Pesquisas mostram como diferenças sexuais moldam respostas neurais a dor e estresse

Cada cérebro é diferente e possui uma plasticidade que o permite ser muito adaptável
Pesquisadora israelense explica por que a divisão binária entre cérebros masculinos e femininos simplifica demais a realidade biológica.

Desde os menores organismos do laboratório até os consultórios médicos, a ciência começa a reconhecer o que ignorou por décadas: machos e fêmeas respondem de forma biologicamente distinta à dor e ao estresse. Pesquisadores do Instituto Weizmann, em Israel, usaram vermes com poucos neurônios para revelar que essa diferença não é comportamental, mas inscrita na biologia — e que sua negligência histórica na pesquisa clínica tem custado saúde a metade da humanidade. O desafio agora não é criar dois cérebros opostos, mas aprender a tratar cada um com a complexidade que merece.

  • Fêmeas recuavam diante da dor; machos simplesmente a ignoravam — e quando proteínas ausentes foram artificialmente adicionadas aos machos, eles passaram a reagir, provando que a diferença é biológica, não aprendida.
  • Durante décadas, mulheres foram excluídas sistematicamente de estudos clínicos, gerando tratamentos calibrados para corpos masculinos e deixando um rastro mensurável de diagnósticos falhos e terapias menos eficazes.
  • Mulheres adoecem mais de depressão e ansiedade; homens recebem mais diagnósticos de autismo e esquizofrenia — padrões que não são coincidências estatísticas, mas reflexos de circuitos neurais moldados pela evolução.
  • Pesquisadores alertam: reconhecer diferenças sexuais no cérebro não é reforçar estereótipos, mas abrir caminho para cuidados mais precisos — porque até entre os machos estudados, 10% respondiam à dor, lembrando que a variabilidade individual é tão real quanto qualquer tendência geral.

Dois estudos publicados em 2025 pelo Instituto Weizmann partiram de uma criatura quase invisível — o verme Caenorhabditis elegans, com apenas algumas centenas de neurônios — para lançar uma pergunta incômoda à medicina moderna: por que metade da população foi ignorada na pesquisa sobre o cérebro?

A escolha do organismo não foi arbitrária. Com tão poucos neurônios, era possível estudar cada célula individualmente e comparar o comportamento de machos e fêmeas com precisão rara. Os resultados foram confirmados em ratos e têm relevância direta para humanos, já que cerca de 80% dos genes humanos encontram equivalentes nesses pequenos organismos. O padrão observado foi claro: fêmeas recuavam diante de estímulos dolorosos; machos os ignoravam. Quando proteínas naturalmente ausentes nos machos foram adicionadas artificialmente, eles passaram a responder — evidência de que a diferença é biológica, não comportamental.

A pesquisadora Meital Oren-Suissa foi direta sobre as implicações: o histórico de exclusão das mulheres da pesquisa clínica não é apenas uma injustiça — é um erro com consequências mensuráveis. Mulheres desenvolvem depressão, ansiedade e transtornos alimentares em taxas muito maiores; homens recebem mais diagnósticos de autismo, TDAH e esquizofrenia. Esses padrões sugerem que tratamentos desenvolvidos com base em corpos masculinos podem estar falhando sistematicamente com metade dos pacientes.

Mas os próprios pesquisadores insistem num ponto essencial: isso não significa que existam dois cérebros opostos. O psiquiatra Saulo Vito Ciasca lembra que cada cérebro é um mosaico único, moldado por idade, saúde cardiovascular, histórico de estresse, educação e, sim, sexo biológico — mas nunca por um único fator isolado. Entre os próprios vermes estudados, 10% dos machos respondiam à dor, contrariando a tendência geral. A variabilidade individual é tão importante quanto qualquer padrão coletivo. O objetivo, sublinham os cientistas, não é reforçar estereótipos, mas corrigir um viés histórico que custou décadas de cuidados menos eficazes a quem foi deixado de fora da equação.

Dois estudos publicados em 2025 pelo Instituto Weizmann, em Israel, começaram com criaturas minúsculas — vermes redondos com apenas algumas centenas de neurônios — e terminaram com uma pergunta que reverbera pela medicina moderna: por que ignoramos metade da população quando tentamos entender como o cérebro funciona?

Os pesquisadores usaram o Caenorhabditis elegans, um organismo tão pequeno quanto invisível a olho nu, para mapear como machos e fêmeas respondem de forma radicalmente diferente a dor e estresse. O que tornava esse experimento possível era justamente a simplicidade: com poucos neurônios, era viável estudar cada célula individualmente e observar seu comportamento em organismos XX versus XY. Depois, os mesmos padrões foram testados em ratos, confirmando que a diferença não era acidental. Cerca de 80% dos genes humanos encontram equivalentes nesses pequenos organismos, o que significa que o que aprendemos ali tem relevância direta para nós.

