PMs de SP deixam de acionar câmeras antes de disparos, deixando mortes sem gravação

Pelo menos cinco pessoas foram mortas em operações onde câmeras não registraram os disparos, impedindo verificação da legalidade das ações policiais.
Não é a primeira ocorrência em que câmeras são acionadas após o confronto
Policial civil registra padrão recorrente de falhas no acionamento de câmeras corporais em operações com mortes.
Mark

Por que um policial deixaria de ligar a câmera antes de disparar? Parece óbvio que isso prejudica a própria defesa dele.

Mimi

Não é tão simples. Com o sistema anterior, contínuo, tudo ficava gravado — inclusive coisas que a polícia preferia que não fossem vistas. Agora, com acionamento manual, há uma escolha envolvida. E essa escolha acontece em segundos, em situações de tensão.

Mark

Mas eles estão dizendo que esqueceram, que a bateria acabou, que o sistema falhou.

Mimi

Sim, e alguns desses problemas são reais. Mas quando você vê cinco casos em um mês, todos com a mesma justificativa — acionamento tardio — começa a parecer menos coincidência e mais padrão.

Mark

A Polícia Civil consegue investigar sem as imagens?

Mimi

Fica muito mais difícil. Uma testemunha ouve alguém gritar "não me mata" e depois ouve disparos. Mas sem vídeo, é a palavra do policial contra a palavra de quem está morto. Quem você acredita?

Mark

E a Corregedoria? Não deveria estar investigando isso?

Mimi

Deveria. Mas um especialista apontou que há tantos casos assim que não está claro se a Corregedoria tem capacidade para investigar todos. É como se o sistema tivesse sido desligado propositalmente.

Mark

Qual era o efeito do sistema antigo?

Mimi

Reduzia a letalidade policial em 60%. Porque quando tudo fica gravado, o comportamento muda. Agora, com a câmera manual, há o risco de que ela fique desligada justamente quando mais importa.

  • Em 5 de 25 boletins analisados, PMs acionaram câmeras após disparos
  • Diretriz de julho de 2025 exige acionamento em 16 situações específicas
  • Sistema custa R$ 4 milhões por mês ao governo de São Paulo
  • Tecnologia anterior havia reduzido 60% da letalidade policial em dois anos

Em 5 de 25 boletins analisados, PMs acionaram câmeras após disparos, contrariando diretriz de julho de 2025 que exige acionamento em 16 situações específicas. Defensoria Pública e Polícia Civil identificaram padrão de falhas: acionamento tardio, envio incompleto de vídeos, problemas de bateria e inoperância do sistema Motorola.

Policiais militares de São Paulo deixam de acionar câmeras corporais antes de disparos em ocorrências com mortes, comprometendo investigações. Em pelo menos cinco casos do último mês, agentes atribuem ausência de imagens ao acionamento tardio dos equipamentos.

Quando a polícia militar de São Paulo puxa o gatilho, a câmera que deveria estar gravando muitas vezes ainda está desligada. Em pelo menos cinco casos no mês passado, policiais justificaram a ausência de imagens dizendo que acionaram os equipamentos depois que os disparos já tinham sido feitos — depois que a pessoa já estava caída, ou morta. Isso não é acidental. É recorrente, conforme registrou um investigador da Polícia Civil em um dos boletins de ocorrência.

Entre 25 mortes decorrentes de intervenção policial analisadas pela reportagem, todas na capital, cinco delas não têm gravação do momento dos tiros. Em alguns casos, os agentes citam bateria fraca. Em outros, culpam o sistema da Motorola. Mas o padrão é claro: acionamento tardio. Isso contraria uma diretriz estabelecida em julho de 2025 pelo comando-geral da PM, que determina que os agentes devem ligar a câmera em 16 situações específicas, incluindo abordagens, operações e fiscalizações. A mudança para acionamento manual — em vez do sistema anterior, que gravava continuamente — foi implementada durante a gestão do governador Tarcísio de Freitas e aprovada pelo Supremo Tribunal Federal.

