Por que o infarto na mulher é tão sorrateiro e diferente do homem

Uma em cada três mulheres morre de infarto nos EUA; um terço das sobreviventes fica com sequelas por diagnóstico tardio.
O infarto feminino é sorrateiro porque costuma aparecer de forma diferente
Mulheres sofrem infartos com sintomas atípicos que não são reconhecidos como emergência cardíaca.
Mark

Por que levou tanto tempo para a medicina reconhecer que o infarto feminino é diferente?

Mimi

Porque durante décadas as mulheres foram simplesmente tratadas como homens pequenos. Os primeiros estudos significativos com mulheres só começaram nos anos 1980. Tudo que sabemos sobre diagnóstico e sintomas foi construído observando corpos masculinos.

Mark

Então quando uma mulher chega ao pronto-socorro com dor nas costas e embrulho no estômago, ninguém pensa em infarto?

Mimi

Exatamente. Ela mesma não pensa. O médico não pensa. O eletrocardiograma não mostra o padrão que aprenderam a procurar. Tudo conspira para que o diagnóstico chegue tarde demais.

Mark

A placa erosiva que se desprega lentamente — isso é melhor ou pior que a ruptura súbita dos homens?

Mimi

Parece melhor porque é mais lento, mas é pior porque ninguém reconhece o que está acontecendo. Um homem pode cair fulminado em cinco minutos, mas pelo menos todos sabem que é infarto. Uma mulher sofre por horas ou dias com sintomas que parecem indigestão, e quando finalmente procura ajuda, já perdeu tempo precioso.

Mark

E esse MINOCA — quando não há obstrução mas o coração sofreu mesmo assim?

Mimi

É um exemplo perfeito de como o corpo feminino não se encaixa nas categorias que criamos. Tudo aponta para infarto, mas o exame diz que não há nada bloqueando. É um espasmo, uma contração que fecha a artéria temporariamente. Mas o dano já foi feito.

Mark

O que uma mulher deveria fazer diferente?

Mimi

Nunca subestimar um mal-estar. Não aceitar a explicação fácil de que comeu algo que fez mal ou que está cansada. Correr para um hospital com cardiologia, gritar por socorro como qualquer homem faria. E os médicos precisam acreditar nela quando ela diz que algo está errado, mesmo que o eletrocardiograma diga o contrário.

  • Uma em cada três mulheres morre de infarto nos Estados Unidos
  • Em 70% dos casos, mulheres infartam com embrulho no estômago, cansaço e dor nas costas, não dor aguda no peito
  • Placas nas artérias femininas são erosivas e se desprendem lentamente; nas masculinas se rompem subitamente
  • Um terço das mulheres que sobrevivem a infartos fica com sequelas por diagnóstico tardio
  • Primeiros estudos sobre infarto com participantes mulheres foram realizados apenas nos anos 1980

Em 70% dos casos, mulheres infartam com embrulho no estômago, cansaço e dor nas costas, não a dor aguda no peito típica dos homens. Placas nas artérias femininas são erosivas e se desprendem lentamente, enquanto as masculinas se rompem subitamente como um vulcão.

Mulheres sofrem infartos com sintomas atípicos e menos reconhecidos que homens, resultando em diagnósticos tardios e maior mortalidade. Diferenças biológicas nas placas arteriais e padrões de eletrocardiograma explicam a disparidade.

Uma em cada três mulheres morre de infarto nos Estados Unidos. No Brasil, não temos números tão precisos, mas acredita-se que a proporção seja semelhante. O que torna essa estatística ainda mais perturbadora é que o infarto mata mais mulheres do que o câncer de mama — na verdade, mata mais do que a soma de todos os tumores malignos juntos. Ainda assim, poucas mulheres reconhecem essa ameaça como real ou próxima.

Segundo Dipti Itchhaporia, presidente do American College of Cardiology, o problema mais grave é que o infarto feminino é sorrateiro. Ele não avisa da forma como aprendemos a reconhecer. Em 70% dos casos, as mulheres não sentem aquela dor aguda e insuportável no peito que marca os ataques cardíacos nos homens. Em vez disso, reclamam de embrulho no estômago, um aperto estranho no peito ou um cansaço inexplicável acompanhado de dor nas costas. Quando finalmente procuram ajuda, muitas vezes é tarde demais. Mesmo entre as que sobrevivem, um terço fica com sequelas permanentes por causa dessa demora no diagnóstico.

