Por que o brasileiro persiste em sonhar com empreendedorismo apesar dos obstáculos

O salário desaparece antes que os planos da família saiam do papel
Reflexão sobre como impostos e serviços privados consomem a renda do trabalhador assalariado.
Mark

Por que você acha que 40% dos brasileiros sonham com negócio próprio se as condições são tão adversas?

Mimi

Porque o salário não oferece perspectiva. O trabalhador vê seu dinheiro desaparecer em encargos, impostos, serviços privados que o Estado não fornece. Empreender é a saída que ele enxerga.

Luke

Mas 60% das empresas abertas em 2012 fecharam em cinco anos. Esses 40% sabem disso?

Mimi

Provavelmente não com precisão. Mas sabem que o risco de falhar é menor que a certeza de não prosperar como assalariado.

Mark

E quem consegue? Qual é o perfil de quem prospera?

Mimi

A pesquisa não detalha isso. Sabemos que seis dos dez maiores bilionários brasileiros construíram fortunas em negócios, mas isso não diz nada sobre a classe média ou pequenos empresários.

Luke

Exatamente. Há uma diferença entre bilionários e a maioria dos empreendedores. O artigo não mede essa chance real para o brasileiro comum.

Mimi

Verdade. Mas o ponto é que a frustração com o salário é real, documentada. O desejo de empreender é uma resposta a isso.

Mark

Então é desesperação disfarçada de sonho?

Mimi

Não. É frustração legítima encontrando uma porta que parece aberta, mesmo que arriscada.

  • Pesquisa GEM 2025 revela que 40% dos brasileiros adultos sonham ter negócio próprio, mesmo diante de um ambiente econômico hostil com juros altos e burocracia sufocante.
  • O salário formal se dissolve entre encargos trabalhistas, teto do INSS de R$ 8.475,55 e impostos embutidos em cada compra, deixando pouco espaço para acumulação real de riqueza.
  • A classe média ainda paga duas vezes pelo Estado: tributos que financiam serviços públicos precários e, separadamente, planos privados de saúde, educação e segurança.
  • O risco é concreto — seis em cada dez empresas abertas em 2012 fecharam em cinco anos —, mas seis dos dez maiores bilionários brasileiros de 2026 construíram fortunas empreendendo.
  • Empreender exige visão, coragem e competência simultaneamente; sem os três, o sonho alimenta o cemitério empresarial em vez de gerar empregos e riqueza para o país.

No Brasil, onde juros elevados, burocracia e tributação pesada deveriam afastar qualquer impulso empreendedor, 40% dos adultos ainda declaram que ter o próprio negócio é um de seus maiores sonhos. Esse paradoxo não é irracional: ele nasce da experiência concreta de quem vê o salário se esvaziar entre encargos, impostos e serviços públicos insuficientes, sem que a aposentadoria ofereça consolo. O desejo de empreender é, em grande medida, uma resposta silenciosa à sensação de que o trabalho assalariado raramente entrega a liberdade que promete.

O Brasil vive um paradoxo persistente: um ambiente de juros altos, burocracia e tributação complexa que deveria desestimular qualquer iniciativa empresarial convive com o fato de que 40% dos adultos brasileiros declaram, na pesquisa GEM 2025 do Sebrae e da Anegepe, que ter o próprio negócio é um de seus maiores sonhos. A contradição não é acidental — ela revela como o trabalhador assalariado experimenta, na prática, os limites do emprego formal.

Quem trabalha com carteira assinada recebe proteção legal, mas o dinheiro que chega às mãos raramente corresponde ao esforço. Entre o custo total para o empregador e o salário líquido do funcionário há uma distância preenchida por encargos, FGTS e décimo terceiro que só se materializam em datas específicas. A aposentadoria impõe outro teto: em 2026, o limite do INSS é de R$ 8.475,55, obrigando quem ganha mais a poupar por conta própria e reduzindo ainda mais o poder de compra presente. Quando o trabalhador finalmente vai gastar o que sobra, encontra impostos embutidos em bens e serviços — responsáveis por 43,49% da arrecadação federal em 2024 — e ainda precisa pagar por educação, saúde e segurança privadas quando o Estado falha.

