Orminda Guimarães Marques: 30 anos de dedicação à genética na USP

Orminda sofreu com demência progressiva nos últimos anos de vida, perdendo gradualmente mobilidade e conexão com o mundo ao seu redor antes de falecer em 25 de setembro.
O capricho de fazer tudo bem-feito a acompanharia por toda a vida
Orminda levava a mesma dedicação do trabalho científico para cada aspecto de sua vida, inclusive os chocolates artesanais que produzia na aposentadoria.
Mark

Por que uma pesquisadora que trabalhou com moscas-da-fruta merece um obituário tão cuidadoso? O que torna seu trabalho importante o suficiente para ser lembrado?

Mimi

Porque ela não era apenas uma técnica de laboratório. Seu trabalho meticuloso ajudou a colocar a genética brasileira no mapa internacional durante as décadas de 1970 e 1980. Sem pessoas como Orminda — com aquele olho extraordinário para detalhe — os cientistas como Crodowaldo Pavan não teriam conseguido fazer o que fizeram.

Luke

Mas precisamos ser claros: o trabalho dela foi publicado nos estudos de Pavan. Ela recebeu apoio da Fundação Rockefeller. Esses são fatos verificáveis. O que não sabemos é exatamente qual foi sua contribuição específica em cada pesquisa, ou quantas descobertas dependeram diretamente de sua observação.

Mark

Então ela era invisível? Uma mão anônima no laboratório?

Mimi

Não invisível. Mas sim, frequentemente não creditada da forma que merecia. Havia um capricho em tudo que fazia — no trabalho científico, depois nos chocolates artesanais. Era a mesma pessoa, o mesmo padrão de excelência.

Luke

A fonte aqui é principalmente a família, certo? O obituário vem de uma perspectiva pessoal, não de colegas científicos ou documentação de arquivo. Isso não invalida a história, mas é importante saber de onde vem.

Mark

E a demência que a acometeu nos últimos anos — como isso mudou a forma como ela era vista?

Mimi

Lentamente a retirou daquilo que havia sido seu talento. Perdeu mobilidade, se desligou do mundo. Mas a família nunca a deixou sozinha. Isso também é parte da história.

Luke

O que sabemos com certeza é que ela faleceu em 25 de setembro, que trabalhou mais de 30 anos na USP, que seu nome apareceu em publicações de Pavan, e que recebeu apoio da Fundação Rockefeller. Tudo o mais — o brilho extraordinário, a dedicação — é verdadeiro, mas vem da memória e do amor de quem a conhecia.

Mark

Então por que contar essa história agora?

Mimi

Porque há pessoas cujo trabalho não é visível, mas é essencial. E porque há uma forma de viver — com capricho, com cuidado, com excelência — que merece ser lembrada.

  • Uma pesquisadora essencial para a genética brasileira morreu em 25 de setembro, deixando um vazio que só quem conhecia seu trabalho minucioso consegue dimensionar.
  • Orminda classificava moscas de poucos milímetros com uma precisão tão rara que seu nome aparece nos estudos de Crodowaldo Pavan, financiados pela Fundação Rockefeller e reconhecidos internacionalmente.
  • Nos últimos anos, a demência progressiva foi lhe retirando a mobilidade e a conexão com o mundo — justamente dela, que havia dedicado a vida a enxergar o que os outros não viam.
  • A família a cercou até o fim, e na aposentadoria ela havia transformado o mesmo capricho científico em chocolates artesanais que alimentavam alegria e renda.
  • O que fica não é apenas uma trajetória científica, mas a imagem de uma mulher do interior do Ceará que chegou à vanguarda da ciência brasileira sem jamais perder o cuidado com o que fazia.

Em 25 de setembro, morreu Orminda Guimarães Marques, pesquisadora que passou mais de três décadas no Instituto de Biociências da USP observando moscas-da-fruta com uma precisão que poucos conseguem nomear, mas que todos os avanços da genética brasileira nas décadas de 1970 e 1980 carregam como herança silenciosa. Filha de uma costureira cearense viúva, ela percorreu um caminho improvável até o coração da ciência internacional, guiada por um único princípio que nunca abandonou: o capricho de fazer tudo bem-feito. A demência que a levou nos últimos anos não apagou o que suas mãos construíram — apenas encerrou, com delicadeza, uma vida inteira dedicada ao detalhe invisível.

Orminda Guimarães Marques passava horas diante de microscópios observando drosófilas melanogaster — as moscas-da-fruta que pousam nas bananas maduras. Falava delas com admiração genuína, descrevendo olhinhos e asas como se fossem maravilhas do mundo. Não era sentimentalismo: era o olhar de quem aprendeu a ver o que os outros deixavam passar.

Nascida no interior do Ceará, filha de uma costureira viúva com cinco filhos, Orminda chegou a São Paulo com ajuda dos frades dominicanos e do irmão Irineu. Casou-se com Luiz, oficial do Exército, e construiu uma família marcada por contradições da época — no porão da casa, o estoque do jornal Brasil Urgente; nos armários, as fardas militares. O casal conviveu com esse contraste em paz.

