Há uma inversão silenciosa no coração das instituições brasileiras: aqueles que cumprem suas obrigações com disciplina e integridade são tratados como invisíveis, enquanto o sistema estende a mão generosa aos que se desviam. Pensadores como Kant, Aristóteles e Montesquieu há muito advertiram que uma sociedade só se sustenta quando honra publicamente a virtude — e não apenas quando pune o vício. O Brasil, ao premiar a inadimplência com acordos e ignorar a pontualidade com silêncio, envia uma mensagem moral que corrói lentamente o tecido cívico.
Por que o Brasil não premia o bom cidadão?
O desvio é regra, não exceção
Por que o autor insiste que o Brasil "premia" o desvio? Não é apenas uma questão de o sistema ser leniente com quem não consegue pagar?
Porque há diferença entre ser leniente e criar incentivo. Um acordo com desconto para quem atrasa é uma coisa. Mas quando o sistema oferece menos benefício para quem nunca atrasou, inverte a mensagem. Diz que atrasar compensa.
Mas precisamos ser cuidadosos aqui. O artigo fala de "acordos" e "descontos", mas não apresenta números. Quanto desconto? Em quantos casos? Sem dados, é difícil saber se é realmente um padrão sistemático ou exceções que parecem padrão.
E quanto aos exemplos específicos? Os clubes de futebol, os advogados tributaristas?
São reais. Clubes de futebol historicamente não pagam Refis e esperam novos programas. O Desenrola foi um programa real de renegociação. Mas o artigo não quantifica o impacto.
Exato. O autor faz uma afirmação forte — que o Brasil premia desvios — mas a evidência é mais anedótica que sistemática. Casos verdadeiros, sim. Mas é padrão ou exceção?
Então a crítica filosófica é sólida, mas a diagnose do problema é mais impressionista?
É. O argumento moral é forte. Mas a pergunta empírica — quanto do comportamento brasileiro é realmente explicado por esses incentivos? — fica em aberto.
E há uma questão prática também. Descontos progressivos para quem paga IPTU em dia — isso é viável administrativamente? Quanto custaria? Quem pagaria?
O autor não aborda isso.
Não. Ele está mais interessado em mudar o que valorizamos do que em desenhar política pública.
O que é legítimo para um artigo de opinião. Mas deixa claro que a proposta é ainda um esboço, não uma solução pronta.
O Pulso
- O sistema tributário brasileiro oferece descontos e renegociações a quem atrasa ou deixa de pagar, enquanto o contribuinte pontual não recebe sequer um reconhecimento simbólico.
- Clubes de futebol, devedores contumazes e infratores reincidentes aprenderam que esperar por anistias é mais vantajoso do que cumprir a lei — e o comportamento se alastra.
- A filósofa Martha Nussbaum já identificou como a bondade cotidiana perdeu prestígio nas sociedades contemporâneas; no Brasil, cumprir obrigações virou anomalia, não norma.
- Propostas concretas surgem como antídoto: descontos progressivos no IPTU para quem paga em dia por anos seguidos, e reconhecimento público para motoristas sem multas — incentivos que custam menos do que campanhas de imagem.
- O debate aponta para uma mudança simultânea de cultura e política pública: enquanto o Estado não sinalizar que ser correto tem valor, a mensagem implícita permanece sendo a de que o desvio compensa.
Há uma inversão silenciosa no coração das instituições brasileiras: aqueles que cumprem suas obrigações com disciplina e integridade são tratados como invisíveis, enquanto o sistema estende a mão generosa aos que se desviam. Pensadores como Kant, Aristóteles e Montesquieu há muito advertiram que uma sociedade só se sustenta quando honra publicamente a virtude — e não apenas quando pune o vício. O Brasil, ao premiar a inadimplência com acordos e ignorar a pontualidade com silêncio, envia uma mensagem moral que corrói lentamente o tecido cívico.
O Brasil construiu, ao longo do tempo, uma lógica de incentivos invertida. Quem atrasa impostos encontra acordos com descontos generosos; quem não honra compromissos é tratado com compreensão. Já o cidadão que paga cada boleto na data certa, ano após ano, não recebe sequer um gesto de reconhecimento. O sistema pune a conformidade com indiferença e recompensa o desvio com leniência.
Os exemplos são abundantes. Clubes de futebol acumulam dívidas fiscais esperando por novos programas de renegociação — que invariavelmente chegam. Advogados tributaristas orientam clientes a não pagar na expectativa de anistias futuras. O programa Desenrola abriu portas que nunca existiram para quem nunca deixou de pagar. A lei, nesse cenário, tornou-se sugestão.
