No litoral norte fluminense, o Porto do Açu deu início a uma experiência que une engenharia e urgência climática: capturar carbono diretamente do ar para transformá-lo em combustível para navios. O projeto 'DAC-to-Sea', apoiado por US$ 700 milhões do BNDES e pela parceria com a Repsol Sinopec Brasil, não pretende resolver sozinho a crise das emissões marítimas, mas demonstrar que essa cadeia tecnológica é viável em escala real. É uma aposta modesta em volume, porém significativa em intenção — um laboratório vivo que testa se o futuro do transporte marítimo pode ser construído a partir do própr
Porto do Açu inicia produção de combustível sintético via captura de carbono
Ainda estamos apenas arranhando a superfície
Por que o Porto do Açu escolheu começar com um volume tão pequeno — 300 litros por dia — se o objetivo é demonstrar viabilidade?
Porque é exatamente isso que um projeto piloto precisa fazer. Você não constrói uma planta em escala industrial sem antes entender se a tecnologia funciona em ambiente real, com todas as variáveis que um porto apresenta.
Mas 300 litros por dia é realmente pequeno. O porto consome 30 mil litros mensais. Isso significa que a planta cobriria menos de 1% da demanda interna. Como isso prova escalabilidade?
Não prova escalabilidade ainda — é por isso que é um teste. A ideia é validar o processo, os custos, a qualidade do combustível. Se funcionar aqui, você replica a tecnologia em outros portos ou amplia a capacidade.
E quanto ao investimento de US$ 700 milhões? Parece muito para produzir 300 litros por dia.
Esse valor cobre todas as fases do projeto, não apenas a planta inicial. Inclui pesquisa, desenvolvimento, construção da infraestrutura, testes comerciais. É um investimento de longo prazo.
Mas o documento não detalha como esse dinheiro será distribuído entre as fases. Sabemos que US$ 700 milhões é o total, mas não sabemos quanto vai para a planta piloto especificamente.
A Repsol Sinopec Brasil é parceira, mas qual é exatamente o papel deles? Eles estão financiando ou apenas fornecendo expertise?
O texto não deixa claro. Sabemos que é uma parceria, que a Repsol tem meta de zerar emissões até 2050, mas os detalhes do acordo financeiro não aparecem.
Exatamente. E há outra questão: a Repsol produz petróleo e gás no pré-sal. Há uma tensão interessante em uma empresa de combustíveis fósseis investir em combustíveis sintéticos. É transição genuína ou greenwashing?
Essa é uma pergunta legítima, mas o texto não nos dá elementos para respondê-la. Sabemos apenas que a Repsol declarou essa meta de neutralidade de carbono.
E a IMO, a Organização Marítima Internacional, estabeleceu metas de redução de 40% até 2030. Esse projeto conseguirá contribuir significativamente para isso?
Improvável, pelo menos não sozinho. Se a planta do Açu produz 300 litros por dia, e o transporte marítimo global consome bilhões de litros anuais, a contribuição é simbólica. Mas talvez seja exatamente isso — um símbolo de que a tecnologia é possível.
Il Polso
- O setor marítimo global enfrenta um prazo concreto: a IMO exige redução de 40% nas emissões até 2030, e as soluções tecnológicas ainda correm contra o relógio.
- O Porto do Açu responde a essa pressão com uma planta de captura direta de carbono atmosférico capaz de produzir 300 litros diários de combustível sintético — volume pequeno, mas simbolicamente poderoso.
- Com investimento de US$ 700 milhões e a chancela do BNDES, o projeto 'DAC-to-Sea' avança da fase de testes para a construção efetiva da infraestrutura no complexo portuário.
- A parceria com a Repsol Sinopec Brasil ancora o projeto em experiência industrial real, enquanto o Cais Açu Lab articula universidades, startups e centros de pesquisa em torno da iniciativa.
- O objetivo declarado não é substituir os grandes combustíveis fósseis de imediato, mas provar que a tecnologia funciona nessa escala — e que pode ser replicada em outros portos e contextos.
No litoral norte fluminense, o Porto do Açu deu início a uma experiência que une engenharia e urgência climática: capturar carbono diretamente do ar para transformá-lo em combustível para navios. O projeto 'DAC-to-Sea', apoiado por US$ 700 milhões do BNDES e pela parceria com a Repsol Sinopec Brasil, não pretende resolver sozinho a crise das emissões marítimas, mas demonstrar que essa cadeia tecnológica é viável em escala real. É uma aposta modesta em volume, porém significativa em intenção — um laboratório vivo que testa se o futuro do transporte marítimo pode ser construído a partir do próprio ar que hoje sufocamos.
No norte do Rio de Janeiro, o Porto do Açu colocou em marcha um projeto que captura carbono diretamente do ar para produzir combustível sintético destinado a navios. Batizada de 'DAC-to-Sea', a iniciativa promete cortar até 90% das emissões de CO2 ao longo do ciclo de vida do combustível, em comparação com os derivados fósseis convencionais.