É nessa equação que reside o desejo de empreender. Quem não enxerga perspectiva de melhora dentro do salário busca uma saída, mesmo que arriscada. O empreendedorismo oferece autonomia e a possibilidade de participar do valor criado, não apenas de recebê-lo em parcelas. Os números, porém, são sóbrios: seis em cada dez empresas abertas em 2012 encerraram as atividades nos cinco anos seguintes, segundo o IBGE. Na outra ponta, seis dos dez maiores bilionários brasileiros de 2026 construíram suas fortunas a partir de negócios próprios.

Abrir um negócio exige mais do que insatisfação com o salário. Demanda visão para identificar uma necessidade real, coragem para decidir sem garantias e competência para vender, controlar o caixa e entregar valor. Sem os três elementos juntos, a iniciativa alimenta o cemitério empresarial. Quando um negócio prospera, porém, gera empregos, arrecada impostos e abre perspectivas para famílias inteiras — uma forma de transformar o país que dispensa discurso e se mede na riqueza criada.

O Brasil persiste em um paradoxo que desafia a lógica econômica. Juros altos, burocracia, corrupção e um labirinto de regras tributárias deveriam desestimular qualquer pessoa racional de abrir um negócio. E no entanto, segundo a pesquisa GEM 2025 realizada pelo Sebrae e pela Anegepe, ter o próprio negócio figura como o segundo maior sonho dos brasileiros adultos, mencionado por 40% deles. Essa contradição não é acidental. Ela revela algo mais profundo sobre como o trabalhador brasileiro experimenta a vida sob um salário.

Quem trabalha com carteira assinada recebe proteção legal, mas o dinheiro que efetivamente chega à mão raramente acompanha o esforço investido. Entre o que a empresa desembolsa e o que o funcionário recebe há uma distância preenchida por encargos, impostos e descontos. O empregador contabiliza salário, encargos, FGTS e décimo terceiro, mas parte desse pacote de remuneração só se materializa em datas específicas ou fica presa a regras de saque. São direitos garantidos, mas não se convertem em dinheiro disponível mês a mês. Mesmo quem sobe na carreira, assumindo mais responsabilidades, pode permanecer distante da liberdade financeira que imaginava.

A aposentadoria impõe outro teto. Em 2026, o limite do INSS é de R$ 8.475,55. Quem ganha acima disso precisa poupar por conta própria para manter seu padrão de vida na velhice, o que reduz ainda mais seu poder de compra presente. Quando o trabalhador finalmente consegue gastar o que sobra, enfrenta impostos embutidos em cada transação. Segundo a Receita Federal, bens e serviços responderam por 43,49% da arrecadação tributária em 2024. E quando o Estado falha em entregar serviços básicos—o que não é raro—a classe média paga novamente, dessa vez para educação, saúde e segurança privadas. O Estado recebe o imposto, mas o indivíduo precisa contratar outro fornecedor. O salário desaparece antes que os planos da família saiam do papel.

É nessa equação que reside parte da explicação para o desejo de empreender. Quem trabalha sem perspectiva de melhorar de vida procura uma saída, ainda que arriscada. O empreendedorismo oferece autonomia e a possibilidade de participar do valor que se constrói, não apenas de recebê-lo em parcelas. Mas o risco é real e mensurável. Segundo o IBGE, seis em cada dez empresas abertas em 2012 encerraram as atividades nos cinco anos seguintes. Na outra ponta, seis dos dez maiores bilionários brasileiros em 2026 construíram suas fortunas a partir de negócios próprios, conforme a Forbes. Esses números não medem a chance de enriquecer, mas explicam a atração por transcender o salário.

Abrir um negócio exige se desprender da linha de montagem da sociedade e suportar críticas, às vezes de familiares e amigos. Mas sair da fila não é suficiente. Empreender demanda visão para identificar uma necessidade pela qual alguém pagará, coragem para decidir sem garantias e competência para vender, controlar o caixa e entregar valor. Sem coragem, a visão não sai do papel. Sem competência, a coragem sozinha alimenta o cemitério empresarial. Há um certo grau de heroísmo em quem assume esses riscos e cria oportunidades para outros brasileiros. Quando um negócio cresce, gera empregos, arrecada impostos e abre perspectivas para famílias inteiras. É uma forma de melhorar o Brasil que dispensa discurso e se mede na riqueza criada e nos empregos que sustenta.

Sem coragem, a visão não sai do papel. Sem competência, a coragem sozinha alimenta o cemitério empresarial.
— Colunista
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