Reajuste do Bolsa Família e proibição das bets geram pressão de R$ 7,3 bilhões no Orçamento de 2026, ampliando déficit primário e dívida pública. Para 2027, impacto total das medidas chega a R$ 33 bilhões, incluindo despesas permanentes e perda de arrecadação que reduzem espaço fiscal do governo.
Pacote de medidas de Lula às vésperas da eleição custará R$ 33 bilhões em 2027
Despesas permanentes e difíceis de reverter
Como o governo justifica essas medidas se elas têm impacto tão grande no orçamento?
A equipe econômica diz que encontrou espaço fiscal para o Bolsa Família e que usa receita extraordinária do conflito no Oriente Médio para financiar o subsídio ao diesel. Mas o timing — tudo anunciado uma semana antes da eleição — levanta questões.
Espera. A receita extraordinária do petróleo é real ou é uma forma de contabilizar despesas que seriam permanentes como se fossem temporárias?
É real, segundo o governo. Mas o ponto é que essas despesas podem se tornar permanentes politicamente, mesmo que tecnicamente sejam financiadas de forma diferente.
E quanto ao Desenrola? Isso é realmente um programa de crédito ou é subsídio disfarçado?
A Warren Rena caracteriza como operação financeira, não primária. Mas há impacto sobre a dívida pública. E há incógnita: bancos vão aceitar deságio de 90%?
Exatamente. O programa assume até R$ 150 bilhões em dívidas, mas só R$ 5 bilhões saem do orçamento de 2027. O resto fica para depois.
Então R$ 33 bilhões em 2027 é só o começo?
Depende de como você conta. Se incluir o custo potencial de subsídios para clubes de futebol, pode ser mais. Se contar só o que é formalizado, pode ser menos. Mas a tendência é clara.
E há risco institucional. Se cada campanha traz medidas maiores que a anterior, em algum momento o orçamento não aguenta mais.
Alguém está tentando parar isso na Justiça?
Sim, mas os ministros do STF já validaram o Bolsa Família. As bets têm ações contra, mas ainda não há decisão. Juridicamente, está aberto.
El Pulso
- Reajuste do Bolsa Família em 15,04% custa R$ 5,8 bilhões em 2026
- Proibição das bets elimina R$ 1,5 bilhão em arrecadação em 2026 e R$ 5,3 bilhões em 2027
- Impacto total das medidas chega a R$ 33 bilhões em 2027
- Subsídio ao diesel de R$ 2,12 por litro estendido até 26 de outubro
- Desenrola 3.0 destina R$ 5 bilhões em 2027 para aquisição de créditos com deságio
Reajuste do Bolsa Família e proibição das bets geram pressão de R$ 7,3 bilhões no Orçamento de 2026, ampliando déficit primário e dívida pública. Para 2027, impacto total das medidas chega a R$ 33 bilhões, incluindo despesas permanentes e perda de arrecadação que reduzem espaço fiscal do governo.
Às vésperas da eleição, governo Lula anuncia medidas com impacto fiscal de R$ 7,3 bilhões em 2026 e R$ 33 bilhões em 2027, incluindo reajuste do Bolsa Família, fim das bets e Desenrola 3.0.
A uma semana do primeiro turno das eleições de outubro, o governo Lula anunciou uma sequência de medidas que pressionam o orçamento público de forma imediata e duradoura. Em pouco mais de sete dias, a administração reajustou o Bolsa Família em 15,04%, prorrogou o subsídio ao diesel por mais 30 dias, lançou uma nova fase do programa Desenrola e proibiu as apostas esportivas online, eliminando uma fonte significativa de arrecadação federal. Também sinalizou a intenção de incorporar medicamentos injetáveis para obesidade ao Sistema Único de Saúde. O timing das ações — todas concentradas no mês final antes do pleito — levanta questões inevitáveis sobre motivação eleitoral, ainda que a equipe econômica sustente que as decisões seguem critérios técnicos e oportunidades de espaço fiscal.
O impacto imediato é mensurável. Considerando apenas o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets, o governo enfrenta pressão de R$ 7,3 bilhões no orçamento de 2026. O aumento da parcela do programa de transferência de renda custa R$ 5,8 bilhões em despesa adicional, enquanto a extinção das apostas online representa R$ 1,5 bilhão em receitas que deixarão de ser arrecadadas. Esses números não incluem o custo da oferta gratuita de medicamentos para emagrecimento, cujo impacto fiscal ainda está em estudo, nem a prorrogação do subsídio ao diesel, que o governo financia com receita extraordinária gerada pelos efeitos do conflito no Oriente Médio e pela alta do petróleo. A subvenção de R$ 2,12 por litro foi estendida até 26 de outubro, dia seguinte ao segundo turno eleitoral.
