No cruzamento entre a tragédia natural e a complexidade política venezuelana, o ouro guardado no Banco da Inglaterra emerge como símbolo de uma tentativa de reconciliar urgência humanitária com desconfiança histórica. A promessa de transferir esses recursos para o Tesouro americano, destinando-os à reconstrução após o terremoto de junho, representa um raro momento em que adversários políticos buscam um terreno comum — não por convicção, mas pela pressão do sofrimento humano. O rigor da auditoria internacional proposta é, ao mesmo tempo, condição técnica e gesto de boa-fé num contexto onde a bo
Ouro da Venezuela em Londres irá para contas do Tesouro dos EUA para reconstrução
O ouro seja bem utilizado e auditado por empresas internacionais
Por que o ouro da Venezuela estava em Londres e não no país?
É uma história longa de desconfiança. Governos anteriores movimentaram ouro para o exterior por razões de segurança e acesso a mercados internacionais. Ficou lá, e depois virou moeda de negociação política.
E agora, por que os EUA? Por que não devolver direto para a Venezuela?
Porque ninguém confia em ninguém. Os EUA oferecem a garantia de que o dinheiro não desaparece em contas privadas ou é desviado. É um terceiro neutro — teoricamente.
Mas isso não é uma perda de soberania?
Tecnicamente, sim. Mas quando seu país está rachado por um terremoto e as pessoas precisam de casa e médico, soberania abstrata pesa menos que teto concreto.
E se o dinheiro não chegar onde precisa?
Por isso as auditorias internacionais. Não é perfeito, mas é mais do que havia antes. Alguém de fora está olhando.
Isso resolve o problema político de fundo?
Não. Resolve a emergência. O problema político — quem governa, como funciona a justiça — continua sendo negociado em paralelo. São duas batalhas ao mesmo tempo.
Le Pouls
- O terremoto de 24 de junho deixou comunidades venezuelanas sem moradia, saúde e escolas — e a pressão por respostas concretas tornou inevitável a negociação sobre recursos bloqueados há anos.
- O ouro venezuelano no Banco da Inglaterra, há muito paralisado por disputas políticas, agora é mobilizado como instrumento de reconstrução, com destino ao Tesouro dos EUA e uso restrito a três áreas específicas.
- A desconfiança mútua entre a AN 2015 e o chavismo exigiu a criação de mecanismos rígidos de controle — empresas internacionais de auditoria acompanharão cada gasto para evitar desvios.
- Negociadores insistem que a liberação do ouro não está atrelada à reforma do Tribunal Supremo, tentando isolar o alívio humanitário das disputas políticas estruturais que correm em paralelo.
- Após cinco sessões técnicas e cinco plenárias conjuntas, o processo tem metodologia aprovada — mas as comunidades afetadas ainda aguardam que os compromissos se convertam em obras reais.
No cruzamento entre a tragédia natural e a complexidade política venezuelana, o ouro guardado no Banco da Inglaterra emerge como símbolo de uma tentativa de reconciliar urgência humanitária com desconfiança histórica. A promessa de transferir esses recursos para o Tesouro americano, destinando-os à reconstrução após o terremoto de junho, representa um raro momento em que adversários políticos buscam um terreno comum — não por convicção, mas pela pressão do sofrimento humano. O rigor da auditoria internacional proposta é, ao mesmo tempo, condição técnica e gesto de boa-fé num contexto onde a boa-fé raramente é gratuita.
O deputado Ramón López, da Assembleia Nacional venezuelana eleita em 2015, anunciou que o ouro do país custodiado no Banco da Inglaterra será transferido para contas do Tesouro americano e destinado exclusivamente à reconstrução das áreas atingidas pelo terremoto de 24 de junho. A declaração, dada em entrevista à Venevisión e confirmada pelo jornal El Nacional, detalha um plano com controles rígidos sobre o uso de cada recurso.
