Durante onze anos, o sistema judicial brasileiro buscou uma resposta definitiva para a morte de Sophia, uma menina de 4 anos encontrada asfixiada em um apartamento em São Paulo em 2015. Na terceira vez em que um júri popular analisou o caso, Ricardo Krause, pai da criança, foi condenado a mais de 24 anos de prisão por homicídio doloso — uma sentença que atravessou anulações, recursos ao STJ e ao STF antes de se firmar. O veredicto nos lembra que a busca por justiça, quando envolve a morte de uma criança e a palavra de um pai, raramente é simples ou rápida.
Pai condenado a mais de 24 anos por matar filha de 4 anos asfixiada em SP
Lesões incompatíveis com acidente; ação humana dolosa
Por que um caso de morte de criança levou onze anos para chegar a uma condenação final?
Porque o sistema de júri popular funciona com questões muito específicas que os jurados precisam responder, e pequenas contradições nessas respostas podem invalidar todo um julgamento. Aconteceu duas vezes aqui.
E por que os jurados mudaram tanto suas decisões entre um julgamento e outro?
No primeiro, condenaram por homicídio doloso. No segundo, desclassificaram para culposo. Provavelmente porque a defesa conseguiu semear dúvida sobre a intenção. Uma sacola plástica é ambígua — pode ser brincadeira ou crime.
Mas o laudo necroscópico não era claro?
Era. Mostrava lesões que não combinavam com acidente. Mas o júri não é obrigado a seguir a perícia. É por isso que o Ministério Público insistiu em novo julgamento.
Qual era o argumento da defesa?
Que a criança estava brincando com a sacola e se asfixiou acidentalmente enquanto o pai tomava banho. Simples e impossível de refutar completamente, porque ninguém mais estava lá.
E agora? Ele vai recorrer novamente?
Pode tentar, mas o STJ já rejeitou uma vez. A condenação agora é sólida. Ele cumpre mais de 24 anos.
O Pulso
- Uma criança de 4 anos foi encontrada morta com uma sacola plástica sobre a cabeça, e o laudo do IML revelou lesões no corpo incompatíveis com qualquer acidente doméstico.
- A versão do pai — de que estava no banho quando a filha morreu — nunca convenceu os peritos, mas convenceu jurados o suficiente para gerar um segundo veredicto de homicídio culposo em 2023, quase absolvendo Krause por prescrição.
- O Ministério Público recorreu da decisão de 2023, argumentando que ela contrariava frontalmente as evidências técnicas, e o Tribunal de Justiça paulista determinou um terceiro julgamento.
- Após três júris, duas anulações e recursos que chegaram ao STJ e ao STF, a terceira condenação restaurou a pena original: 24 anos, 10 meses e 20 dias de prisão por homicídio doloso.
- O caso se encerra com Ricardo Krause preso por mais de duas décadas — e com a lembrança de que onze anos foram necessários para que o sistema consolidasse uma resposta à morte de Sophia.
Durante onze anos, o sistema judicial brasileiro buscou uma resposta definitiva para a morte de Sophia, uma menina de 4 anos encontrada asfixiada em um apartamento em São Paulo em 2015. Na terceira vez em que um júri popular analisou o caso, Ricardo Krause, pai da criança, foi condenado a mais de 24 anos de prisão por homicídio doloso — uma sentença que atravessou anulações, recursos ao STJ e ao STF antes de se firmar. O veredicto nos lembra que a busca por justiça, quando envolve a morte de uma criança e a palavra de um pai, raramente é simples ou rápida.
Na sexta-feira 14 de agosto, um conselho de sentença em São Paulo pôs fim a onze anos de disputa judicial. Ricardo Krause foi condenado a 24 anos, 10 meses e 20 dias de prisão pela morte da filha Sophia, de 4 anos, asfixiada em dezembro de 2015 no Jabaquara, Zona Sul da cidade. Era a terceira vez que um júri popular analisava o caso.
Sophia foi encontrada com uma sacola plástica sobre a cabeça, sem respirar. Os exames do IML revelaram manchas roxas pelo corpo, o tímpano rompido e uma lesão interna na boca. Peritos não encontraram sinais de invasão ao apartamento. Ricardo Krause disse que estava tomando banho e encontrou a filha já sem vida; sua defesa sustentou a tese de acidente doméstico.
