Parque criado não protege área de 716 hectares destinada a salvar BRB

A população do Distrito Federal enfrenta risco de comprometimento do abastecimento de água devido à possível impermeabilização de áreas estratégicas para recarga de aquíferos.
A região, por baixo, é toda interligada. Impermeabilizar mata a recarga dos aquíferos.
Diretora da Associação Preserva Serrinha explica por que construir na Gleba A ameaça o abastecimento de água.

O parque criado pela governadora Celina Leão abrange apenas 65,9 hectares, enquanto a Gleba A, destinada a salvar o BRB, possui 716 hectares e permanece desprotegida. A região da Serrinha do Paranoá abriga 119 minas d'água que abastecem o Lago Paranoá, manancial estratégico para o Distrito Federal, e sua impermeabilização ameaça a recarga de aquíferos.

  • Parque criado: 65,9 hectares; Gleba A desprotegida: 716 hectares
  • 119 minas d'água na Serrinha do Paranoá abastecem o Lago Paranoá
  • Banco de Brasília sofreu prejuízos de bilhões em compras do Banco Master
  • Três ações judiciais questionam a alienação da gleba para fins imobiliários

Novo Parque da Serrinha do Paranoá, com 65,9 hectares, não inclui a Gleba A de 716 hectares dada como garantia para salvar o Banco de Brasília, deixando riscos ambientais a nascentes e Cerrado nativo sem proteção.

A governadora Celina Leão assinou um decreto criando o Parque da Serrinha do Paranoá na terça-feira, 7 de abril, uma unidade de conservação de 65,9 hectares destinada a proteger nascentes, vegetação nativa do Cerrado e permitir pesquisa científica e turismo ecológico. Mas a assinatura deixou intacta uma questão ambiental muito maior que continua sem resposta: a Gleba A, uma área de 716 hectares que o governo anterior comprometeu como garantia para um empréstimo destinado a salvar o Banco de Brasília de uma crise de liquidez.

A distinção entre os dois territórios é crucial. O novo parque, embora proteja trechos importantes de Cerrado e inclua a cachoeira do córrego Urubu, não se sobrepõe à Gleba A. Segundo Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha, a governadora criou uma unidade de conservação, mas não a que havia prometido. A Gleba A permanece vulnerável à transformação em área residencial — exatamente o destino que o governo anterior lhe reservou para levantar recursos e capitalizar o banco estatal.

O Banco de Brasília enfrenta uma crise profunda. Em 2024 e 2025, a instituição sofreu prejuízos bilionários ao comprar carteiras de crédito e ativos de baixa liquidez negociados pelo Banco Master. A Polícia Federal investiga suspeitas de fraude envolvendo aproximadamente 12,2 bilhões de reais em créditos. Para tentar se recuperar, o ex-governador Ibaneis Rocha decidiu oferecer terras públicas como garantia de empréstimos — incluindo a Gleba A, decisão aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.

O problema ambiental é tanto hidrológico quanto ecológico. A Serrinha do Paranoá, localizada entre as regiões administrativas do Varjão e do Paranoá, abriga 119 minas d'água que alimentam o Lago Paranoá, manancial estratégico de onde é captada parte significativa da água fornecida à população do Distrito Federal. Se a Gleba A for impermeabilizada pela construção de conjuntos habitacionais, a recarga dos aquíferos será comprometida. Mendes explicou que a região funciona como um sistema integrado subterrâneo — danificar uma área afeta toda a base de armazenamento de água no subsolo.

A Justiça Federal já se movimentou. Em março, um tribunal proibiu o governo do Distrito Federal de vender a área ambiental como medida de socorro ao banco, apontando risco de subavaliação. Mas o desembargador Roberval Belinati, primeiro vice-presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, derrubou a liminar. Pelo menos duas ações diretas de inconstitucionalidade e uma ação civil pública continuam questionando a alienação da gleba para fins imobiliários.

O Conselho Deliberativo da Área de Preservação Ambiental do Planalto Central publicou uma moção técnica na semana passada pedindo a criação de um Parque Nacional que protegesse a totalidade da Gleba A. O documento cita a Lei de Zoneamento Econômico Ecológico do Distrito Federal, que enquadra a Serrinha do Paranoá em múltiplos riscos: perda de solo por erosão, perda de Cerrado nativo, perda de vegetação remanescente, perda de recarga de aquíferos e risco de contaminação das águas subterrâneas. O Plano Diretor de Ordenamento Territorial também classifica a região como Área Prioritária para Promoção da Resiliência Hídrica.

A criação do parque de 65,9 hectares foi anunciada após semanas de críticas de ambientalistas, acadêmicos, entidades civis e moradores. Mas para os defensores da Serrinha do Paranoá, a medida é insuficiente. A Gleba A, muito maior e estrategicamente vital para o abastecimento de água do Distrito Federal, continua à disposição do banco. A Agência Brasil procurou a Secretaria de Comunicação do governo para esclarecer se a Gleba A permanece entre os imóveis dados em garantia para capitalização do BRB, mas ainda aguarda resposta.

O novo parque corresponde a 65,9 hectares e não se sobrepõe à Gleba A, dada em garantia ao BRB. A governadora não criou o Parque da Serrinha que ela disse que iria criar.
— Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha
Se você impermeabiliza determinadas áreas com construção de conjunto habitacional, vai matar a base de recarga da água dos aquíferos armazenada no subsolo.
— Lúcia Mendes, diretora da Associação Preserva Serrinha
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o novo parque não inclui a Gleba A se ambos estão na mesma região?

Model

São áreas diferentes, geograficamente próximas mas legalmente separadas. O parque protege 65,9 hectares de Cerrado e nascentes. A Gleba A, com 716 hectares, foi comprometida como garantia de empréstimo antes dessa decisão. Uma coisa não anula a outra.

Inventor

E se o governo simplesmente desistir de usar a Gleba A como garantia?

Model

Tecnicamente poderia fazer isso. Mas o banco está em crise — precisa de recursos. A Câmara Legislativa já aprovou o uso da terra. Três ações judiciais questionam a venda, e a Justiça está dividida.

Inventor

Qual é o risco real se a Gleba A virar um bairro?

Model

A região funciona como um sistema de recarga de aquíferos. Impermeabilizar o solo com construções mata a capacidade de infiltração de água. As 119 minas d'água que alimentam o Lago Paranoá — de onde vem água para toda a população — dependem dessa recarga. Sem ela, o abastecimento fica comprometido.

Inventor

Então o parque que foi criado é apenas um gesto?

Model

Protege áreas importantes de Cerrado e a cachoeira do córrego Urubu. Mas não resolve o problema central. A Gleba A continua vulnerável. O parque é real, mas incompleto.

Inventor

O que acontece agora?

Model

Depende da Justiça. Três ações ainda estão em andamento. O desembargador derrubou a proibição de venda, mas o Conselho de Preservação Ambiental pediu um Parque Nacional que protegesse tudo. É uma disputa entre a necessidade financeira do banco e a sustentabilidade hídrica do Distrito Federal.

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