O mecanismo é claro: os recursos só serão liberados mediante plano detalhado e fiscalização contínua. O dinheiro se destina a três frentes nas regiões afetadas — construção de moradias, ampliação de centros de saúde e reforma de escolas. Empresas internacionais de auditoria acompanharão os gastos permanentemente, e López sublinhou que a prioridade é garantir que o ouro seja bem utilizado e rastreável em cada etapa.
O deputado negou qualquer vínculo entre a liberação do ouro e uma eventual reforma do Tribunal Supremo de Justiça, tema que também circula nas negociações. Segundo ele, os instrumentos criados impedem desvios sem configurar cogoverno ou divisão de poder — a intenção é aliviar o sofrimento da população sem alterar a estrutura política.
O acordo entre as delegações da AN 2015 e do chavismo se apoia em três pilares: recuperação dos ativos para atender as vítimas, transparência total e auditoria contínua. As negociações correm em duas mesas paralelas — uma focada na emergência do terremoto, outra no fortalecimento da democracia, com ênfase no Judiciário e no sistema eleitoral. Após cinco sessões técnicas e cinco plenárias conjuntas, a metodologia para os próximos passos foi aprovada. O desafio agora é transformar compromissos em ação concreta, enquanto as comunidades afetadas aguardam habitação, atendimento médico e escolas funcionando.
Um deputado da Assembleia Nacional venezuelana anunciou que o ouro do país guardado no Banco da Inglaterra será transferido para contas do Tesouro americano, destinado à reconstrução após o terremoto devastador de 24 de junho. Ramón López, membro da AN eleita em 2015, fez a declaração em entrevista à Venevisión, confirmada pelo jornal El Nacional, detalhando um plano que promete controle rigoroso sobre como cada dólar será gasto.
O mecanismo previsto é direto: os recursos só serão liberados mediante um plano detalhado e sistemas de fiscalização. O dinheiro irá para três áreas específicas nas regiões afetadas pelo terremoto — construção de moradias, ampliação de centros de saúde e reforma de escolas. Empresas internacionais de auditoria acompanharão continuamente os gastos, garantindo que nenhum recurso se desvie do propósito declarado. López enfatizou que a prioridade é assegurar que "o ouro seja bem utilizado e auditado por empresas internacionais", com monitoramento permanente.
O deputado negou que a liberação do ouro esteja vinculada a uma reforma do Tribunal Supremo de Justiça, tema que também aparece nas negociações entre a AN 2015 e o governo. Segundo ele, foram criados instrumentos específicos "para que nada se desvie do propósito do gasto" durante a reconstrução, sem que isso configure uma divisão de poder ou cogoverno. A ênfase é aliviar o sofrimento da população sem comprometer a estrutura política.
O acordo entre os negociadores da AN 2015 e representantes do chavismo estabelece três pilares: recuperação dos ativos vinculados ao ouro para atender as vítimas dos terremotos, transparência total sobre o uso dos recursos e auditoria contínua. Em comunicado conjunto divulgado na quarta-feira, as delegações informaram que as negociações ocorrem em duas frentes paralelas. A primeira mesa técnica focou especificamente na resposta à emergência do 24 de junho, enquanto a segunda abordou "fortalecimento da democracia", com ênfase particular no Poder Judiciário e no Poder Eleitoral.
O primeiro ciclo de negociações já completou cinco sessões de trabalho nas mesas técnicas e cinco plenárias conjuntas, com aprovação da metodologia que guiará os próximos passos. O processo sinaliza um esforço para separar a questão humanitária imediata — a reconstrução — de questões políticas estruturais de longo prazo, ainda que ambas avancem simultaneamente. O desafio agora é transformar esses compromissos em ação no terreno, onde as comunidades afetadas aguardam habitação, atendimento médico e escolas funcionando.
Citations marquantes
O ouro seja bem utilizado e auditado por empresas internacionais, com acompanhamento permanente dos gastos.— Ramón López, deputado da Assembleia Nacional
Foram desenhados instrumentos para que nada se desvie do propósito do gasto durante a reconstrução.— Ramón López