Em um momento em que a confiança nas instituições financeiras é posta à prova, a Polícia Federal concluiu que ex-dirigentes do Banco Regional de Brasília conduziram, de forma deliberada e sistemática, a compra de R$ 17,5 bilhões em carteiras do Banco Master ignorando alertas internos sobre riscos graves — uma gestão que os peritos classificam como fraudulenta. O caso, agora sob os olhos do Supremo Tribunal Federal, levanta questões perenes sobre os limites entre ousadia estratégica e cumplicidade institucional, e sobre quem, afinal, guarda os guardiões.
PF conclui que houve fraude de R$ 17,5 bi em compras do BRB no Master
Manipulação deliberada de controles enquanto alertas eram ignorados
Como a PF conseguiu caracterizar isso como fraude e não apenas como má gestão ou negligência?
O laudo aponta uma sequência deliberada de contornos aos controles — operações fracionadas para evitar análise agregada, pareceres emitidos depois dos pagamentos, alertas formalizados que foram ignorados. Não é uma falha isolada; é um padrão.
Mas a PF analisou R$ 47,8 bilhões e concentrou a conclusão de fraude em apenas R$ 17,5 bilhões. Por que não os outros R$ 30 bilhões? Isso importa para entender o escopo real.
Os seis dirigentes foram todos apontados porque votaram a favor?
Sim, mas mais que isso. Eles participaram de deliberações sobre continuidade das operações, novas aquisições, flexibilização de alertas de risco. Ficaram documentalmente vinculados a decisões unânimes.
Unânimes é importante — significa que ninguém votou contra, ninguém deixou registro de objeção. Mas também significa que a responsabilidade é coletiva, o que pode complicar responsabilizações individuais depois.
O Banco Master foi liquidado. Quem sofreu as perdas?
O Banco Central liquidou o Master, mas o BRB já tinha comprado R$ 17,5 bilhões em carteiras dele. Essas perdas provavelmente recaem sobre o BRB e seus acionistas.
Exato. E o BRB é um banco público de Brasília, então há dinheiro público envolvido. Mas o relatório não detalha quem absorveu as perdas finais — se foi o BRB, o BC, os depositantes.
O que acontece agora?
O caso está no STF sob responsabilidade do ministro Mendonça. Há potencial para responsabilizações criminais contra os dirigentes.
Mas "potencial" é a palavra-chave. O relatório da PF é técnico-pericial, não é uma denúncia criminal. Ainda falta o Ministério Público Federal decidir se oferece denúncia, e o STF decidir se aceita.
Le Pouls
- A PF concluiu que o BRB não apenas ignorou alertas sobre fragilidades do Master, mas ativamente contornou seus próprios mecanismos de governança para viabilizar as aquisições.
- Em 22 operações somando R$ 7,63 bilhões, os pareceres técnicos foram emitidos somente após os pagamentos — invertendo a lógica básica do controle interno.
- As operações foram sistematicamente fracionadas abaixo de R$ 750 milhões para escapar da análise consolidada do conselho de administração.
- Seis ex-diretores, incluindo o então presidente Paulo Henrique Costa, foram documentalmente vinculados a aprovações unânimes feitas à revelia dos próprios alertas formalizados pela instituição.
- O processo tramita no STF sob o ministro André Mendonça, com o horizonte de responsabilizações criminais se aproximando dos nomes identificados no laudo.
Em um momento em que a confiança nas instituições financeiras é posta à prova, a Polícia Federal concluiu que ex-dirigentes do Banco Regional de Brasília conduziram, de forma deliberada e sistemática, a compra de R$ 17,5 bilhões em carteiras do Banco Master ignorando alertas internos sobre riscos graves — uma gestão que os peritos classificam como fraudulenta. O caso, agora sob os olhos do Supremo Tribunal Federal, levanta questões perenes sobre os limites entre ousadia estratégica e cumplicidade institucional, e sobre quem, afinal, guarda os guardiões.
A Polícia Federal encerrou sua investigação sobre as operações entre o Banco Regional de Brasília e o Banco Master com uma conclusão direta: houve gestão fraudulenta. O relatório, tornado público em 10 de setembro pelo ministro André Mendonça do STF, revela como ex-dirigentes do BRB conduziram a compra de R$ 17,5 bilhões em carteiras de uma instituição que seria posteriormente liquidada pelo Banco Central — e o fizeram enquanto ignoravam, de forma documentada, alertas internos sobre riscos de liquidez, capitalização e modelo de negócios do Master.
