Fluxo de petróleo se normalizou, mas temores de escalada no Oriente Médio mantêm prêmios de risco elevados no mercado. Crise real está nos derivados: refinarias danificadas e rotas alternativas limitadas criaram escassez de diesel com crack spread em recordes.
Petróleo volta ao pré-guerra, mas preço segue alto por prêmio de risco
Em 2008 era crise do petróleo. Em 2026, é crise dos derivados.
Se o petróleo voltou aos níveis normais, por que o Brent não caiu junto?
Porque o mercado ainda não acredita que a guerra acabou. O Irã pode fechar o Estreito de Ormuz ou atacar refinarias vizinhas. Esse medo mantém um prêmio de risco nos preços.
Mas a Goldman Sachs diz que não é o cenário-base deles. Então estamos falando de um risco que o banco considera improvável, mas que mesmo assim move o mercado?
Exatamente. É improvável, mas possível o bastante para importar. E há um segundo fator: os derivados, não o petróleo bruto, estão realmente escassos.
Qual é a diferença?
Refinarias foram bombardeadas. Os navios que transportam diesel são menores e mais arriscados de passar por Ormuz. A China parou de exportar combustíveis. A Rússia também. O resultado é que o diesel está muito mais caro que deveria estar.
Quanto mais caro? Oddone diz que com Brent a cem dólares e diesel a duzentos, seria como um Brent de cento e sessenta a cento e oitenta em condições normais. Mas isso é uma estimativa dele, não um número de mercado confirmado.
Verdade. Mas o crack spread — a diferença entre os dois — atingiu recordes. Isso é verificável.
E o Brasil? Como isso afeta o país?
O Governo está subsidiando combustíveis com sete bilhões de reais por mês. Trinta e sete bilhões acumulados até setembro. É uma situação que Lula chamou de talvez única no mundo.
Talvez única — essa é a palavra dele, não uma confirmação. E quanto tempo isso pode durar?
Oddone diz que não conhece exemplos de subsídios que tenham perdurado. Mesmo o de Temer, em 2017, durou apenas sete meses.
Então o Brasil está em um experimento sem precedentes?
Parece que sim. E a pressão fiscal é real.
O Pulso
- Exportações de petróleo do Golfo Pérsico retornaram aos níveis pré-guerra
- Barril de Brent permanece acima de US$ 100 apesar da normalização do fluxo
- Exportações de derivados do Golfo caíram para metade do volume de 2025
- Subsídios brasileiros a combustíveis custam R$ 7 bilhões por mês, R$ 37,5 bilhões acumulados até setembro
Fluxo de petróleo se normalizou, mas temores de escalada no Oriente Médio mantêm prêmios de risco elevados no mercado. Crise real está nos derivados: refinarias danificadas e rotas alternativas limitadas criaram escassez de diesel com crack spread em recordes.
Exportações de petróleo do Golfo Pérsico retornaram aos níveis pré-guerra, mas o barril do Brent permanece acima de US$ 100 devido a prêmios de risco geopolítico e crise de derivados.
O petróleo voltou. Depois de meses de interrupções e desvios causados pela guerra no Oriente Médio, as exportações do Golfo Pérsico recuperaram-se a níveis iguais ou ligeiramente superiores aos anteriores ao conflito. Pelo menos no papel, a crise passou. Mas o barril de Brent segue cotado acima de cem dólares, e essa discrepância levanta uma pergunta incômoda: se o fluxo normalizou, por que os preços não caem?
A Goldman Sachs tentou responder. Segundo o banco, o culpado não é a falta de petróleo bruto, mas sim o prêmio de risco que o mercado ainda carrega. Os investidores não acreditam que o conflito entre Irã e Estados Unidos terminou de verdade. O temor é concreto: o Irã sempre viu o fechamento do Estreito de Ormuz — por onde passa um quinto de todo o petróleo mundial — como sua arma mais potente. A preocupação agora é que, ao perder esse trunfo, o país decida atacar as refinarias e instalações de petróleo dos vizinhos. Não é o cenário que o Goldman considera mais provável, mas é plausível o bastante para manter os preços elevados. A projeção do banco é de uma queda gradual: Brent a oitenta e cinco dólares até o fim do ano, depois oitenta dólares em 2027. Ainda assim, bem acima do patamar pré-guerra.
Mas há um segundo problema, mais urgente e menos visível. Enquanto o petróleo bruto flui novamente, os derivados — diesel, gasolina, combustíveis de aviação — permanecem escassos. A guerra danificou refinarias no Oriente Médio, e os navios que transportam esses produtos são menores e mais inflamáveis que os gigantescos cargueiros de petróleo, tornando sua passagem pelo Estreito de Ormuz mais arriscada e cara. O resultado é que as exportações de derivados do Golfo caíram para metade do volume registrado em 2025. Simultaneamente, a China parou de vender combustíveis para o exterior desde o início do conflito, e a Ucrânia começou a atacar as refinarias russas, forçando Moscou a suspender suas exportações. A diferença entre o preço do Brent e do diesel — o chamado crack spread — atingiu recordes históricos. John Arnold, o lendário ex-trader de energia que trabalhou na Enron, resumiu a situação com precisão: em 2008, quando o Brent chegou a cento e quarenta e sete dólares, foi uma crise do petróleo; em 2026, é uma crise dos derivados.
Décio Oddone, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo e ex-executivo da Petrobras, oferece números que ilustram a distorção. Com o Brent a cem dólares e o diesel acima de duzentos, a relação entre os dois produtos sugeriria um preço de Brent entre cento e sessenta e cento e oitenta dólares em condições normais. Essa disparidade reflete o estresse real na indústria de refino — e Oddone questiona quanto tempo levará para reconstruir uma refinaria bombardeada. Dificilmente menos de um ano. Enquanto isso, as margens de lucro das refinarias que ainda operam permanecerão elevadas, sustentando os preços dos derivados em patamares altos.
O Brasil sente o impacto na sua conta fiscal. O Governo tem subsidiado os preços dos combustíveis no mercado doméstico para evitar pressão inflacionária e descontentamento social — uma estratégia que Lula descreveu como talvez única no mundo. Os subsídios para diesel, gasolina e etanol custam atualmente sete bilhões de reais por mês, sendo cinco bilhões apenas para o diesel. Até setembro, o total acumulado chegava a trinta e sete bilhões e meio de reais. Oddone, que estava na ANP durante o subsídio ao diesel do Governo Temer — criado após a greve dos caminhoneiros e mantido por cerca de sete meses — é cético sobre a sustentabilidade dessa política. Ele desconhece exemplos de países consumidores em larga escala que tenham mantido esquemas de subsídio por longos períodos, mesmo com fundos de estabilização. São medidas emergenciais, diz ele, não soluções permanentes.
O Brasil tem uma vantagem: a arrecadação com petróleo aumentou graças aos royalties e participações especiais. Mas Oddone questiona se esse é realmente o melhor uso desses recursos. A situação coloca o Governo em um dilema: manter os subsídios drena o orçamento e adia ajustes estruturais; removê-los rapidamente causaria inflação e pressão política. Enquanto a crise dos derivados persistir — e tudo indica que persistirá por meses — o Brasil seguirá preso a essa escolha incômoda, gastando bilhões mensais para manter os preços domésticos desconectados de uma realidade internacional que ainda não se estabilizou.
Citações Notáveis
Talvez seja o único país do mundo que tenha feito isso— Presidente Lula, sobre a política de subsídios a combustíveis
Em 2008 era uma crise do petróleo. Em 2026, é uma crise dos derivados— John Arnold, ex-trader de energia