Em meio ao avanço dos medicamentos que imitam hormônios intestinais para controlar o açúcar no sangue e o peso, uma pesquisa da Universidade da Pensilvânia trouxe uma pergunta que ultrapassa a clínica: poderiam esses remédios também afastar o câncer de mama? Ao examinar os prontuários de mais de 111 mil mulheres com obesidade ou diabetes tipo 2, os cientistas observaram menos diagnósticos entre as que usaram esses tratamentos, um achado apresentado no encontro da ASCO em 2025. Trata-se, porém, de uma associação e não de uma prova, e a ciência ainda caminha para separar o que é efeito do remédi
Ozempic e câncer de mama: estudo com 111 mil mulheres sugere menor risco, mas sem prova de causa
Um forte indicativo de associação, mas não prova de causa
O que exatamente o estudo encontrou?
Que mulheres com obesidade ou diabetes tipo 2 que receberam prescrição de GLP-1 tiveram risco 30,5% menor de câncer de mama na análise principal, em comparação com um grupo de controle pareado.
E isso significa que o Ozempic previne o câncer?
Não, e a reportagem é explícita. É um estudo observacional: mostra associação, não causa. Fatores de estilo de vida não medidos podem ter pesado.
Há mais de um número, certo?
Sim. Na análise secundária, considerando só a prescrição inicial, a queda foi de 13,7%. Bem menor.
Esse é o ponto que o título "até 30%" esconde um pouco. A estimativa varia conforme o método, então 30% é o teto, não o resultado único.
Por que esses remédios poderiam proteger?
Os cientistas apontam a perda de peso e a menor inflamação sistêmica como prováveis papéis centrais.
Mas é hipótese. O texto diz que o mecanismo não está totalmente claro, e não informa quanto de cada fator contribui.
O que vem agora?
Ensaios clínicos randomizados em andamento, que devem testar a relação causal.
Il Polso
- Mais de 111 mil prontuários sugerem que o Ozempic e medicamentos semelhantes podem estar ligados a menos casos de câncer de mama.
- A redução de até 30,5% na análise principal contrasta com a queda de 13,7% observada quando se considera apenas a primeira prescrição, gerando dúvidas sobre a dimensão real do efeito.
- Como o estudo é observacional, fatores de estilo de vida não medidos podem ter influenciado os resultados, e a causalidade segue sem confirmação.
- Ensaios clínicos randomizados já em andamento buscam testar se o remédio realmente protege e como isso acontece, enquanto o uso com finalidade preventiva ainda não é recomendado.
Em meio ao avanço dos medicamentos que imitam hormônios intestinais para controlar o açúcar no sangue e o peso, uma pesquisa da Universidade da Pensilvânia trouxe uma pergunta que ultrapassa a clínica: poderiam esses remédios também afastar o câncer de mama? Ao examinar os prontuários de mais de 111 mil mulheres com obesidade ou diabetes tipo 2, os cientistas observaram menos diagnósticos entre as que usaram esses tratamentos, um achado apresentado no encontro da ASCO em 2025. Trata-se, porém, de uma associação e não de uma prova, e a ciência ainda caminha para separar o que é efeito do remédio do que é reflexo de outros hábitos de vida.
Foram 111.646 prontuários eletrônicos de mulheres com obesidade ou diabetes tipo 2 que deram origem a um dos resultados mais comentados da oncologia recente. Quem recebeu prescrições de medicamentos como o Ozempic apresentou menos diagnósticos de câncer de mama do que quem não os usou. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia e apresentado na reunião anual da ASCO, cobre o período de janeiro de 2022 a junho de 2025.
Se a análise principal, que pareou pacientes com perfis semelhantes, indicou uma redução de 30,5% no risco, uma análise secundária, considerando apenas a primeira prescrição, mostrou queda de 13,7%. A diferença mostra que o tamanho do efeito depende do método, e a manchete de "até 30%" reflete apenas o número mais alto.
A pesquisa é observacional, então não estabelece causa e efeito. Os cientistas suspeitam que a perda de peso e a redução da inflamação sistêmica tenham papel central, mas o mecanismo ainda não está esclarecido. Os próprios autores reconhecem que hábitos não medidos podem ter influenciado o resultado. Até que ensaios clínicos randomizados confirmem ou não a relação, o dado é um sinal promissor para a pesquisa em prevenção, e não uma indicação de uso com esse objetivo.
Foram 111.646 prontuários eletrônicos de mulheres com obesidade ou diabetes tipo 2 que serviram de base para um dos resultados mais comentados da oncologia recente: quem recebeu prescrição de medicamentos como o Ozempic apresentou menos diagnósticos de câncer de mama do que quem não recebeu.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e apresentado em junho de 2025 na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, a ASCO. A pesquisa também foi publicada no periódico JCO Oncology Practice. Os dados cobrem o período de janeiro de 2022 a junho de 2025.
O desenho é observacional. Os cientistas não separaram as mulheres em grupos para testar o remédio; eles examinaram registros de saúde e compararam quem recebeu prescrição de agonistas do receptor de GLP-1 com um grupo de controle, formado por mulheres que não usaram a medicação. Na análise principal, que pareou pacientes com características semelhantes, a redução do risco foi de 30,5%.
Há, porém, um segundo número, mais modesto. Em uma análise secundária, que considerou apenas a prescrição inicial, a queda foi de 13,7%. A diferença entre as duas estimativas indica que o tamanho do efeito depende do método usado para medi-lo. A reportagem fala em redução de "até 30%", e esse teto vem da análise principal.
Os agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic) e a liraglutida (Saxenda), imitam um hormônio intestinal que regula o açúcar no sangue e promove saciedade. O mecanismo exato da possível proteção contra o câncer de mama não está totalmente esclarecido. Os cientistas acreditam que a perda de peso e a redução da inflamação sistêmica, efeitos conhecidos desses remédios, tenham papel central.
Os próprios limites do estudo são claros. Por ser observacional, ele não estabelece uma relação definitiva de causa e efeito. Fatores de estilo de vida que não foram medidos podem ter influenciado os resultados. A pesquisa é descrita como um forte indicativo de associação, não como prova de que o medicamento previne a doença.
O passo seguinte já está em curso: ensaios clínicos randomizados, o formato capaz de testar causalidade, avaliam a relação e tentam entender melhor os mecanismos. Até que seus resultados saiam, o dado deve ser lido como um sinal promissor para pesquisas em prevenção, e não como indicação de uso desses medicamentos com essa finalidade.
Citazioni salienti
Por ser observacional, o estudo não estabelece relação definitiva de causa e efeito; ensaios randomizados estão em andamento.— Correio Braziliense, resumindo as limitações da pesquisa