Pela primeira vez em dois anos, a Argentina registra um avanço na pobreza, com 9,7 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha que separa a subsistência da privação. O recuo nos indicadores sociais, que havia sido o principal argumento do governo Milei sobre a eficácia de seu ajuste econômico, encontra agora o limite de uma inflação que volta a acelerar, de um desemprego crescente e de empresas que fecham suas portas. O que estava sendo narrado como uma virada histórica revela, no primeiro semestre de 2026, que estabilizar preços não é o mesmo que reconstruir vidas.
Pobreza na Argentina sobe para 32,3% no primeiro semestre de 2026
Pela primeira vez em dois anos, a pobreza volta a subir
Por que essa alta na pobreza é tão significativa agora? Milei não tinha conseguido reduzir esse número?
Conseguiu, sim. De 52,9% em 2024 para 28,2% no segundo semestre de 2025. Mas agora subiu para 32,3%. É a primeira reversão em dois anos.
Espera — de 28,2% para 32,3% em apenas seis meses? Isso é um salto grande. Qual é a margem de erro dessa pesquisa?
A pesquisa abrange 31 aglomerados urbanos, não o país inteiro. E sim, é um movimento significativo.
O que mudou entre o segundo semestre de 2025 e agora?
A inflação voltou a acelerar. O desemprego subiu para 7,9%. Cerca de 30 mil empresas fecharam. Os ganhos que vinham da queda de preços perderam força.
Mas a inflação ainda está em 30% ao ano, certo? Não é mais 280%?
Verdade. Mas a trajetória inverteu. E agora o país precisa de empregos e salários reais crescentes, não só de preços caindo.
E como isso afeta Milei politicamente?
Sua aprovação entre os mais pobres caiu de 37% para menos de 30% em um ano. A desaprovação subiu de 57% para quase 70%.
Esses números de aprovação — são de qual pesquisa exatamente?
AtlasIntel, setembro de 2026. Entrevistados com renda mensal até cerca de US$ 650.
Então ele está perdendo exatamente o eleitorado que o elegeu.
Exatamente. E ele quer se reeleger em 2027.
The Pulse
- A taxa de pobreza saltou de 28,2% para 32,3%, revertendo uma queda contínua que durava dois anos e que era a principal vitrine do governo Milei.
- A inflação, que havia sido domada como grande conquista do ajuste, voltou a acelerar no fim de 2025 e início de 2026, corroendo o poder de compra das famílias mais vulneráveis.
- O desemprego atingiu 7,9% — o maior nível desde 2021 — enquanto cerca de 30 mil empresas fecharam desde a chegada de Milei ao poder, esvaziando a geração de renda formal.
- 2,2 milhões de argentinos vivem agora em situação de indigência, sem acesso a uma cesta básica de alimentos, número que cresceu em relação ao semestre anterior.
- A desaprovação de Milei entre eleitores de baixa renda chegou a quase 70%, ameaçando a base que foi decisiva para sua eleição e colocando em risco sua candidatura à reeleição em 2027.
Pela primeira vez em dois anos, a Argentina registra um avanço na pobreza, com 9,7 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha que separa a subsistência da privação. O recuo nos indicadores sociais, que havia sido o principal argumento do governo Milei sobre a eficácia de seu ajuste econômico, encontra agora o limite de uma inflação que volta a acelerar, de um desemprego crescente e de empresas que fecham suas portas. O que estava sendo narrado como uma virada histórica revela, no primeiro semestre de 2026, que estabilizar preços não é o mesmo que reconstruir vidas.
No primeiro semestre de 2026, a Argentina viu sua taxa de pobreza subir para 32,3%, afetando 9,7 milhões de pessoas — a primeira alta em dois anos, segundo dados divulgados pelo Indec em 24 de setembro. Entre as famílias, 2,5 milhões de núcleos, ou 24,4% do total, encontram-se nessa situação. O levantamento abrangeu 31 aglomerados urbanos do país.
Essa reversão representa uma inflexão delicada para o governo de Javier Milei. Desde o pico de 52,9% registrado em 2024, a pobreza vinha caindo de forma contínua, impulsionada principalmente pela desaceleração da inflação — que havia despencado de mais de 280% ao ano para cerca de 30%. Esse avanço era o centro da narrativa presidencial sobre o êxito do ajuste econômico. Agora, aquele impulso perdeu força.
O cenário que explica a virada é múltiplo: a inflação voltou a acelerar entre o fim de 2025 e o início de 2026, o desemprego subiu para 7,9% — o maior nível desde 2021 —, e cerca de 30 mil empresas fecharam desde que Milei assumiu o poder. Quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade. Analistas alertam que os ganhos anteriores dependiam da queda de preços, mas que agora o país precisaria de criação de empregos e crescimento real de salários — elementos que ainda não se materializaram.
