Medicamentos com GLP-1 ganham atenção de oncologistas por potencial na prevenção de cânceres relacionados à obesidade

Pacientes com câncer de mama enfrentam ganho de peso durante tratamento, aumentando risco de morte por doença cardiovascular anos após remissão do tumor.
A maioria das mortes não é pelo tumor, mas pelo coração
Sobreviventes de câncer de mama enfrentam maior risco de morte cardiovascular anos após remissão, impulsionando busca por intervenções metabólicas.

Estudos mostram que medicamentos GLP-1 reduzem em até 4,8% o risco de 13 tipos de câncer relacionados à obesidade em pacientes com diabetes tipo 2. Pacientes com câncer de mama ganham peso durante quimioterapia e terapia hormonal, aumentando risco de doenças cardiovasculares que causam mais mortes que o próprio câncer.

  • Medicamentos GLP-1 reduziram em 4,8% o risco de 13 tipos de câncer relacionados à obesidade em pacientes com diabetes tipo 2
  • 67% das mulheres com câncer de mama ficaram com sobrepeso ou obesidade cinco anos após fim da quimioterapia
  • Pacientes tratadas com GLP-1 após quimioterapia perderam apenas 2,9 kg em seis meses e 4,2 kg em um ano
  • Sobrevida global melhorou significativamente entre mulheres com câncer de mama tratadas com GLP-1, reduzindo mortes por doença cardiovascular

Especialistas em câncer investigam se drogas GLP-1, originalmente desenvolvidas para obesidade, podem reduzir riscos de tumores relacionados ao excesso de peso e melhorar sobrevida em pacientes oncológicos.

A história começou com uma descoberta feliz: cientistas encontraram uma molécula no veneno de um lagarto do deserto mexicano que se parecia com um hormônio produzido no intestino humano. Desse acaso nasceu uma classe de medicamentos que hoje oncologistas ao redor do mundo estão estudando com crescente interesse — não para tratar câncer, mas para evitá-lo.

Os medicamentos GLP-1, desenvolvidos originalmente para controlar a obesidade e o diabetes tipo 2, começaram a aparecer com frequência nas apresentações do congresso anual da Asco, a maior sociedade de oncologia do mundo. Os pesquisadores faziam perguntas diretas: esses remédios reduziriam o risco de uma pessoa obesa desenvolver câncer? Retardariam o avanço de tumores ligados ao excesso de peso? Aumentariam a sobrevida de quem já teve a doença? Viraj Shah, cientista de dados do Medical College of Georgia, usou inteligência artificial para analisar prontuários eletrônicos de 58 serviços de saúde americanos entre 2020 e 2025. Ele descobriu algo promissor: entre pacientes com obesidade e diabetes tipo 2 que usaram tirzepatida, o risco de desenvolver um dos 13 tipos de câncer relacionados ao excesso de peso foi 4,8% menor comparado àqueles que usaram apenas insulina e metformina. Outros pesquisadores chegaram a conclusões semelhantes. Lucas Mavromat, estudante de Medicina da Universidade de Nova York, participou de um estudo observacional com mais de 170 mil adultos acima do peso e relatou redução especialmente no risco de câncer colorretal. Mas Robin Zon, presidente da Asco, ofereceu uma ressalva importante: embora esses trabalhos levantassem a hipótese de um "efeito colateral" desejável dos medicamentos GLP-1 na prevenção do câncer, ainda eram necessários mais estudos antes de prescrever esses remédios rotineiramente para pessoas com maior risco de tumores.

O cenário se complica quando o foco muda para pacientes que já enfrentaram câncer de mama. Sherri Shen, oncologista do Memorial Sloan Kettering Cancer Center em Nova York, investigou essa questão porque via suas pacientes enfrentarem um dilema cruel: a quimioterapia que as salvava do tumor as deixava mais pesadas. Durante o tratamento, os corticoides estimulam o apetite e alteram o metabolismo. Depois, quando a quimioterapia termina, muitas mulheres precisam de terapia hormonal prolongada para evitar recidiva — e esses medicamentos pioram ainda mais o ganho de peso. Cinco anos após o fim da quimioterapia, 67% das mulheres que não estavam na menopausa quando foram diagnosticadas ficaram com sobrepeso ou obesidade. A gordura se acumula especialmente no abdômen, inflamando órgãos como fígado e coração, elevando o colesterol e a pressão arterial. O resultado é paradoxal: a maioria das mortes entre sobreviventes de câncer de mama não é causada pelo tumor, mas por doença cardiovascular.