A perícia identificou uma sequência de irregularidades que, em conjunto, apontam para manipulação deliberada. Em 22 operações que somaram R$ 7,63 bilhões, os pareceres técnicos foram produzidos apenas depois que os pagamentos já haviam sido efetuados — uma inversão explícita do fluxo normal de controle. Além disso, as aquisições foram sistematicamente mantidas abaixo do limite de R$ 750 milhões para evitar análise agregada pelo conselho de administração, prática conhecida como fracionamento. Um grupo de trabalho criado pelo próprio BRB havia formalizado fragilidades concretas sobre lastro, documentação e cadeia de originação dos créditos — e mesmo assim a diretoria manteve o curso.
Seis ex-integrantes da diretoria colegiada foram apontados como responsáveis pelas aprovações, todas registradas como unânimes nas atas. O então presidente Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa figura ao lado de cinco diretores executivos nas deliberações que a PF considera centrais para a caracterização da fraude. O único membro poupado da vinculação foi o diretor jurídico, ausente ou sem direito a voto nas reuniões em questão.
O caso agora segue no Supremo Tribunal Federal, com potencial de desdobramento em responsabilizações criminais. Para além dos números, o que o laudo expõe é a anatomia de uma instituição que transformou seus próprios controles em formalidade — e pagou por isso com a credibilidade de quem deveria proteger.
A Polícia Federal finalizou sua investigação sobre as operações do Banco Regional de Brasília com o Banco Master e chegou a uma conclusão contundente: houve gestão fraudulenta. O relatório, cujo sigilo foi removido na noite de 10 de setembro pelo ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal, documenta como ex-dirigentes do BRB conduziram a compra de R$ 17,5 bilhões em carteiras do Master — instituição que posteriormente foi liquidada pelo Banco Central — ignorando deliberadamente sinais graves de risco financeiro que circulavam internamente.
O laudo pericial é específico sobre o que aconteceu. Os peritos identificaram uma sequência de irregularidades que, tomadas em conjunto, caracterizam manipulação deliberada dos processos de controle. O BRB possuía informações formalizadas sobre fragilidades do Master relacionadas a liquidez, capitalização e modelo de negócios, mas essas advertências não influenciaram as decisões de compra. Em vez disso, a instituição procedeu com as aquisições enquanto contornava seus próprios mecanismos de governança. Em 22 operações que somaram R$ 7,63 bilhões, os pareceres técnicos foram emitidos apenas após os pagamentos já terem sido realizados — uma inversão clara do fluxo normal de controle interno. As operações foram também sistematicamente mantidas no limite de R$ 750 milhões para evitar que fossem analisadas de forma agregada pelo conselho de administração, uma prática conhecida como fracionamento.
A perícia analisou operações que totalizavam R$ 47,8 bilhões, mas concentrou sua conclusão sobre fraude em 25 aquisições de carteiras aprovadas pela diretoria colegiada, que somaram R$ 17,5 bilhões. O BRB nunca comprovou ter realizado uma investigação detalhada e estruturada sobre o Banco Master, apesar dos múltiplos alertas. Um grupo de trabalho criado pelo próprio BRB havia identificado fragilidades concretas relacionadas a lastro, documentação, averbações e cadeia de originação dos créditos. Mesmo após essas formalizações, a diretoria manteve a estratégia de aquisição.
Seis ex-integrantes da diretoria colegiada foram apontados como responsáveis pelas aprovações. Segundo o laudo, todos ficaram vinculados documentalmente às decisões que foram aprovadas por unanimidade. Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa, que era presidente, participou das deliberações junto com Cristiane Maria Lima Bukowitz (Diretora Executiva de Gestão de Pessoas), Dario Oswaldo Garcia Junior (Diretor Executivo de Finanças e Controladoria), Luana de Andrade Ribeiro (Diretora Executiva de Controle e Riscos), Diogo Ilário de Araújo Oliveira (Diretor Executivo de Atacado e Governo) e José Maria Correa Dias Junior (Diretor Executivo de Tecnologia). O diretor jurídico Jacques Mauricio Ferreira Veloso de Melo não foi vinculado às aprovações porque, conforme as atas, não tinha direito a voto ou estava ausente nas reuniões.
O relatório da PF descreve a prática como materializada pela manipulação da sequência de governança, formalização retrospectiva de controles, burla material ao regime de alçadas e continuidade objetiva das operações apesar dos alertas prudenciais. O BRB concentrou uma parcela relevante de sua exposição em uma única contraparte — o Banco Master — elevando significativamente o risco institucional. O caso agora tramita no Supremo Tribunal Federal sob responsabilidade do ministro André Mendonça, com potencial desdobramento em responsabilizações criminais contra os dirigentes identificados.
Citations marquantes
O BRB dispunha de sinais prudenciais, financeiros e reputacionais relevantes sobre o Banco Master, formalmente incorporados ao seu ambiente informacional, mas não demonstrou sua consideração no processo decisório— Laudo da Polícia Federal