A filósofa Martha Nussbaum demonstrou como a bondade — entendida como o simples cumprimento do que o senso comum considera correto — perdeu valor nas sociedades contemporâneas. Cumprir leis e compromissos deixou de ser mérito e passou a ser invisível. Abrir o jornal confirma a percepção: o desvio é notícia, a conformidade é silêncio.
Há, porém, um caminho alternativo. Premiar quem faz as coisas certas é ao mesmo tempo justo e eficaz. Um contribuinte pontual no IPTU por dez anos poderia acumular descontos progressivos. Quem completa cinco anos sem multas de trânsito mereceria reconhecimento público e benefícios no IPVA. Esses incentivos custam menos do que campanhas institucionais e produzem algo que campanhas não produzem: mudança real no que a sociedade valoriza.
Filósofos de tradições distintas convergem nessa direção. Kant propunha agir apenas segundo princípios que se desejasse universais. Aristóteles via na honra pública um mérito moral legítimo. Montesquieu exaltava a virtude cívica. Axel Honneth identificou a estima social como esfera essencial de reconhecimento moral. Todos apontam para a mesma conclusão: uma sociedade que ignora quem faz o bem corrói sua própria fundação. O Brasil precisa decidir se quer continuar enviando a mensagem de que ser correto não importa — ou se está disposto a mudar o que escolhe honrar.
O Brasil construiu um sistema de incentivos ao avesso. Quem atrasa impostos por meses recebe acordo com desconto na dívida e nos juros. Quem não paga em dia é acolhido como vítima das circunstâncias. Mas o cidadão que cumpre suas obrigações há dez anos, que honra cada boleto na data certa, que não tem dívida alguma — esse não recebe sequer um agradecimento. O sistema recompensa o desvio com leniência e ignora a conformidade como se fosse apenas uma obrigação comum, sem mérito.
Os exemplos se multiplicam. Clubes de futebol não pagam programas de recuperação fiscal e esperam por novos acordos que sempre chegam. Advogados tributaristas orientam clientes a não saldar impostos na expectativa de acordos indulgentes. O Desenrola, programa de renegociação de dívidas, oferece oportunidades que não existem para quem nunca deixou de pagar. Há casos em que pessoas cometem infrações graves e são soltas imediatamente. A lei virou sugestão, não compromisso.
Essa inversão de valores não é acidental. A filósofa Martha Nussbaum, em seu estudo sobre tragédias clássicas, demonstra como a bondade — entendida como cumprir o que o senso comum considera correto — perdeu valor nas sociedades contemporâneas. Ser bom, no sentido de cumprir leis e compromissos, tornou-se atípico e pouco relevante. Abre-se o jornal e a mensagem é clara: o desvio é regra, não exceção.
Mas há alternativa. Premiar quem faz as coisas certas não é apenas justo — é eficaz. Um contribuinte que paga IPTU sem atrasos por dez anos poderia receber desconto progressivo ano a ano, assegurando pontualidade. Quem não tem multa por cinco anos receberia reconhecimento público e dedução no IPVA. Esses incentivos custam menos que campanhas de marketing para parecer preocupado com a situação. Eles funcionam porque mudam o que a sociedade valoriza.
Filósofos de tradições distintas apontam para o mesmo caminho. Kant defendia o imperativo categórico — age apenas segundo uma máxima que queiras que se torne lei universal. Aristóteles destacava a honra pública como mérito moral. Montesquieu exaltava a virtude pública. Axel Honneth, da Escola de Frankfurt, identificou a estima social como uma das três esferas necessárias para validação moral. Kant dizia que o imperativo categórico era obrigação sem necessidade de recompensa, mas se vivesse nos tempos atuais admitiria que premiar a bondade contribui para sociedade melhor.
A mudança de atitude requer movimento simultâneo da sociedade e do poder público. Passa pelo enaltecimento daquilo que desejamos para nós mesmos. É seguir o princípio bíblico: ame ao próximo como a ti mesmo. O Brasil precisa reconhecer que valorizar princípios não é luxo — é fundação. Enquanto o sistema continuar recompensando desvios e ignorando conformidade, a mensagem permanece a mesma: ser correto não importa.
Citações Notáveis
Premiar quem faz as coisas certas incentiva o processo e faz justiça ao cidadão correto— Autor do artigo
Ser bom, na direção de cumpridor das leis e dos compromissos, virou algo atípico e pouco relevante para a sociedade— Autor do artigo