O PL conquistou 22 das 121 cadeiras na Câmara com mulheres, liderando em números absolutos entre os partidos e consolidando força institucional além da disputa presidencial. Michelle Bolsonaro foi articuladora central de estratégia plurianual de recrutamento feminino que adaptou a política às responsabilidades de cuidado das mulheres, reduzindo resistência histórica ao bolsonarismo.
PL e Michelle Bolsonaro impulsionam bancada feminina recorde na Câmara
Mulheres fazendo política à sua própria maneira, sem reproduzir a lógica masculina
Como é que o PL conseguiu eleger tantas mulheres quando historicamente a direita tinha dificuldade com esse eleitorado?
Eles entenderam que não podiam exigir que as mulheres se encaixassem no modelo tradicional de política. Criaram espaços compatíveis com a vida real das mulheres — encontros em casa, formatos flexíveis. Michelle Bolsonaro foi central nisso.
Mas quantas dessas mulheres tinham poder real de decisão dentro do partido? Vinte e duas eleitas é um número, mas qual era a intenção — representação genuína ou usar mulheres como símbolo de modernidade?
Essa é a pergunta certa. O que sabemos é que a estratégia funcionou eleitoralmente. Mas você está certo em questionar a profundidade disso.
E agora, com essa bancada feminina tão dividida entre direita e esquerda, o que muda para as mulheres?
Fica muito mais difícil construir consenso. Direita e esquerda discordam fundamentalmente sobre direitos reprodutivos, políticas de cuidado, violência de gênero. Uma bancada fragmentada não consegue legislar com a mesma força.
Mas espera — o Brasil ainda está atrás de quase toda a América Latina em representação feminina, mesmo com esse recorde. Isso não sugere que o problema é estrutural, não apenas sobre como os partidos recrutam?
Exatamente. Temos cotas desde 1998. O problema não é só a lei. É como ela é implementada, como os partidos escolhem apoiar candidatas, quanto dinheiro de campanha elas recebem.
Michelle Bolsonaro realmente teve tanto poder assim para mudar a estratégia de um partido inteiro?
Segundo a análise, sim. Ela articulou uma estratégia plurianual. Mas é importante notar que isso também serviu aos interesses do partido — mulheres percebidas como mais honestas ajudam a vender a imagem de outsider.
Então não é altruísmo. É cálculo político que acontece a beneficiar mulheres. Isso é importante deixar claro.
Il Polso
- 109 mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados em 2026, recorde de 21% de representação
- PL elegeu 22 mulheres entre suas 121 cadeiras na Câmara, maior bancada feminina em números absolutos
- Michelle Bolsonaro foi articuladora central de estratégia plurianual de recrutamento feminino do PL
- Brasil agora está à frente apenas da Guatemala em representação feminina na América Latina, apesar de cotas desde 1998
O PL conquistou 22 das 121 cadeiras na Câmara com mulheres, liderando em números absolutos entre os partidos e consolidando força institucional além da disputa presidencial. Michelle Bolsonaro foi articuladora central de estratégia plurianual de recrutamento feminino que adaptou a política às responsabilidades de cuidado das mulheres, reduzindo resistência histórica ao bolsonarismo.
O PL elegeu 22 mulheres para a Câmara dos Deputados em estratégia de recrutamento feminino articulada por Michelle Bolsonaro, contribuindo para recorde de 21% de representação feminina, segundo análise de cientista política.
As eleições de 2026 trouxeram um recorde de representação feminina no Congresso brasileiro: 109 mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados, o que corresponde a 21% de todas as cadeiras, e 12 para o Senado. Mas por trás desses números está uma história mais complexa sobre como a direita, particularmente o Partido Liberal, conseguiu recrutar e eleger mulheres em escala sem precedentes — e o que isso significa para o futuro das políticas voltadas aos direitos femininos.
