Durante setenta anos, uma obra monumental de Almada Negreiros apodreceu em silêncio num atelier de madeira em Bicesse — demasiado complexa, demasiado frágil, demasiado esquecida para ser salva. Agora, restaurada pelo Laboratório José de Figueiredo com rigor multidisciplinar, a peça de 1950 emerge finalmente para o olhar público, lembrando-nos que a arte resiste ao tempo mesmo quando o tempo a corrói. Em outubro, o Museu Nacional de Arte Antiga acolherá esta obra como testemunho vivo de uma obsessão que perseguiu Almada Negreiros até à morte — a de decifrar os enigmas geométricos dos Painéis de
Peça inédita de Almada Negreiros sai do esquecimento após restauro no Laboratório José de Figueiredo
Foram muitos anos de espera, e já quase tinha perdido a esperança
Porque é que esta peça em particular foi tão difícil de restaurar comparada com outras do espólio?
Tinha quase dois metros de altura e largura, e era feita de materiais muito diversos — fotografia, desenho, algodão, arame. Precisava de uma abordagem multidisciplinar, não era apenas pintura. E esteve 70 anos num atelier de madeira com oscilações de temperatura e humidade, degradando-se lentamente.
A família sabia que isto era importante, mas não conseguia fazer nada?
Exatamente. Rita Almada disse que "quase tinha perdido a esperança". Não era falta de vontade — era falta de meios. Precisava de especialistas em geometria, em pintura, em conservação. Tudo ao mesmo tempo.
E o que é que a peça representa, afinal? Por que é que Almada passou décadas obcecado com os Painéis de São Vicente?
Fez um pacto com dois amigos artistas para estudarem aquele retábulo até ao fim da vida. Quando eles morreram em 1918, Almada continuou sozinho. Criou uma teoria sobre como as pinturas estavam dispostas, imaginou um retábulo maior para o Mosteiro da Batalha. Esta peça de 1950 é parte dessa investigação obsessiva.
Então isto não é apenas uma obra de arte, é um documento de uma investigação?
É ambos. É uma obra de arte em si mesma — combina fotografia, desenho, materiais têxteis de forma muito sofisticada. Mas é também o registo visual de uma pesquisa que o acompanhou durante 50 anos.
E agora que vai ser exibida, o que muda?
Muda tudo. Pela primeira vez, as pessoas vão poder ver o que Almada estava a fazer. E a família conseguiu que fique em depósito no museu, protegida, disponível para investigadores. Deixa de ser "a pedra no sapato" e passa a ser uma obra que pode ser estudada e compreendida.
El Pulso
- Uma obra de quase dois metros, feita de fios de algodão, arame, fotografia e desenho, esteve sete décadas a degradar-se num atelier prefabricado sem condições adequadas de conservação.
- A família do artista considerava-a 'a pedra no sapato' do espólio — demasiado grande e frágil para ser restaurada com os meios disponíveis, gerando anos de impasse e quase desespero.
- Investigadores especializados em geometria, pintura e matemática conseguiram deslindar os traçados da peça, tornando possível um restauro ponto a ponto no Laboratório José de Figueiredo, em Lisboa.
- A obra será exibida pela primeira vez ao público a 15 de outubro no Museu Nacional de Arte Antiga, acompanhada de uma exposição paralela no Mosteiro da Batalha e de catálogos científicos.
- A família de Almada espera que a peça fique em depósito permanente no museu, garantindo proteção duradoura e acesso contínuo a investigadores.
Durante setenta anos, uma obra monumental de Almada Negreiros apodreceu em silêncio num atelier de madeira em Bicesse — demasiado complexa, demasiado frágil, demasiado esquecida para ser salva. Agora, restaurada pelo Laboratório José de Figueiredo com rigor multidisciplinar, a peça de 1950 emerge finalmente para o olhar público, lembrando-nos que a arte resiste ao tempo mesmo quando o tempo a corrói. Em outubro, o Museu Nacional de Arte Antiga acolherá esta obra como testemunho vivo de uma obsessão que perseguiu Almada Negreiros até à morte — a de decifrar os enigmas geométricos dos Painéis de São Vicente.
Há sete décadas que uma das obras mais ambiciosas de Almada Negreiros permanecia esquecida num atelier de madeira em Bicesse, a degradar-se lentamente. Com quase dois metros de altura e largura, o "Estudo em fio dos painéis de S. Vicente", datado de 1950, combinava desenhos, reproduções fotográficas, fios de algodão e arame numa composição que a própria família do artista considerava impossível de salvar — complexa demais, grande demais, frágil demais.
A neta do artista, Rita Almada Negreiros, confessou ter quase perdido a esperança ao longo dos anos de espera. Mas a obra encontra-se agora nas mãos dos especialistas do Laboratório José de Figueiredo, em Lisboa, onde um restauro multidisciplinar lhe está a devolver a dignidade. Estudos aprofundados conduzidos por Simão Palmeirim e Pedro Freitas, especialistas em geometria e pintura, permitiram reconstituir os traçados da peça e tornar possível uma intervenção ponto a ponto.
