Entre fumantes e médicos, circula há meses uma pergunta que a ciência ainda não respondeu: se a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, pode ajudar alguém a deixar o cigarro. A cautela de um artigo publicado em outubro na Biological Psychiatry lembra que a hipótese nasceu de estudos sobre outros vícios, sobretudo o alcoolismo, e que a relação de causa e efeito ainda não foi estabelecida. Num tempo em que a busca por alívio do desejo se mistura à esperança de saúde, o remédio aparece como promessa em observação, à espera de testes que dirão se ele merece lugar entre as ferramentas contra o tab
Ozempic pode ajudar a parar de fumar? O que os testes clínicos mostram até agora
Medo de engordar afasta muita gente de largar o cigarro
Por que se pensou em usar a semaglutida contra o cigarro?
Porque estudos anteriores olharam o efeito dela em outros vícios, principalmente o álcool. A partir daí, pesquisadores passaram a investigar o tabaco.
E o que ela faria no cérebro?
Cientistas acreditam que interage com neurônios do córtex insular, ligado ao anseio e à abstinência. Meirelles cita também a possível redução da dopamina liberada pela nicotina.
Vale marcar que isso é mecanismo provável, não comprovado. O próprio artigo diz que não dá para afirmar causa e efeito.
Então o que existe de concreto?
Sete testes clínicos em andamento nos EUA, Canadá e China. E relatos de que alguns pacientes pararam de fumar.
Mas Meirelles mesmo diz que é preciso avaliar o porquê. Relato de pacientes não é resultado de ensaio concluído.
E o peso entra onde?
Entre 80% e 90% de quem para de fumar engorda, e o medo disso afasta algumas pessoas da tentativa.
Petlik é claro: remédios de apetite poderiam ajudar em situações específicas, mas isso não justifica uso rotineiro. E não sabemos ainda quais resultados virão nem a que custo seriam acessíveis.
Il Polso
- Fumantes e médicos acompanham com expectativa a hipótese de que a semaglutida reduza a vontade de fumar, mas nada ainda está comprovado.
- Sete testes clínicos em andamento nos Estados Unidos, no Canadá e na China tentam separar o sinal promissor da coincidência.
- Cientistas suspeitam que o remédio freie a liberação de dopamina provocada pela nicotina, o que tornaria o cigarro menos atraente.
- O preço elevado do Ozempic e do Wegovy pesa sobre qualquer plano de uso amplo, e o temor de engordar continua afastando fumantes da cessação.
- Enquanto os resultados não chegam, o caminho segue com adesivos, goma de mascar e bupropiona, opções ainda escassas para quem quer parar.
Entre fumantes e médicos, circula há meses uma pergunta que a ciência ainda não respondeu: se a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, pode ajudar alguém a deixar o cigarro. A cautela de um artigo publicado em outubro na Biological Psychiatry lembra que a hipótese nasceu de estudos sobre outros vícios, sobretudo o alcoolismo, e que a relação de causa e efeito ainda não foi estabelecida. Num tempo em que a busca por alívio do desejo se mistura à esperança de saúde, o remédio aparece como promessa em observação, à espera de testes que dirão se ele merece lugar entre as ferramentas contra o tabagismo.
A pergunta vem circulando há meses entre fumantes e médicos: o princípio ativo do Ozempic pode ajudar alguém a largar o cigarro? Em outubro, um artigo da revista Biological Psychiatry chegou a uma conclusão cautelosa. Ainda não é possível afirmar que o remédio torne a cessação mais fácil ou reduza as recaídas. A relação de causa e efeito simplesmente não foi estabelecida.
A hipótese nasceu de pesquisas sobre outros vícios, especialmente o alcoolismo. Cientistas acreditam que a semaglutida atua em áreas do cérebro ligadas ao anseio e ao controle da abstinência. Ricardo Meirelles, da Associação Médica Brasileira, descreve um possível mecanismo: a nicotina libera muita dopamina, e a semaglutida pareceria reduzir essa liberação, diminuindo a vontade de fumar. Sete testes clínicos em curso nos Estados Unidos, Canadá e China buscam confirmar isso. Em alguns estudos, pacientes pararam de fumar, mas ainda é preciso entender por quê.
