricos simultâneos. A produção de energia eólica alcançou 110,4 gigawatts-hora, superando em 2,4 gigawatts-hora o recorde anterior estabelecido em outubro de 2023. No mesmo dia, a bombagem hidroelétrica atingiu 41,7 gigawatts-hora, um salto de 24% acima do recorde anterior de 33,7 gigawatts-hora registado em maio de 2024. Os dados provêm da REN — Redes Energéticas Nacionais, o operador da rede nacional.
O vento forte e persistente durante todo aquele domingo foi o catalisador para o recorde eólico. A energia produzida nesse dia representou sozinha 86% de todo o consumo nacional de eletricidade. Quando se olha para o ano em perspetiva, a eólica acumula 27% do consumo nacional até agora, enquanto a energia solar contribui com cerca de 10%.
O recorde de bombagem hidroelétrica revela uma dinâmica diferente. Portugal e Espanha beneficiaram de uma disponibilidade elevada de fontes renováveis na Península Ibérica, o que permitiu ao sistema nacional bombear água para os reservatórios em volumes sem precedentes. Este processo — bombear água para armazená-la e depois libertá-la para gerar eletricidade quando necessário — funciona como uma bateria gigante. O novo recorde demonstra a flexibilidade do sistema elétrico português em absorver e armazenar energia quando a produção renovável é abundante.
Os números acumulados de janeiro a outubro pintam um quadro ainda mais amplo. As energias renováveis abasteceram 72% do consumo total de eletricidade durante este período. A energia hídrica respondeu por 30% do consumo, a eólica por 26%, a fotovoltaica por 10% e a biomassa por 6%. O gás natural forneceu apenas 9%, enquanto os restantes 19% foram importados de outros países.
Este desempenho contrasta com o consumo de gás natural, que caiu 21% em comparação com o mesmo período de 2023. A queda foi particularmente acentuada no segmento de produção de energia elétrica, onde o consumo de gás recuou 66%. Globalmente, o consumo de gás natural até final de outubro representa o nível mais baixo desde 2004. O consumo de eletricidade, por seu lado, cresceu 1,9% em relação ao ano anterior, ou 2,3% quando ajustado para variações de temperatura e dias úteis.
Octubro foi um mês particularmente favorável para as renováveis. A produção renovável abasteceu 68% do consumo, a produção não renovável 10%, e 22% foi energia importada. Os índices de produtibilidade — medidas que comparam a produção real com a média histórica — foram de 1,76 para a energia hídrica e 1,27 para a eólica, ambos acima da média de 1. A fotovoltaica, porém, registou um índice de apenas 0,77, o mais baixo para outubro desde que a REN começou a registar dados em 2010. O consumo de eletricidade em outubro aumentou 3,1% em relação ao ano anterior, ou 1,8% com ajustes sazonais.
Este conjunto de recordes e tendências aponta para uma transformação estrutural do sistema energético português. A capacidade de bater sucessivos recordes em tecnologias renováveis, combinada com a redução dramática do consumo de gás natural, sugere que a transição energética deixou de ser uma promessa futura e tornou-se realidade operacional. O sistema consegue não apenas gerar quantidades recorde de energia limpa, mas também armazená-la e distribuí-la de forma eficiente, mesmo quando a produção varia significativamente de um dia para o outro.
Citations marquantes
O novo recorde de bombagem hidroelétrica demonstra a capacidade do Sistema Elétrico Nacional de se adaptar à maior disponibilidade de energia renovável na Península Ibérica— REN — Redes Energéticas Nacionais