O vírus deixa de existir e não consegue mais infectar
No momento em que o mundo aprendia a conviver com o invisível, cientistas da Unicamp voltaram seus olhos para um metal milenar — o cobre — e encontraram nele uma resposta à fragilidade das máscaras de tecido. O SprayCov, desenvolvido durante o auge da pandemia, não apenas mata o coronavírus em um minuto como transforma um simples pedaço de algodão em uma superfície protetora que dura dias. É o encontro entre a urgência do presente e a paciência da ciência, oferecendo proteção acessível a menos de dois centavos por máscara.
- Máscaras de tecido, onipresentes mas vulneráveis, exigiam lavagem diária para manter alguma eficácia — uma rotina insustentável para profissionais de saúde em linha de frente.
- Pesquisadores pivotaram estudos anteriores sobre metais e polímeros para criar o SprayCov, uma solução que fixa sais de cobre ao tecido e destrói a membrana externa do vírus em apenas sessenta segundos.
- Testes in vitro confirmaram que a fórmula inibe a replicação viral por três dias sem causar toxicidade às células humanas, e funciona também contra vírus da influenza.
- A eficácia de 99,99% se mantém por 48 horas após a aplicação, e o custo irrisório de menos de R$ 0,02 por máscara abre caminho para uso em larga escala.
- A Inova Unicamp já depositou pedido de patente e negocia com empresas têxteis e órgãos públicos interessados em levar o produto às prateleiras.
No auge da pandemia, pesquisadores da Unicamp se depararam com uma questão prática e urgente: como manter máscaras de tecido eficazes sem depender de lavagens diárias? A resposta nasceu de uma reorientação criativa — cientistas que estudavam metais e polímeros naturais voltaram sua pesquisa para um inimigo mais imediato e desenvolveram o SprayCov.
O produto combina sais de cobre, já conhecidos na agricultura como fungicidas, com polímeros biodegradáveis que funcionam como adesivo, fixando os compostos ao tecido da máscara. Ao contrário de desinfetantes comuns como álcool ou hipoclorito, o SprayCov transforma a superfície da máscara em uma barreira ativa. Os íons de cobre liberados rompem a membrana externa do vírus — a camada de glicoproteínas que carrega as informações genéticas necessárias para a infecção — eliminando-o em apenas um minuto.
Os testes laboratoriais, conduzidos com amostras do SARS-CoV-2 e de outro coronavírus mais resistente, confirmaram que a solução não apenas mata o vírus como inibe sua replicação por três dias, sem qualquer toxicidade para células humanas. A eficácia de 99,99% se mantém nas 48 horas seguintes à aplicação, e o custo é quase simbólico: menos de dois centavos de real por máscara. O spray mostrou-se igualmente promissor contra vírus da influenza, ampliando seu potencial muito além da covid-19.
Com a patente depositada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial pela Agência Inova Unicamp, o próximo desafio é transformar a descoberta em produto comercial. Empresas têxteis e órgãos do setor público já sinalizaram interesse — e a ciência, que começou olhando para o cobre, agora mira as prateleiras.
No auge da pandemia, quando máscaras de tecido se tornaram tão comuns quanto chaves nos bolsos, pesquisadores da Unicamp enfrentavam um problema prático: como manter essas máscaras eficazes sem precisar lavá-las diariamente? A resposta veio em forma de um spray batizado de SprayCov, desenvolvido por cientistas que pivotaram sua pesquisa anterior sobre metais e polímeros naturais para atacar um inimigo muito mais urgente.
O SprayCov funciona de maneira elegante. Quando aplicado sobre máscaras de algodão, cria uma barreira protetora capaz de matar o coronavírus em apenas um minuto. A fórmula combina sais de cobre — compostos já amplamente usados na agricultura como fungicida — com polímeros biodegradáveis que funcionam como adesivo, fixando os sais ao tecido. Segundo Marisa Masumi Beppu, professora titular da Faculdade de Engenharia Química e fundadora do Laboratório de Engenharia e Química de Produtos da universidade, o spray não é um simples desinfetante como álcool 70 ou hipoclorito de sódio. É, em vez disso, um processo que transforma a máscara em uma superfície capaz de inativar o vírus.
