A polipílula combina rosuvastatina, valsartana e anlodipina em dose baixa, reduzindo pressão arterial em 12 mmHg e colesterol em 40 mg/dL conforme testes iniciais. O AVC é a principal causa de morte no Brasil com 89.490 óbitos em 2025; 90% dos casos podem ser prevenidos com controle de fatores de risco, especialmente hipertensão.
Pesquisa brasileira recruta 8,5 mil voluntários para testar polipílula contra AVC
Três comprimidos em um só. Facilita a utilização.
Por que uma polipílula é melhor do que prescrever os três medicamentos separadamente?
Porque as pessoas não tomam. Quando você prescreve três comprimidos diferentes, em horários diferentes, com instruções diferentes, a adesão cai drasticamente. Uma polipílula é um comprimido. Simples. E nos testes iniciais, vimos que pessoas que usavam o aplicativo começaram a mudar de vida — aumentaram exercício, pararam de fumar. O medicamento sozinho não faz nada se a pessoa não toma.
O estudo recruta pessoas que nunca tiveram AVC. Por que não testar em quem já teve?
Porque 85% dos casos de AVC no mundo ocorrem em pessoas de baixo e médio risco que não estão sendo tratadas. São pessoas com pressão ligeiramente elevada, talvez um pouco acima do peso, mas que os médicos orientam apenas a mudar estilo de vida. O estudo quer provar que uma medicação preventiva de baixa dose pode evitar o primeiro AVC nesse grupo — é onde está o maior potencial de impacto.
Qual é o risco de dar medicação para alguém que pode nunca ter um AVC?
Muito baixo. A polipílula usa doses baixas de medicamentos já conhecidos e bem tolerados. Nos testes iniciais, não houve problemas de segurança. E o benefício potencial — evitar um AVC — é enorme. Um AVC não é só morte; é incapacidade permanente, perda de independência. Se você pode evitar isso com um comprimido por dia, o risco vale a pena.
Por que o Brasil está liderando isso?
Porque temos uma neurologista brilhante em Porto Alegre que montou uma equipe internacional e conseguiu financiamento do Ministério da Saúde. Mas também porque o Brasil tem uma rede de atenção primária que pode fazer recrutamento em larga escala. E porque o AVC é um problema imenso aqui — 89 mil mortes por ano. Se isso funcionar, o SUS pode oferecer prevenção de AVC para milhões de pessoas.
O que muda se o estudo der certo?
Tudo. Hoje, você só prescreve medicação para hipertensão quando a pressão está acima de 140. Se a polipílula funcionar, você pode começar a tratar pessoas com pressão mais baixa, muito mais cedo. Isso pode reduzir drasticamente o número de AVCs no Brasil e no mundo. E a política pública muda — de reativo para preventivo.
O Pulso
- 8,5 mil voluntários recrutados desde fim de 2025 para acompanhamento de 3 a 4 anos
- Polipílula reduz pressão arterial em 12 mmHg e colesterol em 40 mg/dL conforme testes iniciais
- AVC é principal causa de morte no Brasil com 89.490 óbitos em 2025
- 90% dos casos de AVC podem ser prevenidos com controle de fatores de risco
- Recrutamento em 14 centros de AVC em 9 estados brasileiros
A polipílula combina rosuvastatina, valsartana e anlodipina em dose baixa, reduzindo pressão arterial em 12 mmHg e colesterol em 40 mg/dL conforme testes iniciais. O AVC é a principal causa de morte no Brasil com 89.490 óbitos em 2025; 90% dos casos podem ser prevenidos com controle de fatores de risco, especialmente hipertensão.
Pesquisadores brasileiros recrutam 8,5 mil voluntários para testar a primeira polipílula nacional contra acidentes vasculares cerebrais, combinando três medicamentos em uma única apresentação, com acompanhamento de três a quatro anos.
Desde o final de 2025, pesquisadores brasileiros estão recrutando voluntários para um ensaio clínico ambicioso: testar a primeira polipílula desenvolvida no país especificamente para prevenir acidentes vasculares cerebrais e outras doenças do coração. O objetivo é reunir 8,5 mil participantes que serão acompanhados durante três a quatro anos, um esforço de escala sem precedentes na pesquisa cardiovascular brasileira.
