Na América do Sul, dois presidentes eleitos pela força dos algoritmos e da performance digital enfrentam agora o peso irredutível da realidade: um terremoto que matou quase trezentas pessoas na Colômbia e um colapso de confiança econômica na Argentina. O que se revela, nesses momentos de crise, é a distância abissal entre governar uma tela e governar um país — entre o meme que conquista votos e a liderança que salva vidas e sustenta economias.
Os riscos de eleger um meme como presidente
A realidade é sempre mais bruta do que promete o algoritmo
Por que você acha que esses líderes conseguem chegar ao poder se sua abordagem é tão claramente inadequada para governar?
Porque nas redes sociais, a realidade não importa. Um meme é mais eficaz que uma política pública. As pessoas votam no personagem, não na competência. E o algoritmo recompensa quem é mais provocador, mais performático.
Mas no momento em que há uma crise real — um terremoto, um colapso econômico — isso muda?
Sim. É quando a ilusão se quebra. Você não pode arremessar bolas de futebol para alguém que perdeu a casa. Você não pode fazer um vídeo viral que resolva a falta de crédito internacional. A realidade não tem algoritmo.
E por que esses presidentes continuam tentando? Por que não mudam de abordagem quando veem que não funciona?
Porque é tudo o que sabem fazer. Foram eleitos por isso. Mudar significaria admitir que o modelo não funciona, e isso é politicamente impossível para alguém cuja identidade é construída sobre aquele modelo.
Há algo de mais sinistro aqui, não é? A menção a Trump, aos recursos minerais...
Sim. Esses líderes não são apenas incompetentes. Alguns funcionam como facilitadores. Enquanto distraem a população com performances, outros atores — mais poderosos, mais organizados — extraem o que querem. É distração em escala continental.
E o povo percebe isso?
Eventualmente. Mas geralmente quando já é tarde demais.
El Pulso
- Um terremoto de magnitude 7,4 destruiu cidades colombianas e matou quase 300 pessoas, mas o presidente chegou às zonas devastadas para distribuir bolas de futebol com o logotipo de seu partido.
- A recusa em aceitar ajuda humanitária de países ideologicamente inconvenientes custou horas preciosas enquanto a janela para resgatar sobreviventes se fechava.
- Na Argentina, o risco-país voltou a superar 500 pontos, expondo a fragilidade de um governo que cultiva alianças simbólicas com Trump e Netanyahu enquanto reservas internacionais minguam.
- Nos dois países, a população que votou em personagens de redes sociais começa a perceber que elegeu entretenimento — e não liderança capaz de enfrentar crises concretas.
- Por trás desse padrão regional, analistas apontam um cenário em que a distração política facilita a extração de recursos minerais e enfraquece a soberania dos países sul-americanos.
Na América do Sul, dois presidentes eleitos pela força dos algoritmos e da performance digital enfrentam agora o peso irredutível da realidade: um terremoto que matou quase trezentas pessoas na Colômbia e um colapso de confiança econômica na Argentina. O que se revela, nesses momentos de crise, é a distância abissal entre governar uma tela e governar um país — entre o meme que conquista votos e a liderança que salva vidas e sustenta economias.
Quando um terremoto de magnitude 7,4 devastou a Colômbia, matando quase trezentas pessoas e reduzindo cidades a escombros, o presidente Abelardo de la Espriella viajou até as regiões mais atingidas com sua marca registrada — barba feita, paletó azul, boné branco. Ao chegar, abriu a porta do carro e arremessou bolas de futebol estampadas com o logotipo de seu partido para as famílias que haviam perdido tudo. Era, aparentemente, a resposta do governo à tragédia.
O gesto não foi isolado. Espriella também rejeitou ofertas de ajuda humanitária de países que não se alinham com sua agenda ideológica, como o México, preferindo aguardar equipes de nações aliadas sem capacidade técnica para a operação — enquanto o tempo para salvar sobreviventes escorria. O que esses momentos revelam é a incapacidade de governar com as mesmas ferramentas que constroem campanhas: memes e posts não constroem casas nem salvam vidas.