No Instituto de Biociências da USP, ela encontrou seu verdadeiro trabalho. Por mais de trinta anos, separou e classificou centenas de moscas, distinguindo machos de fêmeas, observando asas, olhos e alterações quase imperceptíveis. As drosófilas são ferramentas preciosas para a genética por se reproduzirem rapidamente, mas o trabalho só funcionava com alguém de olho extraordinário para o detalhe. Orminda tinha esse dom. Seu trabalho foi publicado em estudos de Crodowaldo Pavan com apoio da Fundação Rockefeller, e a genética brasileira ganhou reconhecimento internacional nos anos 1970 e 1980 com ela no coração daquele progresso.

Na aposentadoria, as mesmas mãos que manipulavam criaturas de poucos milímetros passaram a produzir chocolates artesanais — com o mesmo capricho, o mesmo impulso de excelência. Não havia divisão entre a cientista e a artesã.

Uma demência progressiva foi lhe retirando, aos poucos, a mobilidade e a conexão com o mundo. Cercada pelos filhos, netos e família, foi fazendo sua despedida lentamente. Orminda faleceu em 25 de setembro, deixando como herança a perseverança, a fé e, sobretudo, o capricho que colocou em tudo que fez.

Orminda Guimarães Marques passava horas diante de microscópios, observando criaturas tão pequenas que a maioria das pessoas nunca as veria com clareza. Eram moscas-da-fruta, drosófilas melanogaster, aqueles insetos minúsculos que pousam nas bananas maduras. Ela falava delas com admiração genuína: "Olha aqui como esses olhinhos são lindos. E essas asas, essas manchinhas? Não é a coisa mais linda do mundo?" Não era sentimentalismo. Era o olhar de alguém que havia aprendido a ver o que outros deixavam passar despercebido.

Nascida no interior do Ceará, filha de uma costureira que ficou viúva aos 35 anos com cinco filhos pequenos, Orminda conheceu caminhos que sua mãe nunca poderia ter imaginado. Foi seu irmão, Irineu Guimarães, seminarista e depois jornalista, quem abriu a porta para São Paulo. Com ajuda dos frades dominicanos, a família se mudou para a capital. Ali ela conheceu Luiz, oficial do Exército, com quem teve dois filhos, dois netos e três netas. A casa onde viveram guardava contradições da época: no porão, o estoque do jornal Brasil Urgente; nos armários, as fardas do marido militar. O casal conviveu com esse contraste em paz.

Mas foi no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo que Orminda encontrou seu verdadeiro trabalho. Durante mais de trinta anos, ela separou e classificou centenas de moscas-da-fruta, distinguindo machos de fêmeas, observando asas, olhos, manchas, tamanhos e alterações quase imperceptíveis. As drosófilas são ferramentas preciosas para a genética porque se reproduzem rapidamente, gerando gerações que permitem aos cientistas rastrear padrões hereditários. Mas para que o trabalho funcionasse, era preciso de alguém com um olho extraordinário para detalhe. Orminda tinha esse dom.

Seu trabalho foi publicado em estudos do cientista Crodowaldo Pavan e recebeu apoio da Fundação Rockefeller. Nos anos 1970 e 1980, a genética brasileira ganhou reconhecimento internacional, e Orminda estava ali, no coração daquele progresso, com suas mãos capazes de manipular criaturas de poucos milímetros com precisão que passava despercebida para quem não sabia o que procurar. Ela tinha uma característica que a acompanharia por toda a vida: o capricho de fazer tudo bem-feito.

Essas mesmas mãos que trabalhavam sob as lentes do microscópio se tornaram famosas por outra razão. Na aposentadoria, produzia chocolates artesanais que se tornaram fonte de alegria para a família e depois de renda. O mesmo cuidado que dedicava às moscas, ela dedicava a cada detalhe daquele trabalho manual. Não havia divisão entre a cientista e a artesã. Era a mesma pessoa, movida pelo mesmo impulso de excelência.

Com o passar dos anos, uma demência progressiva começou a lhe retirar aquilo que havia sido seu talento ao longo de toda a vida. Pouco a pouco, perdeu mobilidade e se desligou do mundo à sua volta. Mas nunca esteve sozinha. Cercada pelo amor dos filhos, dos netos e da família, foi fazendo sua despedida lentamente. Orminda faleceu em 25 de setembro, deixando lições de perseverança, coragem e fé, e sobretudo aquele capricho que colocou em tudo que fez.

Na casa dos filhos e dos netos, as bananas ficam maduras de propósito agora. As mosquinhas voltam. Onde a vida termina, ela também se renova.

Olha aqui como esses olhinhos são lindos. E essas asas, essas manchinhas? Não é a coisa mais linda do mundo?
— Orminda Guimarães Marques, referindo-se às drosófilas que estudava
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