Paraná já supera média histórica de dengue em 2020, meses após pior epidemia

Três óbitos por dengue já foram confirmados no período de agosto a outubro de 2020 no Paraná.
O novo vírus encontra uma população mais suscetível
A mudança do sorotipo predominante em 2020 aumenta o risco de epidemias sucessivas nos próximos anos.
Mark

Por que o Paraná está vendo esses números crescentes agora, logo após sua pior epidemia?

Mimi

A mudança do sorotipo predominante é a chave. Em 2019, um tipo de vírus circulava. Agora é outro. As pessoas que tiveram dengue antes não têm imunidade contra este novo sorotipo, então o vírus encontra um terreno fértil.

Mark

E a pandemia piorou as coisas?

Mimi

Muito. O distanciamento social interrompeu o monitoramento regular do mosquito. Os agentes de saúde não podiam sair para fazer o levantamento de focos. Ao mesmo tempo, a estiagem extrema criou mais lugares onde as pessoas armazenam água — potenciais criadouros.

Mark

Os pesquisadores parecem céticos sobre os métodos tradicionais.

Mimi

Com razão. O fumacê e o levantamento rápido de larvas são práticas antigas que custam muito, exigem muito trabalho, mas não previnem epidemias de verdade. O mosquito desenvolve resistência aos inseticidas, e como ele prefere ficar dentro das casas, o fumacê acaba sendo ineficaz.

Mark

Então qual seria a solução?

Mimi

Monitoramento mais inteligente e mais cedo. Ovitrampas para capturar ovos, bioinseticidas que não deixam resíduos tóxicos, até imagens de satélite para identificar áreas de infestação. Mas tudo isso depende da vontade política de mudar.

Mark

E a população? Pode fazer algo?

Mimi

Pode fazer tudo. Mas não apenas quando há epidemia. Tem que ser rotina o ano inteiro — eliminar água parada, verificar objetos que acumulam água, manter a vigilância constante. Sem isso, nenhuma tecnologia resolve.

  • 3.803 casos prováveis de dengue entre agosto e outubro de 2020, superando os 3.474 do mesmo período em 2019
  • Sorotipo 2 presente em 79,7% das amostras analisadas em 2020
  • Três óbitos confirmados no período de agosto a outubro de 2020
  • 277 municípios com notificações de dengue, contra 234 no ano anterior
  • São Tomé lidera com incidência de 193,22 casos por 100 mil habitantes

O estado registrou 3.803 casos prováveis de dengue entre agosto e outubro de 2020, superando os 3.474 do mesmo período em 2019, com três óbitos confirmados. A mudança do sorotipo predominante do vírus (sorotipo 2 em 79,7% das amostras) aumenta o risco de epidemias sucessivas, pois a população ainda não possui imunidade ao novo tipo.

Paraná já ultrapassa a média histórica de casos de dengue em 2020, com 3.803 casos prováveis entre agosto e outubro, superando o mesmo período de 2019 e gerando preocupação com possível nova epidemia.

No Paraná, o ciclo de dengue recomeçava em agosto de 2020 com um aviso claro: o estado já estava a caminho de superar seus próprios recordes de contágio. Entre agosto e meados de outubro, os boletins da Secretaria de Estado da Saúde registravam 3.803 casos prováveis — confirmados e sob investigação somados — um número que já ultrapassava os 3.474 notificados no mesmo período do ano anterior. Três pessoas haviam morrido. No mesmo intervalo de 2019, não havia nenhuma morte registrada.

O contexto tornava o dado ainda mais preocupante. Apenas um ano antes, entre 2019 e 2020, o Paraná havia enfrentado sua pior epidemia de dengue em toda a história: 227.724 casos positivos e 177 óbitos. Agora, com o novo ano epidemiológico ainda em seus primeiros meses — o calendário da dengue no estado começa em julho ou agosto para evitar contar o pico do verão — os números já sinalizavam que outra onda poderia estar se formando. O monitoramento mostrava também que 277 municípios haviam notificado casos, contra 234 no ano anterior, e 126 cidades tinham confirmações, comparado a 109 antes.