O PL elegeu 22 mulheres entre suas 121 cadeiras na Câmara, a maior bancada feminina de qualquer partido em números absolutos. No Senado, o partido conquistou 3 das 12 senadoras eleitas. Esse desempenho não foi acidental. Segundo a cientista política Malu Gatto, professora da University College London, o partido vem investindo há anos em uma estratégia deliberada de recrutamento feminino, com Michelle Bolsonaro como uma de suas principais articuladoras. A estratégia foi bem-sucedida em reduzir a resistência histórica que parte do eleitorado feminino tinha em relação ao bolsonarismo.
O que tornou essa abordagem diferente, de acordo com Gatto, foi a forma como o PL adaptou a participação política às realidades da vida das mulheres. Em vez de exigir que as mulheres se encaixassem nos moldes tradicionais da política partidária — comparecendo a reuniões regulares, dedicando tempo integral à militância — o partido criou espaços e formatos que fossem compatíveis com as responsabilidades de cuidado que as mulheres carregam. Encontros políticos em ambientes domésticos, ênfase no feminino tradicional, e uma abordagem que permitia às mulheres fazer política à sua própria maneira, sem reproduzir a lógica do fazer político masculino. Isso funcionou: o partido conseguiu recrutar tanto candidatas quanto filiadas em números muito maiores do que havia conseguido antes.
O contexto eleitoral também favoreceu essa estratégia. Em 2026, Flávio Bolsonaro se apresentou explicitamente como um candidato mais palatável para as mulheres, trazendo sua esposa para a campanha e mencionando temas como violência contra mulheres em seus discursos. Pesquisas e análises apontam que as mulheres tendem a ser percebidas pelo eleitorado como mais honestas e menos corruptas — uma percepção que o PL aproveitou ao posicionar suas candidatas femininas como outsiders, aproveitando o sentimento anti-sistema que marcou essas eleições.
Mas esse avanço em números absolutos mascara uma realidade mais matizada. Embora o PL tenha elegido mais mulheres em termos absolutos, a proporção de mulheres dentro dos partidos de esquerda foi maior. O PCdoB, por exemplo, elegeu 7 mulheres entre seus 11 deputados federais — 63,6% de sua bancada. Essa diferença tem implicações profundas para o funcionamento da bancada feminina como um todo. Com uma representação muito mais heterogênea, dividida entre direita e esquerda, será significativamente mais difícil encontrar consenso sobre quais devem ser as prioridades das políticas voltadas às mulheres. As divergências sobre direitos reprodutivos, violência de gênero, políticas de cuidado e outras questões fundamentais tendem a se aprofundar quando a bancada feminina está tão fragmentada ideologicamente.
O Brasil agora tem 21% de representação feminina na Câmara, um recorde nacional. Isso coloca o país à frente apenas da Guatemala em toda a América Latina — e a Guatemala é o único país da região que nunca adotou cotas de gênero. Enquanto isso, México, Bolívia, Argentina e Costa Rica já ultrapassaram os 40% de representatividade feminina. O Brasil implementa cotas para mulheres desde 1998, mas continua remando contra a maré, sugerindo que o problema não é apenas a lei, mas como ela é implementada e como os partidos escolhem recrutar e apoiar candidatas.
O que vem a seguir é um Congresso com uma bancada feminina mais forte numericamente, mas também mais dividida ideologicamente. A capacidade dessa bancada de atuar como um bloco coeso em defesa de direitos das mulheres será testada a cada votação importante. E enquanto a direita consolidou sua força institucional no país — não apenas na presidência, mas no Congresso e nos estados — as mulheres que ela elegeu carregam consigo uma questão em aberto: se a representatividade numérica será suficiente para traduzir-se em políticas públicas que beneficiem todas as mulheres, ou se a fragmentação ideológica tornará a bancada feminina um espaço de disputa permanente sobre o que significa, afinal, defender os direitos das mulheres.
Citazioni salienti
O partido incentivou que as mulheres fizessem e participassem da política de sua própria maneira, sem reproduzir a lógica do fazer política masculina— Malu Gatto, cientista política
Vai ser mais difícil encontrar consenso, criar políticas públicas e legislar com uma bancada tão heterogênea— Malu Gatto, sobre os desafios da bancada feminina fragmentada