Os achados foram claros e perturbadores. Quando expostas a estímulos dolorosos, as fêmeas recuavam. Os machos, submetidos ao mesmo estímulo, simplesmente ignoravam. A hipótese dos pesquisadores aponta para a evolução: ao longo de milhões de anos, a seleção natural pode ter moldado circuitos neurais para que machos fossem menos sensíveis a certos tipos de dor, permitindo-lhes se arriscar mais na busca por parceiras reprodutivas, enquanto fêmeas desenvolveram maior cautela para proteger seus gametas. Quando os cientistas adicionaram proteínas artificialmente aos machos — proteínas que naturalmente faltavam neles — esses animais passaram a responder aos mesmos estímulos que antes ignoravam, sugerindo que a biologia, não o comportamento aprendido, estava por trás da diferença.

Meital Oren-Suissa, pesquisadora do departamento de Ciências Cerebrais e Neurociência Molecular do Instituto Weizmann, foi direta ao explicar por que isso importa: durante décadas, as mulheres foram sistematicamente excluídas da pesquisa clínica. Esse viés histórico não é apenas injusto — é prejudicial. As consequências clínicas são mensuráveis. Mulheres desenvolvem depressão, ansiedade e transtornos alimentares em taxas significativamente maiores. Homens, por sua vez, recebem diagnósticos de autismo, TDAH e esquizofrenia com maior frequência. Essas não são coincidências estatísticas; são sinais de que nossos tratamentos, desenvolvidos historicamente com base em corpos masculinos, podem estar falhando sistematicamente com metade da população.

Mas aqui está o ponto crucial que os pesquisadores enfatizam: isso não significa que existam dois cérebros, um masculino e outro feminino. Saulo Vito Ciasca, psiquiatra do Hospital Israelita Einstein, coloca a questão em perspectiva: estamos falando de órgãos humanos e como são afetados por um fator específico, não de gênero como construção social. O conceito de mosaico cerebral — a ideia de que cada cérebro é uma combinação única de características — descreve melhor a realidade clínica do que qualquer divisão binária. Cada pessoa é influenciada por idade, saúde cardiovascular, nível educacional, histórico de estresse e, sim, sexo biológico. Mas nenhum desses fatores atua sozinho.

Os próprios dados dos vermes provam isso. Entre os machos estudados, 90% ignoravam a dor. Mas 10% respondiam a ela. Essa variabilidade individual é tão importante quanto a tendência geral. Oren-Suissa insiste que o objetivo não é reforçar estereótipos — não se trata de dizer que "masculino é assim e feminino é assado". Trata-se de reconhecer que a biologia é complexa, que o mundo não é binário, e que entender essas diferenças com precisão nos permite oferecer cuidados melhores. O viés científico histórico em favor do sexo masculino deixou um legado de tratamentos menos eficazes para mulheres. Corrigir esse erro exige mais do que boas intenções; exige que a pesquisa clínica finalmente considere a variável que foi ignorada por demasiado tempo.

Durante décadas, as mulheres foram ignoradas na pesquisa clínica e não entendemos essa variável completamente. Ela não é a única, mas deve ser considerada para corrigir esse viés histórico
— Meital Oren-Suissa, pesquisadora do Instituto Weizmann
Não estamos falando de homens e mulheres, mas de uma diversidade de indivíduos atravessada por vários fatores, incluindo o sexo biológico, que está distante de ser binário
— Saulo Vito Ciasca, psiquiatra do Hospital Israelita Einstein
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que começar com vermes? Parece estranho estudar dor em criaturas tão simples.

Model

Os vermes têm apenas algumas centenas de neurônios. Você consegue mapear cada célula, entender exatamente como ela se comporta em machos versus fêmeas. É como ter um diagrama completo. Com ratos ou humanos, a complexidade torna isso impossível.

Inventor

E o que vocês descobriram que foi tão importante?

Model

Que as fêmeas recuam da dor, mas os machos a ignoram. Não é comportamento aprendido — é biologia. Quando adicionamos proteínas artificialmente aos machos, eles começaram a responder. A evolução literalmente moldou circuitos diferentes.

Inventor

Isso significa que homens e mulheres precisam de medicamentos diferentes?

Model

Não é tão simples. Significa que durante décadas desenvolvemos tratamentos baseados principalmente em corpos masculinos. Mulheres têm mais depressão e ansiedade. Homens têm mais autismo e esquizofrenia. Essas diferenças clínicas são reais.

Inventor

Mas você disse que não é binário. Como isso funciona?

Model

Cada cérebro é um mosaico. Sexo biológico é um fator entre muitos — idade, saúde cardiovascular, educação, estresse. E mesmo entre machos, 10% respondiam à dor enquanto 90% ignoravam. A individualidade importa tanto quanto a tendência geral.

Inventor

Então qual é a lição prática?

Model

Que precisamos parar de ignorar mulheres na pesquisa clínica. Não para reforçar estereótipos, mas para entender as pessoas com mais precisão e oferecer cuidados melhores.

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