Quarenta por cento petistas, 34% bolsonaristas, mas 35% se dizem de direita
O Brasil encerra 2025 dividido, mas não estático: três em cada quatro brasileiros se alinham a um dos dois polos que dominam a política nacional, e os petistas voltaram a superar os bolsonaristas em número após um ano marcado pela condenação e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O levantamento do Datafolha, realizado em dezembro com mais de dois mil entrevistados, revela não apenas uma polarização persistente, mas um paradoxo que aponta para a complexidade do tecido político brasileiro — mais cidadãos se identificam ideologicamente com a direita do que com a esquerda, mesmo que o campo petista lidere a disputa de lealdades partidárias.
- A polarização PT-Bolsonaro continua a consumir três quartos da população brasileira, deixando pouco espaço para vozes fora desse eixo.
- A prisão e condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado abalou o campo bolsonarista, que perdeu a dianteira numérica que havia conquistado em julho.
- Petistas e bolsonaristas habitam geografias e demografias distintas — mulheres, nordestinos e aposentados de um lado; homens, evangélicos e empresários do Sul do outro.
- Um paradoxo silencioso emerge: 35% dos brasileiros se declaram de direita contra apenas 22% de esquerda, sugerindo que a vantagem petista pode ser mais frágil do que os números da polarização indicam.
- Com Lula à frente nas pesquisas para 2026, o campo progressista celebra a recuperação, mas a campanha que se aproxima promete ser mais complexa do que a simples contagem de lealdades permite prever.
A polarização política brasileira permanece intensa, mas registrou um movimento ao final de 2025: segundo o Datafolha, 40% dos brasileiros se identificam como petistas e 34% como bolsonaristas, totalizando 74% da população alinhada a um dos dois polos. Em julho, os dois grupos estavam tecnicamente empatados — 39% a 37%. A mudança coincide com um período turbulento para Jair Bolsonaro, que foi preso, condenado por tentativa de golpe de Estado e submetido a prisão preventiva após violar a própria tornozeleira eletrônica.
O instituto mapeou os perfis de cada campo. O petismo concentra-se entre mulheres, aposentados, pessoas com menor escolaridade, moradores do Nordeste e católicos. O bolsonarismo prevalece entre homens, empresários, evangélicos e moradores do Sul, com renda entre cinco e dez salários mínimos. São divisões que vão além da política e refletem fraturas mais profundas na sociedade brasileira.
Mas o dado mais revelador da pesquisa pode ser o paradoxo ideológico: apenas 57% dos entrevistados se declaram de direita ou de esquerda, e entre esses, 35% se identificam com a direita contra 22% com a esquerda. Isso significa que, mesmo com os petistas liderando a polarização partidária, a direita ideológica supera a esquerda em identificação — um sinal de que o cenário eleitoral de 2026, no qual Lula já aparece à frente nas pesquisas, será mais disputado e complexo do que a contagem de lealdades ao PT e a Bolsonaro permite enxergar.
A polarização política brasileira permanece intensa e praticamente imóvel. Três em cada quatro brasileiros se identificam com um dos dois polos que dominam o debate nacional — petistas ou bolsonaristas — segundo levantamento do Datafolha realizado entre 2 e 4 de dezembro. A pesquisa, que ouviu 2.002 pessoas em 113 municípios, revela um quadro de divisão profunda, mas com movimento: os alinhados ao presidente Lula recuperaram a dianteira numérica que havia perdido meses antes.
Quarenta por cento dos entrevistados se identificam como petistas. Trinta e quatro por cento se declaram bolsonaristas. Dezoito por cento se posicionam como neutros. Seis por cento afirmam não apoiar nenhum dos dois grupos. Um por cento não soube responder. A margem de erro é de dois pontos percentuais. O instituto utiliza desde dezembro de 2022 uma escala de um a cinco para medir essa polarização: quem marca um ou dois é classificado como bolsonarista; quem marca quatro ou cinco, como petista; quem marca três, como neutro.
Em julho, quando o Datafolha fez a pesquisa anterior, os dois grupos estavam tecnicamente empatados. Naquele momento, 39% se aproximavam mais do partido de Lula e 37% se alinhavam a Bolsonaro. A polarização geral era de 76%. Agora caiu para 74%, e os petistas voltaram a ser maioria — uma mudança pequena, mas que rompe o empate. O levantamento foi realizado após eventos significativos na trajetória do ex-presidente: sua prisão, condenação por tentativa de golpe de Estado, prisão domiciliar por descumprimento de medidas cautelares e uma prisão preventiva pela Polícia Federal em Brasília depois que tentou violar a própria tornozeleira eletrônica.
O Datafolha mapeou também quem são esses grupos. O petismo é numericamente mais concentrado entre mulheres, aposentados, pessoas com escolaridade até o ensino fundamental, moradores do Nordeste e católicos. O bolsonarismo prevalece entre homens, empresários, pessoas com renda entre cinco e dez salários mínimos, moradores do Sul e evangélicos. São geografias e demografias distintas, que refletem divisões mais profundas na sociedade.
Mas há um paradoxo que merece atenção. Embora a polarização entre petistas e bolsonaristas seja tão forte — 74% da população — a identificação ideológica é muito menos intensa. Apenas 57% dos entrevistados se declaram de direita ou de esquerda. Desses, 35% se dizem de direita e 22% de esquerda. Os demais se distribuem assim: sete por cento de centro-esquerda, 17% de centro, 11% de centro-direita e 8% não souberam se posicionar. Isso significa que a direita ideológica supera a esquerda em identificação — 35% contra 22% — mesmo que numericamente os petistas liderem a polarização PT-Bolsonaro.
O cenário para 2026 já está em formação. Lula lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais tanto no primeiro quanto no segundo turno, segundo levantamentos divulgados ao longo do segundo semestre. A recuperação numérica dos petistas nesta última pesquisa do Datafolha reforça essa posição, mas o paradoxo ideológico — mais gente se identificando como de direita do que de esquerda — sugere que a campanha presidencial será mais complexa do que a simples contagem de petistas e bolsonaristas permite enxergar.
Citações Notáveis
A polarização política segue predominante no Brasil e atinge 74% da população— Datafolha
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a polarização caiu de 76% para 74% se os petistas ganharam terreno?
Porque alguns bolsonaristas migraram para a neutralidade ou para a indecisão. Não é que o país ficou menos polarizado — é que alguns eleitores saíram de um polo para o meio do caminho.
E esse paradoxo da direita ideológica superando a esquerda enquanto petistas lideram numericamente — como se explica?
As pessoas não pensam em termos de esquerda e direita da mesma forma que pensam em PT e Bolsonaro. A polarização é pessoal, tribal. A ideologia é abstrata. Você pode ser petista sem se ver como esquerdista.
Os perfis sociais dos dois grupos são realmente tão diferentes?
Sim. Mulheres, aposentados, nordestinos, católicos — esse é o retrato do petismo. Homens, empresários, evangélicos, sul — esse é o bolsonarismo. São Brasil diferentes vivendo no mesmo país.
A prisão de Bolsonaro moveu esses números?
A pesquisa foi feita logo depois. Pode ter influenciado, mas dentro da margem de erro. O que importa é que os petistas recuperaram a dianteira que tinham perdido em julho.
E para 2026?
Lula sai na frente nas pesquisas de intenção de voto. Mas esse paradoxo ideológico — mais gente de direita que de esquerda — é um aviso de que a campanha não será apenas sobre PT versus Bolsonaro.