A indigência, indicador ainda mais severo, também piorou: 2,2 milhões de pessoas — 7,5% da população avaliada — vivem sem acesso a uma cesta básica de alimentos, ante 1,9 milhão no semestre anterior. O governo defende que os cortes de gastos e o fim de subsídios eram necessários para restaurar a confiança dos investidores e criar bases para crescimento sustentável. Críticos respondem que essas políticas pressionaram diretamente as famílias e a indústria voltada ao mercado interno.
O custo político é imediato. Milei chegou ao poder com forte apoio de eleitores de baixa e média renda, mas pesquisas recentes mostram uma queda acentuada em sua aprovação justamente entre os mais pobres: a desaprovação nesse grupo chegou a quase 70%, enquanto a aprovação caiu para menos de 30%. No total da população, 58% desaprovam o presidente. Com uma provável candidatura à reeleição em 2027 no horizonte, o teste mais duro de seu governo é agora saber se os ganhos macroeconômicos conseguem se traduzir em melhoria real de vida para os argentinos mais vulneráveis.
A Argentina registrou um recuo significativo em seus indicadores sociais no primeiro semestre de 2026. Pela primeira vez em dois anos, a taxa de pobreza subiu — chegando a 32,3% da população, o que representa 9,7 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) na quinta-feira, 24 de setembro. Entre as famílias, o número é ainda mais concentrado: 2,5 milhões de núcleos familiares, ou 24,4% do total, encontram-se nessa situação. A pesquisa abrangeu 31 aglomerados urbanos do país.
Esse movimento representa uma inflexão importante na trajetória que o governo de Javier Milei havia apresentado até então. Desde 2024, quando a pobreza atingiu 52,9% dos cerca de 47 milhões de argentinos, o indicador vinha em queda contínua — uma realização que se tornou central na narrativa do presidente sobre o sucesso de seu plano econômico. A desaceleração da inflação, que caiu de mais de 280% ao ano para cerca de 30% ao ano nos dois primeiros anos de governo, havia impulsionado esses ganhos sociais. Agora, porém, aquele impulso perdeu força.
O contexto econômico que explica essa reversão é complexo. A inflação, que havia sido o grande vilão controlado pela administração Milei, voltou a acelerar entre o fim de 2025 e o início de 2026. Simultaneamente, o desemprego subiu para 7,9%, o maior nível desde 2021, enquanto cerca de 30 mil empresas fecharam desde a chegada de Milei ao poder. Quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade. Analistas apontam que os avanços anteriores dependiam fortemente da queda de preços, mas agora o país precisa de criação de empregos e crescimento dos salários reais para continuar melhorando — e esses elementos não estão se materializando.
A situação se agrava quando se observa a indigência, um indicador ainda mais severo. Segundo o Indec, 2,2 milhões de pessoas — 7,5% da população avaliada — estão em situação de indigência, sem acesso a uma cesta básica de alimentos capaz de suprir necessidades diárias de energia e proteína. Esse número subiu em relação ao segundo semestre de 2025, quando eram 1,9 milhão (6,3%). Entre as famílias, 600 mil foram classificadas como indigentes (5,6%), acima das 500 mil dos seis meses anteriores (4,8%).
O governo justifica as medidas que levaram a esse cenário — cortes de gastos, fim de subsídios e flexibilização de importações — como necessárias para equilibrar as contas públicas, restaurar a confiança dos investidores e criar bases para crescimento sustentável. Críticos, porém, argumentam que essas políticas têm pressionado diretamente as famílias e a indústria voltada ao mercado interno. Organizações sociais relatam que mais argentinos enfrentam dificuldades para pagar contas básicas.
O impacto político dessa reversão é imediato e preocupante para Milei. O presidente chegou ao poder no fim de 2023 com forte apoio de eleitores de baixa e média renda, frustrados após anos de inflação elevada. Mas pesquisas recentes mostram uma queda acentuada em sua aprovação justamente entre os mais pobres. Um levantamento da AtlasIntel realizado em setembro mostrou que a desaprovação entre entrevistados de baixa renda — definidos como aqueles com renda mensal de até cerca de US$ 650 — chegou a quase 70%, enquanto a aprovação caiu para menos de 30%. Um ano antes, os números eram 57% de desaprovação e 37% de aprovação. No total da população, 58% desaprovam Milei contra 38,1% que o aprovam.
Esse cenário levanta questões sobre a capacidade de Milei de preservar a base eleitoral que foi decisiva para sua vitória, especialmente considerando que ele se projeta para uma provável candidatura à reeleição em 2027. O que começou como uma história de sucesso econômico — inflação controlada, contas públicas estabilizadas — agora enfrenta o teste mais duro: se aqueles ganhos conseguem se traduzir em melhoria real de vida para os argentinos mais vulneráveis.
Notable Quotes
Os avanços sociais impulsionados pela desaceleração da inflação perderam força, e novos progressos dependem cada vez mais da criação de empregos e do crescimento dos salários reais— Analistas citados pelo Indec