Quando o youtuber Felipe Neto confessou ter ido ao shopping para aliviar a tristeza — e admitiu que não funcionou — ele tocou em algo que transcende a celebridade: a tentação humana de curar a dor interior com objetos exteriores. Psicólogos alertam que esse impulso, quando repetido, pode evoluir para a oniomania, uma dependência comportamental que corrói finanças, famílias e identidades. Em uma sociedade que oferece o consumo como resposta universal ao sofrimento, reconhecer os limites dessa estratégia é, em si, um ato de coragem.
Por que compramos para aliviar tristeza: a oniomania além do caso Felipe Neto
O prazer dura pouco, mas o prejuízo fica
Por que as pessoas sentem que comprar vai resolver algo quando estão tristes?
Porque funciona — por alguns minutos. Há uma liberação de dopamina, aquela sensação de novidade e possibilidade. Mas é exatamente isso que torna perigoso. O prazer é real, mas dura pouco.
E quando isso vira um problema? Como alguém percebe que passou do limite?
Quando os gastos começam a não fazer mais sentido com a realidade financeira. Quando a pessoa gasta uma herança em três meses, ou abre 19 cartões de crédito. Mas antes disso, há sinais menores — comprar coisas que não usa, não lembrar do que comprou, sentir culpa depois.
A culpa não deveria ser um freio?
Deveria, mas não é. A culpa é parte do ciclo. Você se sente mal, compra para se sentir melhor, depois se sente culpado, e compra de novo para aliviar a culpa. É um labirinto.
Então medicação resolve?
Ajuda, mas não é tudo. A medicação reduz a compulsão, a urgência. Mas você ainda precisa aprender por que comprava. Precisa entender o que a compra estava fazendo por você emocionalmente.
E quanto tempo leva para sair disso?
Seis meses se tudo correr bem. Mas pode ser dois anos, três anos. Não é como quebrar um hábito simples. É reeducar a forma como você busca conforto.
Le Pouls
- Felipe Neto revelou publicamente que tentou combater a depressão com compras no shopping — e que a tentativa fracassou completamente.
- O episódio expõe um padrão silencioso e amplamente normalizado: usar o consumo como anestésico emocional para tristeza, tédio, raiva e frustração.
- Especialistas alertam que o alívio é fugaz e cria um ciclo perigoso — a pessoa precisa comprar cada vez mais para manter um prazer que dura cada vez menos.
- Casos extremos de oniomania incluem heranças de quase um milhão de reais gastas em três meses, 19 cartões de crédito acumulados e perdas da guarda de filhos.
- O tratamento combina medicação, psicoterapia e uma espécie de reeducação do consumo — não para suprimir o desejo, mas para compreender a função emocional que ele cumpre.
- Com acompanhamento adequado, melhorias significativas podem surgir em seis meses, embora alguns casos exijam dois anos ou mais de trabalho contínuo.
Quando o youtuber Felipe Neto confessou ter ido ao shopping para aliviar a tristeza — e admitiu que não funcionou — ele tocou em algo que transcende a celebridade: a tentação humana de curar a dor interior com objetos exteriores. Psicólogos alertam que esse impulso, quando repetido, pode evoluir para a oniomania, uma dependência comportamental que corrói finanças, famílias e identidades. Em uma sociedade que oferece o consumo como resposta universal ao sofrimento, reconhecer os limites dessa estratégia é, em si, um ato de coragem.
No início de janeiro, o youtuber Felipe Neto compartilhou uma confissão reconhecível: havia ido ao shopping tentar aliviar a tristeza com compras. "Spoiler: não me senti melhor", escreveu. O comentário vinha de um fim de semana em que ele também falou abertamente sobre sua luta contra a depressão, descrevendo-se como estando "no fundo do poço" e apoiando-se em medicamentos, família e amigos.
O relato de Neto não é isolado. Psicólogos reconhecem há tempos que muitas pessoas recorrem às compras para compensar angústia, tédio, raiva ou frustração. O consumo funciona como anestésico emocional — mas o alívio é fugaz. A sensação de prazer desaparece rapidamente, prendendo a pessoa em um ciclo onde é preciso consumir cada vez mais para manter aquele breve bem-estar. Esse é o território da oniomania, uma dependência comportamental em que a compra compulsiva age como uma droga.
Tatiana Filomensky, coordenadora do Grupo de Oniomania do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, já tratou casos extremos: pessoas que gastaram heranças de quase um milhão de reais em três meses, indivíduos com 19 cartões de crédito, situações que resultaram em processos criminais ou perda da guarda de filhos. Segundo ela, o desafio é que o comportamento de compra é tão normalizado que poucas pessoas reconhecem quando ele se torna patológico — e familiares frequentemente descartam o problema.