A Argentina vive seu próprio colapso, de natureza diferente. O presidente dedica energia considerável a reverenciar figuras como Trump e Netanyahu e a fazer cosplay de cantor em eventos públicos, enquanto o risco-país calculado pelo JPMorgan voltou a ultrapassar 500 pontos. As causas são estruturais — reservas internacionais críticas, restrições ao fluxo de capital, histórico de inadimplência — e fecham as portas do crédito internacional a qualquer custo viável.
O que se desenha na América do Sul é um continente governado por figuras que funcionam como entretenimento e distração. E enquanto a população assiste ao espetáculo, recursos minerais e riquezas regionais permanecem vulneráveis a interesses externos que encontram nesses líderes aliados convenientes — e baratos. É como condenar um continente a viver de bolas que entretêm enquanto tudo o mais desmorona.
Quando um terremoto de magnitude 7,4 devastou a Colômbia há poucos dias, matando quase trezentas pessoas e deixando cidades inteiras em ruínas, o presidente Abelardo de la Espriella viu uma oportunidade. Ele viajou para Buenaventura e Chocó, os municípios mais atingidos pelo abalo sísmico, vestindo sua marca registrada — barba feita, paletó azul, boné branco — e ao chegar aos locais onde famílias haviam perdido tudo, abriu a porta do carro e arremessou bolas de futebol para as vítimas. As bolas traziam as cores e o logotipo de seu partido. Era, aparentemente, tudo o que os desabrigados precisavam.
Este gesto resume um padrão que vem se repetindo no governo de Espriella desde sua posse: a incapacidade de lidar com a realidade usando as ferramentas que o levaram ao poder. Na campanha, nas redes sociais, nos algoritmos que amplificam mensagens sensacionalistas e performáticas, ele era imbatível. Mas quando a tragédia bate à porta, quando pessoas morrem e cidades desabam, memes e posts não constroem casas nem salvam vidas. O presidente também foi criticado por rejeitar ofertas de ajuda humanitária de países que não se alinham com sua agenda ideológica, como o México, enquanto aguardava equipes de resgate de nações amigas que não tinham capacidade técnica para a operação — tudo isso enquanto a janela para salvar sobreviventes se fechava.
O que acontece nestes momentos é revelador. A população, que votou em um personagem, em uma figura que funcionava bem nas telas dos celulares, descobre que elegeu um meme e não um líder. E a realidade, como sempre, é muito mais bruta do que promete qualquer algoritmo.
A Argentina vive seu próprio desastre, embora de natureza diferente. Seu presidente passa mais tempo reverenciando ídolos como Donald Trump e Benjamin Netanyahu do que governando. Nas horas vagas, pega o microfone para fazer cosplay de cantor de churrascaria, brincando de comediante de stand-up B. Enquanto isso, o risco-país calculado pelo JPMorgan voltou a ultrapassar a marca de quinhentos pontos — um golpe devastador para um governante que prometia restaurar a confiança internacional e sanear as finanças do país, ainda que às custas dos trabalhadores. As razões são estruturais: o nível crítico das reservas internacionais, as restrições aos fluxos de capital, o histórico de inadimplência argentina. Tudo isso fecha as portas do crédito internacional em condições viáveis.
O que se vê hoje na América do Sul é um continente dominado por figuras deste tipo — líderes que funcionam como entretenimento, como distração. E por trás deles, olhando para a região como quem observa uma joia da coroa, está Donald Trump, buscando aliados que mantenham a população entretida enquanto recursos minerais e riquezas são extraídos sem disparar um tiro. É como condenar um continente inteiro a viver de bolas que entretêm enquanto tudo o mais desmorona.
Citas Notables
É nesta hora que a população percebe que elegeu um meme, e não um líder— Análise editorial sobre o momento em que crises reais expõem a inadequação de líderes populistas