Quando Shen testou medicamentos GLP-1 nessas pacientes após a quimioterapia, os resultados foram modestos. Com seis meses de medicação, elas perderam em média apenas 2,9 quilogramas. Após um ano, 4,2 quilogramas. Bem menos do que se esperaria baseado nos resultados em população geral. Shen ofereceu uma explicação: 79% das participantes tinham diabetes tipo 2, e a dose de GLP-1 para controlar glicose é menor que a indicada para perda de peso. Talvez houvesse uma compensação — o medicamento ajudando na saciedade enquanto a terapia hormonal favorecia o ganho de peso — resultando em quase um empate.

Mas Shen trouxe uma notícia importante: embora a sobrevida do câncer de mama não fosse maior entre as mulheres tratadas com GLP-1, a sobrevida global era significativamente melhor. O número de mortes por outras causas, como infarto, diminuía consideravelmente. Isso reforçava que algo precisava ser feito em relação ao ganho de peso pós-tratamento.

Heloísa Veasey, oncologista do Einstein Hospital Israelita, sempre avisa suas pacientes que engordar durante o tratamento é muito mais comum que emagrecer. Os corticoides estimulam apetite e criam resistência à insulina. A ansiedade psicológica leva muitas mulheres a descontar na comida nos dias em que a quimioterapia dá trégua. Algumas se exercitam menos porque se sentem debilitadas. E muitas precisam ser mantidas em menopausa antecipada, o que piora tudo. Veasey, porém, é cautelosa: não existem dados de segurança sobre usar GLP-1 durante a quimioterapia, e ela não indicaria o medicamento nessa fase porque somaria toxicidade, causando maior indisposição gastrointestinal. Na fase posterior, o GLP-1 poderia ser considerado, mas apenas com uma equipe multidisciplinar — endocrinologista, nutricionista, profissionais de educação física — para evitar perda de massa magra.

Shen concorda que o medicamento sozinho não funciona sem mudanças no estilo de vida. Mas ela ressalta que nenhum estudo mostrou algo ruim após a quimioterapia: o remédio não aumentou risco de metástases. Também não mostrou ser capaz de desacelerar a progressão do câncer — nesse ponto, os trabalhos ainda são controversos. O que está claro é que o GLP-1 continuará firme na programação dos congressos de oncologia. Os pesquisadores sabem que precisam de mais dados antes de fazer recomendações definitivas, mas a pergunta está feita, e a busca por respostas apenas começou.

Os medicamentos com GLP-1 teriam um 'efeito colateral' importante e desejável, que é prevenir o câncer. Mas ainda precisamos de mais estudos antes de sair afirmando que pessoas com maior risco de tumores deveriam receber sua prescrição
— Robin Zon, presidente da Asco
A sobrevida do câncer não foi maior entre as mulheres tratadas com GLP-1. Mas a sobrevida global, sim. O número de mortes por outras causas, como infarto, diminui significativamente
— Sherri Shen, oncologista do Memorial Sloan Kettering Cancer Center
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que oncologistas estão tão interessados em medicamentos desenvolvidos para obesidade?

Model

Porque descobriram algo inesperado: se a obesidade aumenta o risco de câncer, talvez reduzir a obesidade reduza esse risco. E se funcionar, seria uma prevenção elegante — tratando uma doença para evitar outra.

Inventor

Mas os números que você mencionou — 4,8% de redução — parecem pequenos. Por que isso importa?

Model

Pequeno em percentual, mas em população grande significa muitas pessoas. E em oncologia, qualquer redução de risco é levada a sério. Mas você está certo em questionar: ainda não sabemos se é o suficiente para prescrever rotineiramente.

Inventor

O caso das mulheres com câncer de mama parece mais complicado. Elas ganham peso justamente porque estão sendo salvas. Isso não é uma ironia cruel?

Model

É exatamente isso. A quimioterapia as cura, mas os corticoides aumentam apetite, a terapia hormonal muda o metabolismo, e elas ficam mais pesadas. É como trocar um problema por outro.

Inventor

E o GLP-1 ajuda nesse cenário?

Model

Modestamente. Perdem apenas alguns quilogramas em um ano. Mas o interessante é que a sobrevida geral melhora — menos mortes por infarto e doença cardiovascular. Então algo está funcionando, mesmo que não seja o que esperávamos.

Inventor

Por que os médicos não prescrevem durante a quimioterapia, se poderia ajudar com o ganho de peso?

Model

Porque ninguém quer somar toxicidades. A quimioterapia já causa indisposição gastrointestinal; adicionar um medicamento que afeta o estômago e intestino seria arriscado. É melhor esperar o tratamento terminar.

Inventor

Então qual é o próximo passo?

Model

Mais estudos, mais dados de segurança, e talvez protocolos mais claros sobre quando e como usar. Mas a pergunta está feita, e ninguém vai parar de investigar.

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