A oniomania raramente aparece sozinha: costuma vir acompanhada de depressão, ansiedade ou outras dependências. O tratamento, descrito pelo professor Hermano Tavares da USP, combina medicação, cuidado das condições associadas e psicoterapia. O objetivo não é substituir o desejo de comprar por outra atividade — isso seria apenas uma solução temporária. A meta real é entender por que a pessoa compra e aprender a obter prazer de outras formas, num processo que Tavares compara a uma reeducação alimentar. Com acompanhamento adequado, melhorias significativas podem aparecer em cerca de seis meses, embora alguns casos levem dois anos ou mais.
No início de janeiro, o youtuber Felipe Neto, aos 33 anos, compartilhou com seus seguidores no Twitter uma confissão que muitos reconheceriam: havia ido ao shopping tentar aliviar a tristeza através das compras. A estratégia, porém, não funcionou. "Spoiler: não me senti melhor", escreveu. O comentário veio acompanhado de uma reflexão mais ampla sobre seus limites de crédito — uma brincadeira que revelava uma verdade incômoda sobre como o consumo pode se tornar uma armadilha emocional.
Naquele mesmo fim de semana, Neto havia feito outros desabafos nas redes sociais, falando abertamente sobre sua luta contra a depressão e descrevendo-se como estando "no fundo do poço", apoiando-se em medicamentos, familiares e amigos para lidar com o momento. Seu relato, porém, não era isolado. Psicólogos e pesquisadores reconhecem há tempos que muitas pessoas recorrem às compras como forma de compensar sentimentos difíceis — angústia, tristeza, tédio, raiva, frustração. O consumo funciona como um anestésico emocional temporário, acionando a compra impulsiva como mecanismo de alívio.
O problema é que esse alívio é fugaz. A sensação de prazer que acompanha a aquisição de algo novo desaparece rapidamente, deixando a pessoa presa a um ciclo onde precisa consumir cada vez mais para manter aquele breve momento de bem-estar. Isso é o que os especialistas chamam de oniomania — uma dependência comportamental onde a compra compulsiva funciona como uma droga, oferecendo um pico de satisfação seguido por um vazio ainda maior. Tatiana Filomensky, psicóloga e coordenadora do Grupo de Oniomania do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, tem visto casos extremos dessa condição ao longo de sua carreira. Ela tratou pessoas que gastaram heranças de quase um milhão de reais em apenas três meses, indivíduos que acumularam 19 cartões de crédito, e casos que resultaram em processos criminais ou perda da guarda de filhos.
"Ao longo do tempo, a proporção dos gastos se torna algo absurdo, influenciando não só a vida do consumidor, como também de sua família", explica Filomensky. O desafio, segundo ela, é que o comportamento de compra é tão normalizado na sociedade que poucas pessoas reconhecem quando ele se torna patológico. Amigos e familiares frequentemente descartam o problema, considerando o indivíduo simplesmente desequilibrado, sem oferecer o apoio necessário. As causas da oniomania ainda não são completamente compreendidas, mas pesquisadores apontam para a fragilidade emocional como um fator central — pessoas que buscam nas compras uma forma de reforçar sua identidade, de se sentirem parte de algo, de estarem inseridas em um contexto social.
A oniomania raramente aparece sozinha. Frequentemente vem acompanhada de depressão, ansiedade ou outras dependências comportamentais. O tratamento, conforme descrito por Hermano Tavares, professor associado do Departamento de Psiquiatria da USP e coordenador do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso, segue uma abordagem multifacetada: medicações que reduzem a compulsão, tratamento das condições associadas como depressão e ansiedade, e psicoterapia. A ideia não é simplesmente substituir o desejo de comprar por outra atividade — essa é uma solução apenas temporária. O objetivo real é compreender por que a pessoa compra, qual função emocional o consumo cumpre em sua vida, e aprender a obter prazer de outras formas.
Tavares compara o processo a uma reeducação alimentar. O indivíduo precisa reeducar seus hábitos de consumo, aprendendo a distinguir entre o que é essencial e o que é impulsivo, entre o que sua situação financeira permite e o que representa um risco. Com tratamento adequado, é possível notar melhorias significativas em cerca de seis meses, embora alguns casos levem um ano, dois anos ou até mais. O que fica claro é que a tristeza de Felipe Neto no shopping — e a de tantas outras pessoas que buscam alívio nas compras — aponta para uma questão mais profunda sobre como lidamos com nossas emoções em uma sociedade que constantemente nos oferece consumo como solução.
Citations marquantes
Ao longo do tempo, a proporção dos gastos se torna algo absurdo, influenciando não só a vida do consumidor, como também de sua família— Tatiana Filomensky, psicóloga e coordenadora do Grupo de Oniomania do IPq
Poucos procuram ajuda e ninguém próximo a eles dá o apoio necessário, acham que é alguém desequilibrado— Tatiana Filomensky