Os casos têm nomes e datas. Em 27 de julho, em Parelheiros, na zona sul, Fábio Augusto da Silva Martins, 49 anos, teria atirado contra policiais, que revidaram e o mataram. Os agentes disseram que só acionaram o equipamento depois do confronto. Três dias depois, no Pedreira, também na zona sul, Eduardo Silva Cezar, 39, foi morto durante uma operação da Rota em apoio à Polícia Federal. Uma testemunha ouviu Cezar gritar "não me mata" antes dos disparos. As imagens foram solicitadas a um tenente, que inicialmente disse que as enviaria por ofício. Quando o delegado insistiu, o tenente mostrou pelo celular uma gravação feita depois que Cezar já estava baleado e caído. O policial civil que investigou o caso escreveu no boletim: "Não é a primeira ocorrência realizada por este subscritor em que policiais militares acionam as câmeras corporais após o confronto, impedindo, desta forma, que seja verificada a legalidade de suas ações".

Em 13 de julho, o pastor evangélico José Carlos da Rocha Sobrinho, 42, foi morto no São Rafael, zona leste. Segundo a versão dos PMs, o motorista de um Volkswagen Fox sacou uma arma e apontou para os agentes. A câmera só foi acionada depois dos disparos. A morte gerou protestos, com familiares contestando o relato e cobrando as imagens. No dia 1º de agosto, na zona norte, PMs novamente acionaram o botão depois dos tiros. Na madrugada de 10 de julho, dois homens foram mortos pela Força Tática no Jardim Augusto; os policiais disseram que as câmeras estavam sem bateria. Em 16 de julho, um homem foi morto por PMs na zona oeste — nenhum agente portava câmera operacional, e a justificativa foi falha no sistema Motorola.

A Defensoria Pública e a Polícia Civil têm documentado esse padrão: ocorrências sem gravação, envio incompleto de vídeos, acionamento tardio, inoperância do sistema. A Defensoria encaminhou oito ofícios desde julho de 2025 aos órgãos competentes. O Ministério Público afirma ser avisado mensalmente sobre processos administrativos por falta de uso ou uso indevido das câmeras, mas não compartilhou esses dados com a reportagem. A falta de imagens compromete as investigações da Polícia Civil, que não consegue verificar se as ações foram legais.

O sistema custa ao governo de São Paulo cerca de 4 milhões de reais por mês. Passou por mudanças no último ano. A principal foi a alteração do método de acionamento: deixou de ser contínuo para ser manual, com possibilidade de acionamento remoto pela central, automático por proximidade via Bluetooth, ou manual. A Secretaria da Segurança Pública disse que a análise de um boletim isoladamente não é suficiente para concluir se houve falha no acionamento, e que eventuais descumprimentos são apurados pela Corregedoria. A Motorola afirmou que as câmeras atendem aos requisitos do edital e cumpre integralmente suas obrigações contratuais.

Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, vê um desmonte de uma política que funcionava. Antes da mudança para acionamento manual, havia casos gravados — como imagens de policiais fazendo roleta russa com adolescentes, que ficaram registradas porque o sistema antigo não permitia apagar. "Foram divulgadas imagens do ano passado. Tudo isso ficou registrado. Ficou registrado por quê? Porque era o modelo antigo da Axon. Eles não tinham como apagar aquilo, ou não gravar", diz Rocha. Para ele, o projeto de câmeras está sendo desidratado. "São tantos casos desses, a maioria inclusive do mês passado, que eu não sei se a Corregedoria tem perna para investigar tudo isso." Rocha aponta que a tecnologia havia reduzido basicamente 60% da letalidade policial em dois anos desde 2020, além de reduzir a vitimização policial. No primeiro semestre deste ano, 277 pessoas foram mortas por policiais militares em serviço — uma redução ante os 301 registros no mesmo período anterior. Na capital, houve queda de 114 para 106 mortes. Os homicídios dolosos também caíram: 232 mortes contra 268 em 2025. Mas agora, com o sistema manual, há um risco: o de que as câmeras fiquem desligadas justamente quando mais importam.

Não é a primeira ocorrência realizada por este subscritor em que policiais militares acionam as câmeras corporais após o confronto, impedindo que seja verificada a legalidade de suas ações
— Policial civil em boletim de ocorrência
O projeto de câmeras está sendo desidratado. São tantos casos desses que não sei se a Corregedoria tem perna para investigar tudo isso
— Rafael Rocha, Instituto Sou da Paz
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