Mensagens no celular de Vorcaro mencionam pagamentos para alguém identificado como "Ciro" e celebram emenda legislativa que poderia beneficiar o Banco Master. Ciro Nogueira nega proximidade com banqueiro e afirma que associar seu nome a pagamentos com base apenas no primeiro nome é "irresponsável e leviano".
PF encontra diálogos de Vorcaro com Ciro Nogueira e apura referência a 'pagamento pra Ciro'
Associar meu nome a pagamentos com base apenas no primeiro nome é leviano
O que exatamente a PF encontrou que conecta Ciro Nogueira a esses pagamentos?
Mensagens no celular de Vorcaro mencionando "pagamento pra Ciro" e conversas entre Vorcaro e o senador sobre temas políticos e uma emenda legislativa que poderia beneficiar o Banco Master.
Mas aí está o problema — eles têm o nome "Ciro" em uma lista de pagamentos, sem sobrenome, sem contexto bancário, sem saber se é o senador ou outro Ciro qualquer. Ainda não têm dados bancários que esclareçam nada.
E a emenda que Ciro apresentou? Parece suspeita?
Ciro apresentou uma emenda elevando a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Políticos e agentes do mercado apontaram isso como favorecimento ao Banco Master, porque o FGC é estratégico para produtos como CDBs que o banco usa para captar recursos.
Mas apresentar uma emenda legislativa não é crime. Muitos deputados e senadores apresentam emendas que beneficiam empresas. O que falta aqui é a ligação direta — o quid pro quo, a troca explícita.
Ciro negou tudo?
Negou proximidade com Vorcaro, negou ter recebido pagamentos. Disse que associar seu nome a pagamentos com base apenas no primeiro nome é "irresponsável e leviano".
E ele tem um ponto. Sem sobrenome, sem contexto, é especulação. A PF ainda está investigando, mas não tem nada concreto contra ele.
Então por que o caso está no STF?
Porque Vorcaro é investigado e há envolvimento de autoridades com foro privilegiado — como Ciro Nogueira, senador. Isso mantém o inquérito na competência do Supremo.
Mas repara: não há investigação formal instaurada contra Ciro Nogueira no caso Master. Ele é mencionado em mensagens, mas não é alvo formal. Isso é importante.
El Pulso
- Mensagens no celular de Vorcaro mencionam "pagamento pra Ciro" em maio de 2024
- Ciro Nogueira apresentou emenda elevando cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão em 13 de agosto de 2024
- PF ainda não obteve dados bancários que esclareçam natureza, destino e destinatário dos pagamentos
- Não há investigação formal instaurada contra Ciro Nogueira no caso Master
Mensagens no celular de Vorcaro mencionam pagamentos para alguém identificado como "Ciro" e celebram emenda legislativa que poderia beneficiar o Banco Master. Ciro Nogueira nega proximidade com banqueiro e afirma que associar seu nome a pagamentos com base apenas no primeiro nome é "irresponsável e leviano".
Polícia Federal encontrou diálogos entre banqueiro Daniel Vorcaro e senador Ciro Nogueira, incluindo mensagens sobre "pagamento pra Ciro", levando investigadores a apurar possíveis crimes no caso Banco Master.
No celular do banqueiro Daniel Vorcaro, investigadores da Polícia Federal encontraram conversas com o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e mensagens internas que mencionam um "pagamento pra Ciro", sem sobrenome — um achado que levou a PF a aprofundar verificações sobre possíveis crimes envolvendo o empresário e o parlamentar no caso que envolve o Banco Master.
