Pastora ordena vida pessoal por fé religiosa, prioriza família e igreja sobre carreira profissional, e interpreta submissão bíblica feminina como complementaridade, não subordinação. Sarah critica feminismo por alterar harmonia familiar, rejeita liberação de armas no Brasil e defende Lei Maria da Penha, mostrando posições conservadoras mas não uniformes.
Pastora carioca rejeita feminismo e esquerda, mas apoia Lei Maria da Penha
Prende e ora para que Deus transforme o caráter dele
Como ela consegue manter essa coerência entre defender a Lei Maria da Penha e ao mesmo tempo pregar submissão feminina?
Para Sarah, não são coisas contraditórias. A submissão é sobre escolher um homem íntegro e trabalhar junto com ele. A Lei Maria da Penha é sobre punir quem viola essa relação. Violência não é submissão — é abuso.
Mas quem define o que é um "homem íntegro"? E como uma mulher que acredita que deve se submeter consegue sair de um relacionamento abusivo se a estrutura teológica diz que ela deve obedecer?
Ela reconhece que fez escolhas erradas no passado. Diz que se você se submete a alguém "lunático", você fez a escolha errada. Mas é verdade que essa lógica coloca muito peso na mulher.
E quanto ao feminismo? Por que ela o vê como uma ameaça?
Ela acha que o feminismo a afastou de seus desejos naturais — ter filhos, priorizar a família. Vê a cultura secular como algo que convence as mulheres a escolherem carreira acima de tudo.
Mas ela mesma trabalha, faz home office. Não é exatamente rejeição ao trabalho feminino.
Não. É rejeição à priorização do trabalho sobre a família. Para ela, o trabalho é necessário, mas secundário.
E a política? Como ela justifica votar em Bolsonaro se critica coisas que ele fez?
Ela diz que foi preciso apoiá-lo para derrotar a esquerda. É um voto tático, não um endosso total. Mas a questão é: até que ponto evangélicos como ela estão realmente alinhados com a agenda bolsonarista, ou apenas usando-a como ferramenta?
Para Sarah, a política agora é central para proteger religião, família e pátria. Isso mudou. Evangélicos não veem mais política como coisa do diabo.
O Pulso
- Pastora de 31 anos na Igreja Vitória em Cristo, Rio de Janeiro
- Ordenada pastora aos 29 anos; trabalha como publicitária em home office
- Votará em Flávio Bolsonaro (PL) em 2026
- Defende Lei Maria da Penha e rejeita liberação de armas no Brasil
Pastora ordena vida pessoal por fé religiosa, prioriza família e igreja sobre carreira profissional, e interpreta submissão bíblica feminina como complementaridade, não subordinação. Sarah critica feminismo por alterar harmonia familiar, rejeita liberação de armas no Brasil e defende Lei Maria da Penha, mostrando posições conservadoras mas não uniformes.
Sarah Lole, pastora de 31 anos da Igreja Vitória em Cristo no Rio de Janeiro, articula visão conservadora que rejeita feminismo, apoia direita política e defende submissão feminina como harmonia familiar, não inferioridade.
Sarah Lole começa cada dia com uma oração. Antes de ir à academia, de decidir para onde viajar, de escolher qualquer coisa que importe ou pareça trivial — até uma cirurgia estética — ela conversa com Deus. Aos 31 anos, pastora e publicitária no Rio de Janeiro, ela descreve essa relação constante com o sagrado não como prática religiosa, mas como um modo de estar no mundo.
Cresceu na Assembleia de Deus da Penha, liderada por seu avó. A mesma congregação que em 2010 se tornou a Igreja Vitória em Cristo, agora sob comando de seu tio Silas Malafaia, casado com Elizete, irmã de sua mãe. Ser filha de pastores, porém, não garantiu que mantivesse a fé intacta. Aos 18 anos, um relacionamento com um homem que a traía a afastou de Deus. Ela reconhece agora que buscava preencher uma lacuna emocional deixada por um pai rígido, coronel da PM que não demonstrava afeto. Pediu a Deus que a libertasse daquele homem. Funcionou. Houve depois outro namoro, com alguém que se assumiu homossexual. "Foram relacionamentos que machucaram muito", diz. Conheceu Matheus no culto — ele era amigo de um rapaz com quem ela treinava crossfit. Casados desde 2019, planejam começar a tentar ter filhos no fim deste ano.
