PF prende mãe e irmão de Oruam em operação contra monopólio de internet do CV

Moradores enfrentaram restrições de acesso a serviço essencial e relataram sentimentos de abandono e humilhação pela falta de serviços básicos.
Sentimento de humilhação, porque não temos serviços básicos
Um morador do Complexo da Penha descreve o impacto de viver sob o monopólio de internet controlado pela facção.
Mark

Como um esquema assim consegue funcionar por tanto tempo sem ser desmantelado?

Mimi

Porque ele se disfarça. Não é só tráfico de drogas — são empresas legítimas, produtoras de eventos, imóveis caros. O dinheiro circula por tantos caminhos que fica difícil rastrear. E há intimidação: quem reclama sofre consequências.

Luke

Mas a PF sabia disso há quanto tempo? O relatório diz que registros contábeis da própria facção mostravam os números — 40% da arrecadação. Isso significa que a inteligência tinha acesso a esses registros antes de prender alguém?

Mimi

Provavelmente. Investigações desse tamanho levam meses, às vezes anos. Eles precisavam mapear toda a rede, identificar as empresas de fachada, rastrear o dinheiro.

Mark

E os moradores? Eles sabiam que estavam pagando para uma facção?

Mimi

Muitos sabiam. Mas qual era a opção? Ficar sem internet ou pagar. E se reclamassem, havia risco.

Luke

O que não fica claro é se a Anatel sabia que esses provedores eram ilegais. Eles devem ter registros de quem tem outorga e quem não tem.

Mimi

Boa pergunta. Mas talvez o problema seja que alguns provedores tinham documentação falsa, ou operavam em uma zona cinzenta regulatória.

Mark

E agora? A PF vai garantir que a internet funcione nessas comunidades?

Mimi

Teoricamente sim. A Anatel vai interditar os provedores ilegais e tomar providências para continuidade do serviço. Mas na prática, depende de haver operadoras dispostas a entrar nesses territórios.

Luke

E se não houver? Se nenhuma operadora quiser arriscar? Aí os moradores ficam sem nada de novo.

  • Mãe e irmão do rapper Oruam presos na Operação Backbone em 19 de outubro
  • Internet ilegal representava mais de 40% da arrecadação mensal do CV no Complexo da Penha
  • PF bloqueou R$ 558 milhões em bens e 20 pessoas foram presas
  • Traficantes cortavam cabos e incendiavam caixas de operadoras regulares para forçar monopólio

Traficantes cortavam cabos e incendiavam caixas de operadoras regulares para forçar moradores a contratar provedores autorizados pela facção, gerando receita expressiva. Mãe e irmão de Oruam foram presos; PF bloqueou R$ 558 milhões em bens e determinou cassação de outorgas dos provedores ilegais.

Operação Backbone da PF prende 20 pessoas, incluindo familiares do rapper Oruam, desarticulando esquema do CV que controla internet em comunidades do Rio. Internet ilegal representava 40% da arrecadação mensal da facção na Penha.

Na segunda-feira 19 de outubro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Backbone com um objetivo claro: desmantelar o controle que o Comando Vermelho exercia sobre o acesso à internet em três complexos de favelas do Rio de Janeiro — Alemão, Penha e Chapadão. O que os investigadores encontraram foi um esquema sofisticado de extorsão que havia se transformado em uma das principais fontes de receita da facção, gerando mais de 40% de toda a arrecadação mensal do grupo apenas no Complexo da Penha.

O mecanismo era brutal e direto. Traficantes armados cortavam cabos de operadoras regulares e incendiavam caixas de distribuição, sabotando deliberadamente o serviço de concorrentes. Quando os moradores e comerciantes tentavam reparar o dano ou contratar outro provedor, eram impedidos pela força. Restava uma única opção: pagar pela internet autorizada pela facção. As empresas que recebiam essa autorização, por sua vez, repassavam uma tarifa mensal ao Comando Vermelho pelo direito de operar no território. Era um monopólio sustentado pela violência.

Na operação de segunda-feira, a PF cumpriu 23 mandados de prisão preventiva e 24 mandados de busca e apreensão em seis municípios da região metropolitana. Pelo menos 20 pessoas foram presas. Entre elas estavam a mãe e um irmão do rapper Oruam, cujo pai, Márcio dos Santos Nepomuceno — conhecido como Marcinho VP — já estava encarcerado e também recebeu um mandado de prisão. A investigação indicava que Marcinho VP continuava controlando as atividades empresariais da facção nesses territórios, trabalhando em conjunto com seus familiares e outras lideranças da organização.

Os lucros do esquema circulavam pela família através de uma rede sofisticada de dissimulação. Empresas arrecadadoras, operadores financeiros e contas de passagem canalizavam o dinheiro para produtoras de eventos, empresas de publicidade, imóveis de alto padrão adquiridos em dinheiro vivo e criptoativos. A PF bloqueou R$ 558 milhões em bens e valores, atingindo 40 pessoas físicas e 42 empresas, e determinou a suspensão das atividades econômicas de todas as pessoas jurídicas envolvidas — provedores de internet, produtoras de eventos, firmas de contabilidade e empresas de fachada.

Mas o impacto do esquema ia muito além dos números. Um morador do Complexo da Penha, que pediu para não ser identificado por questões de segurança, descreveu o que significava viver sob esse controle: "O sentimento que eu tenho com relação a isso tudo é de abandono. Abandono do poder público. Sentimento de humilhação, porque não temos serviços básicos que toda a população deveria ter." A internet não era um luxo naquele contexto — era um serviço essencial controlado por criminosos, e a falta de escolha era uma forma de dominação que se estendia além do acesso à rede.

Os investigados responderão por domínio social estruturado, um crime que pune grupos que usam violência, grave ameaça e coação para impor controle territorial e social. Também podem ser acusados de extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública, interrupção de serviço telemático, desenvolvimento clandestino de telecomunicações e lavagem de dinheiro. A Agência Nacional de Telecomunicações será acionada para cassar as outorgas dos provedores ilegais e interditar suas atividades, com providências para garantir a continuidade do serviço legítimo aos moradores das localidades afetadas.

A operação se insere na Força-Tarefa Missão Redentor II, uma iniciativa coordenada pela Polícia Federal para combater organizações criminosas no Rio de Janeiro, em conformidade com diretrizes do Supremo Tribunal Federal. Não estava claro se o rapper Oruam era investigado neste inquérito específico, embora ele e sua mãe Márcia tivessem sido alvo de prisão em abril durante a Operação Contenção, deflagrada pela Polícia Civil, suspeitos de lavagem de dinheiro para o Comando Vermelho — naquela ocasião, não foram encontrados.

O sentimento que eu tenho com relação a isso tudo é de abandono. Abandono do poder público. Sentimento de humilhação, porque não temos serviços básicos que toda a população deveria ter
— Morador do Complexo da Penha
A exploração desse serviço público tornou-se uma das principais atividades lucrativas do crime organizado e fomenta a guerra pelo controle de territórios
— Polícia Federal
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