A obsessão que gerou esta obra acompanhou Almada durante toda a vida. Os Painéis de São Vicente, o políptico quinhentista de Nuno Gonçalves, fascinaram-no desde jovem, quando fez um pacto com Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita para os estudarem até ao fim da vida. Após a morte de ambos em 1918, Almada continuou sozinho, imaginando uma disposição de mais de uma dezena de pinturas num grande retábulo destinado ao Mosteiro da Batalha — investigação que alimentou décadas de produção artística.
A exposição "Almada Negreiros e os Painéis — um retábulo imaginado para o Mosteiro da Batalha" será inaugurada a 15 de outubro na Sala do Teto Pintado do Museu Nacional de Arte Antiga, apresentando pela primeira vez duas obras de grande dimensão — de 1950 e 1960 — a par de estudos preparatórios. Uma exposição complementar abrirá na mesma data no Mosteiro da Batalha. A família espera ainda que a peça restaurada fique em depósito permanente no museu, protegida e acessível a investigadores futuros.
Há sete décadas, uma obra monumental de Almada Negreiros permanecia esquecida num atelier de madeira em Bicesse, degradando-se lentamente sob as oscilações de temperatura e humidade. Medindo quase dois metros de altura e largura, esta peça de 1950 intitulada "Estudo em fio dos painéis de S. Vicente" combinava desenhos, reproduções fotográficas, fios de algodão e arame numa composição que a família do artista considerava "a pedra no sapato" do seu espólio — complexa demais, demasiado grande, demasiado frágil para ser restaurada com os meios disponíveis até agora.
Agora, finalmente, a obra encontra-se nas mãos dos especialistas do Laboratório José de Figueiredo, em Lisboa, onde está a ser submetida a um restauro multidisciplinar que promete devolver-lhe a dignidade. Rita Almada Negreiros, neta do artista, descreveu com emoção o que significou conseguir este passo: "Foram muitos anos de espera, e já quase tinha perdido a esperança." A peça será exibida ao público pela primeira vez em outubro, no Museu Nacional de Arte Antiga, no âmbito de uma exposição que resulta de investigação desenvolvida por Simão Palmeirim e Pedro Freitas, especialistas em pintura, geometria e matemática.
A obra é inseparável da obsessão que perseguiu Almada durante toda a vida. Os Painéis de São Vicente, o políptico do século XV pintado por Nuno Gonçalves, fascinaram-no desde a primeira vez que os viu. Ainda jovem, fez um pacto com os artistas Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita para estudarem a obra até ao fim da vida. Quando ambos morreram em 1918, Almada continuou sozinho, dedicando décadas a desvendar os enigmas geométricos e compositivos do retábulo. Imaginou uma disposição de mais de uma dezena de pinturas num único grande retábulo, que afirmava ter sido projetado para o Mosteiro da Batalha, e essa investigação gerou uma vasta produção artística que ocuparia o resto da sua existência.
O restauro foi possível graças a estudos prévios exaustivos que permitiram aos investigadores deslindar os traçados geométricos da peça, possibilitando um restauro ponto a ponto. A obra esteve durante décadas no mesmo local onde Almada a deixou, sofrendo com o envelhecimento dos materiais e as condições adversas do atelier prefabricado. Rita Almada Negreiros sublinhou a importância da equipa multidisciplinar do Laboratório José de Figueiredo e da oportunidade criada pela exposição no museu. A família espera ainda que a peça fique em depósito permanente na instituição, garantindo a sua proteção e permitindo que investigadores interessados a estudem nos anos vindouros.
Almada Negreiros (1893-1970) foi uma figura ímpar do modernismo português, aplicando-se a uma diversidade notável de meios de expressão — desenho, pintura, ensaio, romance, poesia, dramaturgia e até bailado. Ganhou notoriedade com a escrita interventiva em revistas como Orpheu e Portugal Futurista, e viveu em Paris e Madrid, convivendo com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso e o casal Sonia e Robert Delaunay. A peça que agora sai do esquecimento é testemunho de uma investigação que o acompanhou até à morte, em 1970.
A exposição de outubro, intitulada "Almada Negreiros e os Painéis — um retábulo imaginado para o Mosteiro da Batalha", será inaugurada a 15 de outubro na Sala do Teto Pintado do Museu Nacional de Arte Antiga. Pela primeira vez, serão apresentadas duas obras de grande dimensão — uma de 1950 e outra de 1960 — completas, que aliam fotografia, desenho e materiais têxteis, marcando momentos importantes da pesquisa de Almada, juntamente com alguns dos seus estudos preparatórios. Uma exposição complementar no próprio Mosteiro da Batalha, sob o título "Almada Negreiros e o Mosteiro da Batalha — quinze pinturas primitivas num retábulo imaginado", será também inaugurada na mesma data, com Simão Palmeirim como comissário. Ambas as exposições serão acompanhadas pela edição de catálogos autónomos, com textos resultantes da investigação recente sobre o tema.
Citas Notables
Do espólio que nós temos na família, esta é capaz de ser a 'pedra no sapato' mais complexa, porque tem uma dimensão bastante grande, necessitava de um restauro multidisciplinar, e de um estudo paralelo.— Rita Almada Negreiros, neta do artista
Esta peça esteve desde os anos 1950 no mesmo sítio, pousada onde Almada a deixou, e foi-se degradando, sofrendo com o passar do tempo, o envelhecimento dos materiais, num atelier prefabricado em madeira, em Bicesse.— Rita Almada Negreiros