Foi ordenada pastora aos 29 anos, idade que considera precoce. A Vitória em Cristo permite que mulheres recebam o título; muitas Assembleias de Deus não concedem. Ela trabalha como publicitária fazendo home office para as redes sociais de Malafaia, um cargo que deixou para trás a carreira que sonhava na L'Oréal, onde imaginava alcançar os postos mais altos. O trabalho pastoral é voluntário. Apenas homens que pastoreiam em período integral recebem salário. "Preciso ter uma fonte de renda para me ajudar, ainda mais no Rio, onde as coisas são muito caras."
Sua visão sobre o papel da mulher emerge dessa hierarquia de prioridades: Deus acima de tudo, depois família, igreja e trabalho. Ela rejeita a ideia de que a submissão feminina prevista na Bíblia signifique inferioridade. Interpreta-a como estar sob a mesma missão do marido, como auxiliá-lo na direção do lar. "Não que a mulher seja menor do que o homem, mas eu tô aqui para auxiliar meu esposo." O feminismo, em sua visão, altera essa harmonia. Ela cresceu querendo filhos, mas priorizou a vida profissional — um impacto da "cultura do nosso país" que a incomodou. Vê o que chama de "evangelho secularizado": mulheres exibindo o corpo na academia e depois aparecendo na igreja "de saião", como se não houvesse diferença entre viver dentro e fora dos valores religiosos.
Quando fala da comunidade LGBTQIA+, Sarah mantém uma posição que parece contraditória apenas na superfície. A igreja é para todo mundo, diz, mas a fé deve produzir transformação. Menciona como positivo a cantora Ludmilla ter visitado sua congregação no Recreio, zona oeste carioca. "A gente sabe que ela é homossexual e prega uma vida nada a ver com o evangelho." Para Sarah, o preconceito é "inerente ao ser humano", um coração mau que só muda pelo Espírito Santo. Ela mesma sente preconceito por ser crente — na escola, diziam que cristãos são bobos, que não experimentam a vida.
Sua preocupação com a violência nasceu de um episódio concreto. Quando criança, a caminho do culto, foi assaltada com a família. Educação ruim e pobreza geram violência, acredita. Não apoia a liberação de armas, considerando que o Brasil não tem maturidade para lidar com elas. "Um vai atirar no outro, vai ser pior ainda." Mas quando fala de violência doméstica, a fé não elimina a punição. Defende a Lei Maria da Penha e diz que homem que bate em mulher deve ser preso. "A gente não tem que ficar fingindo que nada tá acontecendo. Prende e ora para que Deus transforme o caráter dele."
Seu conservadorismo político tem raízes na escola. Um professor de ensino médio pregou sobre a PSOL para a turma, e ela saiu de lá querendo votar em Marcelo Freixo. O pulso conservador que teve em casa a colocou na rota oposta. "Sou de direita porque vejo que é o melhor caminho a se seguir no país." Votará em Flávio Bolsonaro neste ano. Sua adesão ao bolsonarismo vem com ressalvas — acha que Jair Bolsonaro "começou falando coisas muito fortes" — mas foi preciso apoiar sua presidência para derrotar a esquerda, que ameaçaria o que mais lhe importa: família, pátria e religião. Daí ser tão importante que evangélicos se engajem politicamente. "Antigamente, a gente atribuía política ao diabo." Não mais.
Citações Notáveis
Qualquer decisão que tome na minha vida, eu começo orando— Sarah Lole
Sou de direita porque vejo que é o melhor caminho a se seguir no país— Sarah Lole