Para 2027, quando terá início o próximo mandato presidencial, a pressão adicional das medidas anunciadas nas últimas semanas chega a aproximadamente R$ 33 bilhões. Cada ação tem natureza orçamentária distinta: o reajuste do Bolsa Família cria uma despesa permanente e estrutural, enquanto a extinção das apostas online gera perda de receita recorrente. O que as medidas compartilham é o fato de serem anunciadas durante campanha eleitoral e de reduzirem o espaço disponível para o governo administrar o orçamento nos próximos anos. A equipe econômica afirma que a meta fiscal de 2026 será cumprida por meio de remanejamento de outras despesas, após revisão para baixo de R$ 11,5 bilhões na projeção dos gastos previdenciários. Para compensar a frustração de arrecadação com as bets, pode ser necessário ampliar o congelamento de recursos.
O programa Desenrola 3.0 representa outra camada de pressão orçamentária. A União adquirirá créditos com forte deságio junto a bancos, assumindo carteiras de até R$ 150 bilhões em dívidas, mas poderá recuperar parte dos recursos. A medida provisória que cria o programa estabelece limite máximo de R$ 15 bilhões para despesas decorrentes da aquisição das dívidas. Para 2027, serão destinados R$ 5 bilhões em recursos orçamentários, segundo o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti. O restante poderá ser utilizado posteriormente, até 30 de junho de 2028, dependendo da execução do programa. Analistas apontam incógnita sobre possível resistência das pessoas jurídicas ao deságio mínimo de 90%.
A proibição das bets cria ainda uma segunda frente de pressão fiscal. As atividades de jogos e apostas haviam proporcionado cerca de R$ 9,9 bilhões em arrecadação federal entre janeiro e agosto de 2026, segundo dados da Receita Federal. A equipe econômica reconhece que será necessário alterar o projeto de orçamento de 2027 para compensar a perda de arrecadação estimada em R$ 5,3 bilhões com a proibição das plataformas. Diante do impacto sobre o patrocínio de clubes de futebol, o governo avalia criar uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões para as agremiações, permitindo a troca de dívidas mais caras por financiamentos de prazo mais longo. O desenho ainda não foi formalizado, mas dependendo das condições de financiamento, pode haver custo fiscal adicional relacionado a subsídios de juros, garantias ou eventuais perdas.
Analistas alertam para riscos institucionais de longo prazo. Luan Sperandio, diretor de operações do Ranking dos Políticos, explica que a adoção de medidas de apelo popular que priorizam cálculo eleitoral em detrimento de critérios técnicos impõe riscos imediatos e duradouros. O impacto fiscal é direto, mas há também comprometimento da eficiência nas políticas públicas. Essas ações costumam ter custos subestimados, implementação mais cara e resultados aquém do prometido. Além disso, podem criar despesas permanentes e difíceis de reverter. No longo prazo, há risco institucional: se prevalece a sensação de que vale tudo para ganhar eleição, a cada dois anos tende-se a ver ações piores do que as anteriores, numa espécie de leilão de promessas cada vez maiores.
Algumas das medidas enfrentam questionamentos jurídicos. O reajuste do Bolsa Família é contestado pelo candidato à presidência Renan Santos, que acionou o Tribunal Superior Eleitoral para suspendê-lo. A ação foi distribuída ao ministro André Mendonça, mas até o momento não houve decisão de mérito nem suspensão do aumento. Paralelamente, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, reconheceu a validade do decreto a pedido da Advocacia-Geral da União. A medida provisória que extingue as bets é alvo de ação da Associação Nacional de Jogos e Loterias e do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que argumentam que a proibição foi publicada sem justificativa aceitável que demonstre real urgência, além de criar insegurança jurídica pela interrupção abrupta do setor.
Citas Notables
São políticas sem análise de viabilidade, costumam ter custos subestimados, implementação mais cara e resultados aquém do prometido— Luan Sperandio, diretor de operações do Ranking dos Políticos
Se prevalece a sensação de que vale tudo para ganhar eleição, então a cada dois anos tendemos a ver ações piores do que as anteriores, numa espécie de leilão de promessas cada vez maiores— Luan Sperandio