A polipílula é simples em conceito, mas potencialmente transformadora na prática. Ela combina três medicamentos em uma única apresentação: rosuvastatina 10 mg para controlar o colesterol, valsartana 80 mg para pressão alta, e anlodipina 5 mg, outro anti-hipertensivo. Tomar três comprimidos em um só simplifica drasticamente a adesão ao tratamento, um desafio crônico na medicina preventiva. Os testes iniciais, conduzidos entre 2020 e 2023 com 370 pessoas em Porto Alegre, mostraram resultados promissores. A pressão arterial caiu em média 12 milímetros de mercúrio, e o colesterol diminuiu 40 miligramas por decilitro — quedas significativas que sugerem o medicamento funciona bem e é bem tolerado.
A pesquisa é liderada pela neurologista Sheila Martins, chefe do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde através do Proadi-SUS. O recrutamento ocorre em 14 centros de AVC distribuídos por São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Pernambuco e Acre, com planos de expandir para outras regiões. Os voluntários precisam ter entre 50 e 75 anos, nunca ter sofrido AVC ou infarto, e não estar em uso de medicamentos para colesterol, hipertensão ou diabetes. A participação é gratuita e inclui acompanhamento médico periódico.
O desenho do estudo é rigoroso: os participantes serão divididos aleatoriamente em dois grupos, um recebendo a polipílula e outro um placebo. Ao longo de três anos, os pesquisadores avaliarão se o tratamento reduz o risco de AVC, demência ou declínio cognitivo. Como desfechos secundários, também medirão a redução de infarto, insuficiência cardíaca e morte por doença circulatória. Martins enfatiza que quanto maior o número de participantes, mais robustas serão as evidências e maior o potencial de orientar futuras políticas públicas de prevenção.
O contexto que torna este estudo urgente é alarmante. O AVC é a principal causa de morte no Brasil, responsável por 89.490 óbitos em 2025, e uma das principais causas de incapacidade. Globalmente, a Organização Mundial do AVC estima que as mortes podem crescer 50% nas próximas décadas, passando de 6,6 milhões em 2020 para cerca de 9,7 milhões em 2050. Mas há esperança: Martins destaca que 90% dos casos de AVC podem ser prevenidos com controle adequado dos fatores de risco, sendo a hipertensão o mais importante.
O estudo visa especificamente pessoas de baixo e médio risco — aquelas com pressão máxima até 139 e mínima até 121, com pelo menos um fator de risco modificável como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada ou tabagismo. Essas pessoas representam 85% dos casos de AVC no mundo e atualmente não recebem medicação, apenas orientações sobre mudanças de estilo de vida. A polipílula oferece uma alternativa preventiva de baixíssimo risco para esse grupo.
O projeto inclui também um aplicativo chamado Riscômetro que permite aos participantes calcular seu risco pessoal de AVC, infarto ou doença circulatória e monitorar a redução desse risco ao longo do tempo. Nos testes iniciais, essa ferramenta motivou mudanças comportamentais significativas: pessoas aumentaram atividade física, fumantes deixaram de fumar. Martins vê isso como um aspecto maravilhoso do estudo — não apenas testa um medicamento, mas também empodera pacientes a transformar seus hábitos.
Se os resultados confirmarem eficácia, a polipílula poderá estar disponível no SUS em breve. Martins é clara sobre o objetivo: transformar a medicação em escala maior e disponibilizá-la para pessoas com pressão alta, simplificando o tratamento preventivo de milhões de brasileiros. A combinação de medicamentos foi desenvolvida por um comitê executivo nacional liderado por Martins, junto com um comitê internacional que inclui especialistas em AVC e hipertensão da Austrália, Estados Unidos e Inglaterra. O desafio agora é expandir o recrutamento e manter a adesão de 8,5 mil voluntários ao longo de anos — um teste não apenas da polipílula, mas da capacidade da pesquisa brasileira de conduzir estudos de grande escala que possam mudar políticas públicas globais.
Citações Notáveis
A ideia é que a gente consiga provar a eficácia do tratamento nessas pessoas que são de baixo e médio risco— Sheila Martins, neurologista e coordenadora do estudo
Quanto maior o número de participantes, mais robustas serão as evidências geradas e maior o potencial de orientar futuras políticas públicas de prevenção— Sheila Martins