Paolla Oliveira relata receber diariamente vídeos falsos sexuais com seu rosto, expondo a escala da violência digital contra mulheres e meninas. SaferNet identificou 222 meninas vítimas de deepfakes sexuais em escolas brasileiras em seis meses, incluindo casos de chantagem e trauma psicológico.
Paolla Oliveira expõe deepfakes sexuais e violência contra mulheres na internet
Eu não fiz nada de errado
Por que a Paolla Oliveira decidiu expor isso agora, publicamente?
Porque a escala é insuportável. Não é um vídeo ocasional. São 198 anúncios diferentes em um período de monitoramento. É um mercado funcionando à luz do dia.
E as plataformas não conseguem parar isso?
Elas dizem que têm políticas. Mas enquanto falam, os anúncios continuam sendo distribuídos. A Meta lucra com a distribuição. O Telegram diz que colabora com a polícia, mas o dano já foi feito.
O que mais choca é que isso está acontecendo nas escolas, certo?
Exatamente. Não é só crime organizado. É um colega de classe criando deepfakes de oito meninas. É conteúdo tirado de contas privadas. É proximidade e confiança sendo violadas.
Como uma vítima como Débora consegue se recuperar disso?
Com dificuldade. Ela precisou de coragem para denunciar, de apoio da família para não desistir. E mesmo assim, o trauma fica. A vergonha é real, mesmo quando você sabe que não fez nada de errado.
Qual é o próximo passo? Isso vai mudar?
Depende de pressão. Investigações como essa, vítimas falando, pesquisadores rastreando o mercado. Mas enquanto a tecnologia for fácil e o lucro for rápido, vai continuar acontecendo.
El Pulso
- 198 anúncios diferentes de deepfakes de Paolla Oliveira circulando em plataformas da Meta
- 222 meninas vítimas de deepfakes sexuais em escolas brasileiras em seis meses
- 65 casos só em São Paulo; 8 adolescentes vítimas em uma única escola
Paolla Oliveira relata receber diariamente vídeos falsos sexuais com seu rosto, expondo a escala da violência digital contra mulheres e meninas. SaferNet identificou 222 meninas vítimas de deepfakes sexuais em escolas brasileiras em seis meses, incluindo casos de chantagem e trauma psicológico.
Atriz Paolla Oliveira denuncia rotina de deepfakes sexuais criados com sua imagem e conversa com vítimas sobre a criação e venda dessas imagens manipuladas por IA no ambiente digital.
Paolla Oliveira abre a porta para uma realidade que a maioria das pessoas nunca vê: a chuva diária de vídeos pornográficos falsos feitos com seu rosto. Não é uma ocorrência ocasional. É rotina. A atriz conversou com o Fantástico sobre a escala dessa violência e ouviu histórias de outras mulheres e meninas que vivem sob o mesmo assédio digital.
"Quando começou essa coisa de inteligência artificial, você não sabia muito pra onde ia", relata Paolla. "Aí comecei a ver que não tem mais parada. Eu tive situações muito expostas, vexatórias mesmo, de cunho sexual." Ela não está sozinha. Pesquisadores do laboratório NetLab, da UFRJ, rastrearam 198 anúncios diferentes circulando em plataformas da Meta — Facebook, Instagram, WhatsApp e Threads — todos oferecendo deepfakes sexuais da atriz. Praticamente todos os dias novos anúncios apareciam. A maioria levava usuários para o Telegram, onde robôs fingiam conversar com Paolla para vender conteúdo pornográfico manipulado. Segundo Marie Santini, diretora do laboratório, 191 desses anúncios funcionavam exatamente assim: criadores de conteúdo lucram com a venda, e a Meta também ganha dinheiro ao distribuir os anúncios.
Mas a história não é apenas sobre celebridades. Uma mulher chamada Débora foi vítima de chantagem. Seus fotos foram manipuladas com inteligência artificial, seus rostos colados em corpos de outras mulheres, e o resultado foi postado em um site de conteúdo adulto. "Fui chantageada, mas denunciei", conta ela. "Porém, fiquei traumatizada e com medo. Usaram minhas fotos, manipularam com inteligência artificial, colocaram partes íntimas de outra mulher." Débora reuniu provas — nomes de sites, perfis, capturas de tela — e procurou a polícia. Durante o processo, ela se questionou se tinha culpa. "Eu postei uma foto de biquíni, não deveria ter feito isso?", pensou. Depois compreendeu a verdade: "Gente, eu não fiz nada de errado." O apoio da família foi o que a manteve de pé.
O problema chegou às escolas. A SaferNet, organização que monitora violência na internet, identificou 222 meninas vítimas de deepfakes sexuais em escolas brasileiras em apenas seis meses. Só em São Paulo foram 65 casos. Em uma escola do estado, oito adolescentes tiveram seus rostos colados em imagens pornográficas por um colega de classe. "A gente já tinha essa percepção de ser alguém da escola e próximo, porque todas as fotos que pegaram eram de contas privadas", conta uma das estudantes. As alunas acionaram a coordenação da escola e os pais, que levaram os casos para a polícia com dados do Telegram, o aplicativo onde as imagens foram compartilhadas. O delegado Cristiano, responsável pela investigação, explica: "No mundo digital, tudo é rastreável. Na nossa investigação, o adolescente respondeu por um ato infracional que entrou na medida socioeducativa."
Para quem é vítima, o delegado orienta: registre boletim de ocorrência em qualquer delegacia. Se for menor de idade, procure também os pais e a direção da escola. Mariana Valente, diretora do InternetLab, avisa que os casos conhecidos são apenas a ponta do iceberg. "As adolescentes às vezes têm vergonha de contar para os pais." Ela explica que deepfake é conteúdo gerado por ferramentas de inteligência artificial para reproduzir a imagem de uma pessoa. "A grandíssima maioria das imagens e vídeos que a gente chama de deepfakes são deepfakes sexuais de mulheres."
A Meta respondeu em nota que suas políticas proíbem conteúdos e anúncios que facilitem fraudes ou promovam material sexualmente explícito, e que remove essas publicações quando detectadas. O Telegram informou que proíbe conteúdo íntimo não consensual, incluindo deepfakes, e colabora com investigações policiais fornecendo números de telefone e endereços IP de criminosos. Mas enquanto as plataformas falam em políticas, mulheres e meninas continuam tendo seus rostos roubados e seus corpos refeitos digitalmente para lucro de criminosos. A violência é silenciosa, é rápida, e é estruturada como um negócio.
Citas Notables
Quando começou essa coisa de inteligência artificial, você não sabia muito pra onde ia. Aí comecei a ver que não tem mais parada. Eu tive situações muito expostas, vexatórias mesmo, de cunho sexual.— Paolla Oliveira, atriz
A grandíssima maioria das imagens e vídeos que a gente chama de deepfakes são deepfakes sexuais de mulheres.— Mariana Valente, diretora do InternetLab