O interesse também tem razões práticas. Ozempic e Wegovy são caros e pouco acessíveis, e o arsenal contra o tabagismo é limitado. Há ainda o receio de engordar, já que a maioria de quem para de fumar ganha peso. Daniel Petlik, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, lembra que parar de fumar reduz muito o risco cardiovascular, mas que o ganho de gordura abdominal traz outros riscos. Ele considera que remédios para o apetite poderiam ajudar em casos específicos, sem justificar uso rotineiro. Os resultados dos testes dirão se a semaglutida terá espaço no tratamento, e o custo continuará sendo parte decisiva dessa conta.
A pergunta circula há meses entre fumantes e médicos: o princípio ativo do Ozempic, a semaglutida, pode ajudar alguém a largar o cigarro? Em outubro, um artigo publicado na revista Biological Psychiatry tratou do tema e chegou a uma conclusão cautelosa. No momento, não é possível afirmar que quem usa a caneta tem mais facilidade para parar de fumar, ou menos recaídas, por causa do remédio. A relação de causa e efeito não está estabelecida.
A hipótese nasce de pesquisas feitas há alguns anos sobre o efeito do medicamento em outros vícios, em especial o alcoolismo. Cientistas acreditam que a semaglutida interage com neurônios do córtex insular, região do cérebro ligada à sensação de anseio e ao controle da abstinência.
Ricardo Meirelles, coordenador da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira (AMB), descreve outro mecanismo possível. A nicotina provoca uma liberação muito importante de dopamina no sistema nervoso. Segundo ele, parece que a semaglutida reduz essa liberação, e a pessoa passaria a sentir menos vontade de fumar.
Há trabalho em andamento para checar isso. O mesmo artigo aponta sete testes clínicos em curso nos Estados Unidos, no Canadá e na China. Meirelles lembra que, em alguns estudos, pacientes pararam de fumar. Ainda é preciso entender por quê, diz ele, mas considera o sinal promissor.
O interesse tem um pano de fundo prático. O Ozempic, indicado para diabetes, e o Wegovy, para obesidade, são tratamentos caros e longe de acessíveis. Ainda assim, Meirelles vê motivo de ânimo, porque o rol de medicamentos para tabagismo é escasso. No Brasil, quem quer largar o cigarro tem à disposição o adesivo transdérmico e a goma de mascar, formas mais seguras de reposição de nicotina, além da bupropiona, que atua em receptores de dopamina. Nos Estados Unidos, a citisiniclina, um fitoterápico ainda em processo de aprovação, pode se somar a essas opções.
Há ainda a questão do peso. Segundo o relatório da Biological Psychiatry, de 80% a 90% das pessoas que param de fumar engordam. A nicotina eleva a taxa metabólica basal e o gasto de energia, o que contribui para menor peso corporal entre fumantes.
Parar de fumar tira de cena um fator de risco importante para doenças cardiovasculares. Daniel Petlik, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), cita o estudo internacional Interheart, que identificou risco cerca de três vezes maior de infarto entre fumantes ativos, em comparação a quem nunca fumou. Por outro lado, o aumento da gordura, sobretudo na barriga, cria outro problema. Em excesso, a gordura visceral favorece inflamação crônica de baixo grau, resistência à insulina, alterações de colesterol e triglicérides, hipertensão e disfunção vascular.
Petlik observa que muitas pessoas hesitam em abandonar o cigarro por medo de engordar. Remédios que atuam no controle do apetite poderiam, em situações específicas, ajudar nesse ponto, mas ele ressalva que isso ainda não justifica o uso rotineiro para essa finalidade. Os resultados dos sete testes clínicos dirão se a semaglutida terá lugar no tratamento do tabagismo, e o custo elevado continuará pesando nessa conta.
Citazioni salienti
Há trabalhos em que alguns pacientes pararam de fumar. Tem que avaliar o porquê disso, mas é uma coisa promissora.— Ricardo Meirelles, Comissão de Combate ao Tabagismo da AMB
Medicamentos que atuam sobre o apetite poderiam, em situações específicas, ajudar, mas isso ainda não justifica seu uso rotineiro para essa finalidade.— Daniel Petlik, Sociedade Brasileira de Cardiologia (paráfrase)