O caminho até a condenação foi tortuoso. Em 2018, Krause foi condenado pela primeira vez, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou o julgamento em 2020 por contradições nas respostas dos jurados. No segundo julgamento, em 2023, os jurados desclassificaram o crime para homicídio culposo e a punibilidade foi extinta por prescrição — decisão que o Ministério Público contestou com êxito, argumentando que o laudo necroscópico indicava ação humana dolosa.
O Tribunal de Justiça paulista acolheu o recurso e ordenou um novo julgamento. A defesa tentou barrar o processo no STJ, sem sucesso. O terceiro júri restaurou a condenação original. Ricardo Krause, preso no velório da filha e solto em diferentes momentos por decisões do STF e por excesso de prazo, permanecerá agora na prisão por mais de duas décadas.
Na sexta-feira 14 de agosto, um conselho de sentença em São Paulo encerrou uma disputa judicial que se estendeu por onze anos. Ricardo Krause Esteves Najjar, cozinheiro, foi condenado a 24 anos, 10 meses e 20 dias de prisão pela morte de sua filha Sophia Kissajikian Cancio Najjar, de apenas 4 anos, que morreu asfixiada em dezembro de 2015 na Zona Sul da cidade. A sentença chegou após três dias de julgamento e representava a terceira vez que um júri popular analisava o caso.
O crime ocorreu no Jabaquara, em um apartamento no primeiro andar de um prédio. Sophia foi encontrada com uma sacola plástica sobre a cabeça, sem respirar. Peritos e investigadores vasculharam o local duas vezes e não encontraram sinais de que houvesse outra pessoa presente além da menina e do pai. Não havia marcas de arrombamento. Os exames do Instituto Médico Legal revelaram manchas roxas pelo corpo da criança, o tímpano rompido e uma lesão na parte interna da boca. Ricardo Krause manteve sua versão: estava tomando banho e, ao sair, encontrou a filha já sem vida. Sua defesa argumentou que tudo havia sido um acidente doméstico, sugerindo que a criança estava brincando com a sacola.
O caminho até esta condenação foi marcado por reviravoltas processuais. Em 2018, Krause foi condenado pela primeira vez a 24 anos e 10 meses de prisão por homicídio doloso duplamente qualificado, além de fraude processual por ter supostamente alterado a cena do crime. Porém, em 2020, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou aquele julgamento. Os desembargadores identificaram contradições nas respostas que os jurados haviam dado aos quesitos apresentados, particularmente sobre a qualificadora do crime envolvendo execução cruel por asfixia. Um dos jurados, segundo a defesa, havia mudado de opinião durante o julgamento. Os magistrados ordenaram a liberdade provisória de Krause, considerando que ele já havia aguardado preso pelo tempo necessário.
No segundo julgamento, realizado em 2023, o resultado foi radicalmente diferente. Os jurados desclassificaram o crime para homicídio culposo, aquele cometido sem intenção de matar. A pena foi reduzida para um ano, seis meses e 20 dias de prisão, mas a punibilidade foi extinta por prescrição. O Ministério Público, porém, não aceitou a decisão. Os promotores argumentavam que ela contradecia as provas técnicas do processo, especialmente o laudo necroscópico. Segundo eles, o exame apontava lesões incompatíveis com a versão de acidente doméstico e indicava ação humana dolosa. A promotora de Justiça Luciana André Jordão recorreu da decisão.
O Tribunal de Justiça paulista acolheu o recurso e determinou um novo julgamento. A defesa tentou reverter essa decisão no Superior Tribunal de Justiça, mas não obteve sucesso. Krause foi então submetido novamente ao Tribunal do Júri, desta vez com resultado que restaurou a condenação original. O histórico processual do caso inclui também uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Em dezembro de 2016, o ministro Marco Aurélio havia mandado soltar Krause, considerando haver excesso de prazo na prisão temporária que havia sido decretada antes da condenação.
Ricardo Krause foi preso no velório de Sophia e permaneceu detido por um ano antes de ser solto por excesso de tempo de prisão temporária. Voltou a ser preso em março de 2017. Agora, com a condenação confirmada, ele permanecerá na prisão por mais de duas décadas. A reportagem não conseguiu contato com sua defesa para comentar a sentença. O caso, que começou com a morte de uma criança em um apartamento no Jabaquara, encerra-se com uma condenação que o sistema judicial levou onze anos para consolidar.
Citações Notáveis
O exame apontava lesões incompatíveis com a versão de acidente doméstico e indicava ação humana dolosa— Ministério Público de São Paulo, em recurso contra a desclassificação