A planta, agora em fase de construção dentro do complexo portuário, terá capacidade de capturar cerca de 5 mil toneladas de CO2 por ano e produzir aproximadamente 300 litros diários de combustível sintético. O produto substituirá o diesel marítimo MGO em embarcações de pequeno e médio porte — não o bunker dos grandes navios de longo curso, como esclarece o CEO Eugenio Figueiredo. 'Ainda estamos apenas arranhando a superfície', disse ele, destacando que o verdadeiro valor do projeto está em provar que a tecnologia é escalável e replicável.
O investimento de US$ 700 milhões, captados junto ao BNDES, financia toda a cadeia tecnológica, da extração do carbono ao abastecimento das embarcações. A Repsol Sinopec Brasil, joint venture entre a espanhola Repsol e a chinesa Sinopec, é a parceira industrial do projeto. A Repsol, que opera no pré-sal da bacia de Campos, comprometeu-se a zerar suas emissões líquidas até 2050 e vê na iniciativa um passo concreto nessa direção.
A articulação do projeto passa pelo Cais Açu Lab, centro de inovação do porto que já reúne mais de 145 iniciativas em desenvolvimento. O timing é estratégico: em 2023, a Organização Marítima Internacional estabeleceu a meta de reduzir em pelo menos 40% as emissões do setor até 2030. O Porto do Açu posiciona-se, assim, como um dos primeiros a transformar essa pressão regulatória em experimento real — apostando que o que funcionar aqui poderá ser reproduzido em escala global.
No norte do Rio de Janeiro, o Porto do Açu começou a colocar em prática um projeto ambicioso: produzir combustível sintético dentro de suas próprias instalações, capturando carbono diretamente do ar para abastecer navios. A iniciativa, batizada de "DAC-to-Sea" (sigla em inglês para captura direta de carbono atmosférico), representa uma aposta em tecnologia que poderia reduzir drasticamente a pegada de carbono do transporte marítimo.
Segundo a administração do porto, o combustível sintético produzido tem potencial para cortar 90% das emissões de gás carbônico ao longo de seu ciclo de vida, comparado aos combustíveis fósseis convencionais. O projeto já passou pela fase inicial de testes e agora avança para a construção da planta de captura de carbono no complexo portuário. Uma vez instalada, a estrutura será submetida a testes rigorosos para verificar sua viabilidade comercial e a possibilidade de ampliar a produção.
O investimento previsto é de US$ 700 milhões, aproximadamente R$ 3,6 bilhões na cotação atual, captados junto ao BNDES. A planta funcionará como um laboratório em escala real, testando toda a cadeia tecnológica desde a extração do carbono até o abastecimento das embarcações que operam no porto. A capacidade estimada é de capturar cerca de 5 mil toneladas de dióxido de carbono anualmente, volume suficiente para produzir aproximadamente 300 litros diários de combustível sintético.
O combustível será direcionado para substituir o diesel marítimo, conhecido como MGO, utilizado em navios de pequeno e médio porte. Eugenio Figueiredo, CEO do Porto do Açu, deixa claro que a iniciativa não pretende substituir o bunker, combustível fóssil usado em grandes navios de longo curso que transportam minério de ferro e petróleo. O volume produzido inicialmente é modesto — o porto consome cerca de 30 mil litros desse tipo de combustível mensalmente — mas o objetivo real é demonstrar que a tecnologia funciona nessa escala e pode ser replicada em outros contextos. "Ainda estamos apenas arranhando a superfície", afirma Figueiredo, "mas a beleza desse negócio não é irrigar e substituir, mas sim entender que ele funciona nesse tipo de escala e pode ser depois replicado".
O projeto é desenvolvido em parceria com a Repsol Sinopec Brasil, uma joint venture entre a empresa espanhola Repsol, que detém 60% da companhia, e a chinesa Sinopec, com 40%. A Repsol atua na produção de petróleo e gás em blocos exploratórios como o BM-C-33, no pré-sal da bacia de Campos, uma das maiores fontes de gás natural do Brasil. O grupo espanhol estabeleceu como meta zerar suas emissões líquidas de carbono até 2050 e está investindo em pesquisas que incluem captura de carbono e produção de hidrocarbonetos sustentáveis.
A iniciativa está articulada pelo Cais Açu Lab, um centro de inovação do porto que funciona como ponte entre áreas de negócio, startups, universidades e centros de pesquisa. Segundo a administração do terminal, o Cais já soma mais de 145 projetos em desenvolvimento. O timing do projeto coincide com uma pressão crescente do setor marítimo para reduzir suas emissões. Em 2023, a Organização Marítima Internacional adotou uma estratégia que prevê a diminuição de pelo menos 40% no carbono emitido pelo transporte marítimo até 2030, com meta de zerar as emissões líquidas de carbono até 2050. O Porto do Açu, com seu projeto piloto, posiciona-se como um dos primeiros a testar soluções concretas para esse desafio global.
Citazioni salienti
A beleza desse negócio não é irrigar e substituir, mas sim entender que ele funciona nessa tipo de escala e pode ser depois replicado— Eugenio Figueiredo, CEO do Porto do Açu
Há os grandes navios, que são de longo curso e transportam minério de ferro e petróleo. Eles usam outro tipo de combustível, que é o bunker, que também é de origem fóssil e é resultado do craqueamento do óleo cru. Esse não pode ser substituído por esse tipo de combustível que a gente pretende fazer— Eugenio Figueiredo, CEO do Porto do Açu