A razão da preocupação residia em um detalhe virológico específico. O vírus da dengue possui quatro sorotipos distintos, e em 2020 o sorotipo 2 dominava os exames laboratoriais, presente em 79,7% das amostras analisadas. Para Ivana Belmonte, coordenadora de Vigilância Ambiental da Sesa, essa mudança era o gatilho para um cenário perigoso: quando um novo sorotipo se torna predominante, a população ainda não possui imunidade contra ele, tornando-se mais suscetível à infecção. Isso abria a porta para epidemias sucessivas que poderiam se estender por quatro ou cinco anos seguidos.

Mas havia outro fator complicador. A pandemia de Covid-19 havia interrompido o LirAa — o Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti — um estudo realizado a cada três meses pelos municípios para identificar, por amostragem, onde estavam os focos do mosquito transmissor e que tipos de criadouros eram mais comuns. O Ministério da Saúde havia suspendido a prática em todo o país. Simultaneamente, o distanciamento social afetava diretamente as ações de controle do Aedes aegypti, o mosquito que carrega o vírus. A Sesa sugeriu aos municípios que retomassem o LirAa em novembro, desde que houvesse segurança contra a Covid-19 para os agentes de saúde.

Cidades como Foz do Iguaçu, Cascavel, Londrina e Maringá intensificavam suas operações contra o mosquito, mas os números mais alarmantes vinham de pequenos municípios com menos de dez mil habitantes. São Tomé liderava com incidência de 193,22 casos por 100 mil habitantes, seguido por Porto Rico com 156,19 e Pérola d'Oeste com 124,86. O Ministério da Saúde classifica como epidemia qualquer incidência acima de 300 casos por 100 mil habitantes — um patamar que alguns lugares já se aproximavam perigosamente.

Os pesquisadores, porém, questionavam se os métodos tradicionais de controle eram sequer eficazes. O fumacê e o LirAa eram práticas difundidas há décadas, mas desaconselhadas por especialistas. Os inseticidas deixavam resíduos tóxicos no ambiente, e o mosquito desenvolvia resistência, forçando a adoção de substâncias cada vez mais nocivas. João Zequi, biólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina, argumentava que o monitoramento deveria ocorrer em fase inicial, antes que mosquitos adultos carregassem o vírus. Ele sugeria as ovitrampas — armadilhas de captura que poderiam complementar o LirAa — e alertava que inseticidas deveriam ser usados com cautela, basicamente quando o controle da situação já havia sido perdido. Além disso, como o Aedes prefere ficar dentro dos imóveis, o fumacê era menos eficaz: os moradores fechavam portas e janelas.

Camila Lorenz, doutora em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP, apontava para uma realidade mais ampla: o Paraná enfrentava a pior estiagem dos últimos 50 anos, e o rodízio no abastecimento de água em várias cidades criava novos criadouros potenciais — objetos usados para armazenar água. Lorenz defendia o uso de imagens de satélite para monitorar áreas de grande infestação e criticava a repetição de metodologias antigas que geravam muito custo e trabalho, mas cujo efeito real para prevenir epidemias era pequeno. Seus estudos mostravam que o LirAa, ao medir apenas focos de larvas por amostragem, não necessariamente previa a ocorrência de epidemias: muitos focos não completavam o ciclo, e os índices do levantamento nem sempre se correlacionavam diretamente com o número de casos de dengue. Para ela, a ferramenta mais importante era a população, atuando não apenas no verão ou em períodos de epidemia, mas o ano inteiro, transformando o controle do mosquito em uma rotina permanente.

A alteração do sorotipo predominante faz com que o novo tipo de vírus encontre uma população mais suscetível, porque as pessoas ainda não possuem imunidade a ele
— Ivana Belmonte, coordenadora de Vigilância Ambiental da Sesa
O mais adequado é fazer o monitoramento em fase inicial, para não ter mosquitos adultos carregando o vírus
— João Zequi, biólogo e professor da UEL
Contact Us FAQ