O material apreendido mostra trocas entre Vorcaro e o senador sobre temas políticos, encontros marcados e amenidades. Em algumas mensagens, o banqueiro se refere a Nogueira como "grande amigo de vida" e comemora uma iniciativa legislativa atribuída ao senador que, segundo avaliação de políticos e agentes do mercado, poderia beneficiar o Banco Master. O ponto que passou a ser investigado com mais atenção, porém, é a existência de referências a pagamentos para alguém identificado apenas como "Ciro". Em maio de 2024, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e descrito pelos investigadores como seu operador financeiro, teria enviado ao banqueiro uma lista de prioridades de pagamentos. Uma das linhas dizia: "Preciso que me ordene as prioridades. [...] 2. Pagamento pra Ciro". Vorcaro teria autorizado os repasses na sequência. Até agora, a investigação não obteve dados bancários que esclareçam a natureza do pagamento, seu destino ou se o "Ciro" mencionado seria o senador ou outra pessoa com o mesmo primeiro nome.
Além dessa conversa, a PF encontrou referência ao nome "Ciro" em um diálogo entre Vorcaro e o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP), no qual o parlamentar pede a realização de uma reunião entre os três. Pinato não respondeu aos contatos, conforme a reportagem. Outro trecho que chamou atenção dos investigadores envolve uma mensagem de Vorcaro celebrando o que chamou de "bomba atômica no mercado financeiro", em 13 de agosto de 2024 — data que coincide com a apresentação de uma emenda à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de autonomia financeira do Banco Central, apresentada por Ciro Nogueira. A emenda propunha elevar o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil por CPF para R$ 1 milhão. Essa proposta foi apontada por políticos e integrantes do mercado financeiro como uma das primeiras "digitais" de favorecimento ao Banco Master no Congresso, dado o peso estratégico da cobertura do FGC para produtos como CDBs, usados pelo banco para ampliar captação e atrair investidores.
Os registros mostram Vorcaro enaltecendo a relação com o senador e comemorando a iniciativa legislativa. O conjunto do material, porém, ainda não foi convertido em procedimento formal contra Ciro Nogueira. As informações foram encaminhadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, responsável por decretar a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, cumprida em 4 de março. A presença de elementos relacionados a autoridade com foro teria sido um dos motivos para justificar a permanência do inquérito sob competência do STF. Ainda assim, não havia investigação formal instaurada contra o senador no chamado "caso Master" até o momento da reportagem.
Ciro Nogueira foi procurado e disse que conhece Daniel Vorcaro, mas negou proximidade e negou ter recebido pagamentos. Em nota, o senador contestou a associação de seu nome à referência de "pagamento" com base apenas no primeiro nome, afirmando que isso seria uma tentativa de atingir sua reputação. "Associar meu nome ao recebimento de qualquer tipo de pagamento por ter o primeiro nome citado em diálogos, sem oferecer outra informação, tais como sobrenome ou cargo, é um ato irresponsável, inconsequente e até leviano", declarou. Ele acrescentou: "Inferir que se refere a mim, senador Ciro Nogueira, é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia". Nogueira afirmou ainda que, embora conheça o banqueiro "assim como conheço centenas de empresários", Vorcaro "jamais pertenceu" ao seu círculo de amizades próximas. O senador disse estar "absolutamente tranquilo" quanto ao desfecho das apurações e declarou não ter envolvimento com as denúncias relacionadas ao empresário. A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou.
A menção a Ciro Nogueira aparece após outras referências políticas surgirem desde a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro. O primeiro caso envolveu o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), relacionado a uma transação imobiliária com Vorcaro que não foi concretizada e na qual investigadores não encontraram indícios de irregularidade. O segundo episódio envolve o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Vorcaro afirmou ter mantido conversas e ao menos uma reunião em sua casa com Ibaneis sobre a venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB). A PF suspeita que o BRB sofreu prejuízo bilionário com a aquisição de falsas carteiras de crédito consignado. Ibaneis negou ter conversado sobre o negócio com Vorcaro e disse que o responsável pelo assunto era o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Citas Notables
Associar meu nome ao recebimento de qualquer tipo de pagamento por ter o primeiro nome citado em diálogos, sem oferecer outra informação, tais como sobrenome ou cargo, é um ato irresponsável, inconsequente e até leviano.— Ciro Nogueira, em nota
Inferir que se refere a mim, senador Ciro Nogueira, é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia.— Ciro Nogueira, em nota