Os testes em laboratório revelaram como o produto age. Amostras do SARS-CoV-2 e de outro coronavírus mais resistente foram colocadas em contato com a fórmula e células vivas in vitro. A solução liberou íons que atacaram o vírus, partículas eletricamente carregadas que causaram rupturas na membrana externa do microorganismo. Essa camada externa, composta de glicoproteínas, é onde residem todas as informações genéticas que permitem ao coronavírus penetrar nossas células. Uma vez destruída, o vírus deixa de existir e perde sua capacidade de infectar. Clarice Weis Arns, professora titular do Instituto de Biologia e responsável pelos testes, observou que a solução não apenas matava o vírus como também inibia sua replicação por três dias, reduzindo drasticamente sua capacidade de inoculação.
O que torna o SprayCov particularmente promissor é sua eficácia prolongada. Mantém 99,99% de sua potência nas 48 horas seguintes à aplicação, o que significa que uma máscara pulverizada no início da semana permaneceria protegida por dias. O custo é negligenciável: menos de dois centavos de real por máscara. Inicialmente concebido para proteger profissionais de saúde que lidam diretamente com pacientes infectados, o spray se mostrou igualmente viável para máscaras de algodão de uso comum.
A pesquisa também sugeriu que o SprayCov seria eficaz contra outros vírus respiratórios, como os da influenza, ampliando seu potencial de aplicação além da covid-19. Beppu explicou que ao aplicar o produto tão próximo das vias aéreas superiores, qualquer vírus preso nos cílios, nariz ou garganta poderia ser eliminado pelo recobrimento da máscara.
Com os resultados em mãos, a Agência de Inovação Inova Unicamp entrou com um processo de patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial e começou a oferecer a tecnologia a empresas com capacidade de levá-la ao mercado. Beppu relatou que empresas têxteis e órgãos do setor público já haviam manifestado interesse. O próximo passo é transformar uma descoberta de laboratório em um produto que chegue às prateleiras — um caminho que, em tempos de pandemia, nunca foi tão urgente.
Notable Quotes
Nossa fórmula não é um agente sanitizante como o álcool 70 ou o hipoclorito de sódio, esse é um processo para tornar a máscara capaz de inativar o vírus— Marisa Masumi Beppu, professora titular da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp
Você está aplicando o produto muito próximo das vias aéreas superiores, se tiver algum vírus preso nos nossos cílios, no nariz ou na garganta o recobrimento da máscara pode ajudar a eliminar— Clarice Weis Arns, professora titular do Instituto de Biologia da Unicamp
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que os pesquisadores decidiram trabalhar especificamente com sais de cobre?
Porque já tinham experiência com metais e polímeros naturais em pesquisas anteriores. Quando a pandemia começou, viram uma oportunidade de aplicar esse conhecimento a um problema real. O cobre também já era conhecido na agricultura como fungicida eficaz.
A máscara fica segura de usar depois de pulverizada? Não há risco de inalar partículas?
Os testes mostraram que a solução não é tóxica para as células humanas. O spray forma uma barreira sobre o tecido, não um revestimento que se desprenderia. Está sendo aplicado na superfície externa, onde o vírus tenta entrar.
Se o spray dura 48 horas com 99,99% de eficácia, por que não dura três dias inteiros?
A pesquisa mostrou que inibe a replicação viral por três dias, mas a eficácia máxima — aquele 99,99% — se mantém por 48 horas. Depois disso, o produto continua funcionando, apenas com uma redução gradual.
Qual é o maior obstáculo para levar isso ao mercado?
Não é a tecnologia. É encontrar parceiros comerciais dispostos a investir na produção e distribuição. A Unicamp já tem interesse de empresas têxteis e do setor público, mas transformar um spray de laboratório em um produto em escala é um salto diferente.
Se funciona contra influenza também, por que não começaram com isso antes da pandemia?
Porque ninguém estava procurando por isso. A pesquisa original era sobre aplicações ambientais e biomédicas. A covid-19 mudou completamente o foco e a urgência. Às vezes a inovação precisa de uma crise para ganhar relevância.