A biologia explica parte dessa diferença. As placas que se formam nas artérias femininas têm uma composição distinta daquelas que afetam os homens. Nas mulheres, elas são menos ricas em LDL — o colesterol ruim — e formadas principalmente por triglicérides. Essas placas são menos inflamadas, mas muito mais erosivas. Elas se desprendem lentamente, ao longo de horas, não de dias. Já nas artérias masculinas, a placa é inflamada e repleta de LDL. Quando se rompe, é como uma explosão vulcânica: repentina, dramática, total. Um homem pode estar sentado tranquilamente com uma obstrução de apenas 30% em uma coronária, sem sentir nada, e minutos depois desabar no chão fulminado.

Essa diferença biológica fundamental cria um paradoxo cruel. Porque o processo é mais lento nas mulheres, os sintomas não são aqueles que os médicos aprenderam a reconhecer. Ninguém coloca a mão no peito gritando de dor. O corpo avisa de forma discreta, fácil de ignorar ou atribuir a algo mais banal — uma indigestão, o cansaço do dia, uma tensão nas costas. A própria mulher demora para buscar ajuda, alimentada por ignorância sobre seus próprios riscos e por uma criação cultural que a ensinou a tolerar o mal-estar em silêncio. Quando ela finalmente chega ao pronto-socorro, o eletrocardiograma — aquele exame fundamental — pode não mostrar os padrões clássicos de infarto. O traçado pode estar normal ou apresentar apenas pequenas alterações que desaparecem rapidamente. Diante de sintomas atípicos e de um exame que não confirma o diagnóstico óbvio, muitos profissionais descartam a possibilidade de infarto. A mulher volta para casa. Infartando.

Há um fenômeno ainda mais confuso chamado MINOCA — infarto do miocárdio com coronárias não obstrutivas. É mais comum em mulheres. Elas apresentam todos os sinais de um infarto: marcadores no sangue indicam necrose do músculo cardíaco, tudo aponta para o diagnóstico. Mas quando o cateterismo é feito, não encontra nada obstruindo as artérias. Na maioria dos casos, trata-se de um espasmo: a artéria se fechou completamente e depois se abriu novamente. O coração sofreu, mas o exame não revela a causa.

Um dado chocante emergiu de um congresso de cardiologia: os primeiros estudos sobre infarto envolvendo mulheres foram realizados apenas nos anos 1980. Até então, as mulheres eram tratadas como homens. Não funcionava. E continua não funcionando. Pesquisas recentes mostram que a conscientização das mulheres sobre doenças cardiovasculares caiu nos últimos dez anos — de cerca de 60% para menos de 43%. Pior ainda: infartos estão ocorrendo mais cedo nas mulheres, por volta dos 50 anos. Quando uma mulher jovem chega ao pronto-socorro com sintomas atípicos, é ainda menos provável que alguém considere a possibilidade de infarto.

A solução não é complicada, mas exige mudança de mentalidade. As mulheres precisam parar de subestimar qualquer mal-estar no peito, nas costas ou no estômago. Precisam agir como um menino gritaria por socorro — procurar um hospital com serviço de cardiologia, onde haja chance de alguém reconhecer que o coração feminino merece um olhar diferenciado. E os profissionais de saúde precisam finalmente integrar na prática aquilo que a ciência já sabe há quinze anos: que o infarto na mulher avisa de forma diferente, e essa diferença não torna o perigo menor. Torna-o apenas mais invisível.

Mulher tende a infartar reclamando de embrulho no estômago, talvez um aperto no peito ou um cansaço esquisito e uma dorzinha nas costas
— Cardiologista Lília Nigro Maia, FAMERP
Se a mulher que chega com essa queixa, relatando sintomas atípicos, ainda por cima é jovem, aí mesmo é que muitas vezes quem a atende não cogita ser um infarto
— Cardiologista Lília Nigro Maia
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