Nunca vou desistir, mas o partido ainda não está preparado
Em Budapeste, Viktor Orbán foi reeleito presidente do Fidesz com 729 dos 737 votos dos delegados do partido, dois meses após a derrota histórica que encerrou 16 anos consecutivos de governo. A votação esmagadora revela um partido que ainda se reconhece no seu líder, mesmo ferido — mas o poder real já não está nas suas mãos. Enquanto Orbán fala em renovação e aguarda o cansaço do eleitorado, o novo governo prepara legislação que pode fechar definitivamente a porta ao seu regresso.
- O Fidesz perdeu mais de metade dos seus assentos parlamentares em abril, numa inversão sem precedentes da política húngara que encerrou uma era de dominação de 16 anos.
- Orbán admitiu erros estratégicos perante os delegados, mas recusou qualquer ideia de abandono — 'nunca vou desistir', declarou, enquadrando a derrota como mudança de ciclo e não como fracasso pessoal.
- O Tisza de Péter Magyar avança com uma lei retroativa que limitaria mandatos de primeiros-ministros a dois períodos, bloqueando diretamente qualquer regresso de Orbán ao poder.
- Dentro do partido, o controlo de Orbán permanece quase total — mas esse controlo já não se traduz em influência governativa, deixando o Fidesz forte internamente e impotente politicamente.
Viktor Orbán foi reeleito presidente do Fidesz com uma margem que deixava pouco espaço para ambiguidade: 729 dos 737 delegados reunidos em Budapeste votaram para o manter no cargo, num congresso onde nenhum outro candidato se apresentou. Mas as fissuras eram visíveis — um partido consciente de estar ferido, a tentar encontrar o seu caminho depois da maior derrota da sua história.
Em abril, o Fidesz havia sofrido uma queda dramática: de 133 assentos parlamentares para apenas 52, enquanto o Tisza de Péter Magyar conquistava 141 e encerrava 16 anos consecutivos de governo de Orbán. Diante dos delegados, o líder de 63 anos admitiu responsabilidade pelos erros estratégicos, mas recusou desistir. Insistiu que o Fidesz precisava de se renovar e aguardar o momento em que o eleitorado se cansasse do novo governo.
Orbán fez questão de afirmar que a Hungria viveu '16 anos fantásticos' sob o seu governo, enquadrando a derrota como mudança de ciclo político e não como fracasso pessoal. Eleito para um mandato de um ano à frente do partido, via o Tisza como um governo temporário — e o Fidesz como a alternativa em preparação.
Mas o terreno político estava a mudar de formas que escapavam ao seu controlo. Dias antes do congresso, o Tisza apresentou um projeto de lei que limitaria os mandatos de primeiros-ministros a dois períodos de quatro anos, com caráter retroativo — uma medida que, na prática, fecharia definitivamente a porta ao regresso de Orbán ao cargo que ocupou durante cinco mandatos. Ao mesmo tempo, Orbán preparava-se para participar numa reunião dos Patriotas pela Europa, o grupo ultraconservador de eurodeputados que ele próprio havia fundado, reafirmando a sua narrativa de que a União Europeia representa 'o maior perigo para a soberania da Hungria'. Palavras familiares — mas pronunciadas agora por um homem em oposição, cujo regresso ao poder parecia cada vez mais improvável.
Viktor Orbán permanece à frente do Fidesz com uma margem que parecia deixar pouca margem para dúvida. Dos 737 delegados reunidos em Budapeste para o primeiro congresso do partido desde a derrota de abril, 729 votaram para mantê-lo na presidência. Nenhum outro candidato se apresentou. E ainda assim, havia fissuras visíveis na sala — vozes críticas ecoando entre os apoiantes, um partido que sabia estar ferido.
Dois meses antes, em abril, o Fidesz havia sofrido uma derrota histórica. Péter Magyar, líder do partido conservador Tisza, encerrou 16 anos consecutivos de governo de Orbán. A queda foi dramática nos números: o Fidesz caiu de 133 assentos parlamentares para apenas 52, enquanto o Tisza conquistou 141. Uma inversão completa da ordem política húngara.
Orbán, com 63 anos, não fingiu que a situação era outra coisa senão o que era. Diante dos delegados, admitiu responsabilidade pelos erros estratégicos que levaram à derrota. Mas recusou-se a desistir. "Nunca vou desistir", disse aos presentes. Reconheceu que o Fidesz não era, naquele momento, um partido bem-sucedido, mas insistiu que precisava de se recuperar e renovar nos meses seguintes. O tom era de quem ainda via um caminho adiante, mesmo que o presente fosse sombrio.
Na mesma ocasião, Orbán fez questão de afirmar que "a Hungria teve 16 anos fantásticos" sob o seu governo — uma tentativa de enquadrar a derrota não como fracasso pessoal, mas como mudança de ciclo político. Eleito para um mandato de um ano, deixou claro que via o Tisza como um governo temporário. O Fidesz, argumentou, precisava de estar preparado para quando "o povo se cansar" de Magyar e procurasse alternativas.
Mas a realidade política estava a mudar de formas que Orbán não podia controlar. Dias antes do congresso, o Tisza apresentou um projeto de lei no Parlamento que limitaria os mandatos dos primeiros-ministros a dois períodos de quatro anos cada. A medida era retroativa — significava que Orbán, que havia cumprido cinco mandatos entre 2010 e 2026, com quatro deles consecutivos, nunca mais poderia regressar ao cargo. Era uma porta fechada com chave.
Orbán lidera o Fidesz desde 1993, com uma breve interrupção entre 2000 e 2003. Durante esse tempo, moldou o partido à sua imagem e manteve controlo firme sobre a estrutura interna — como demonstrou a votação esmagadora no congresso. Mas o controlo dentro do partido já não se traduzia em poder político real. Enquanto isso, Orbán preparava-se para participar numa reunião do grupo ultraconservador de eurodeputados Patriotas pela Europa, que ele próprio havia fundado dois anos antes.
Numa declaração publicada durante o congresso, Orbán identificou um novo inimigo: a União Europeia, que descreveu como "o maior perigo para a soberania da Hungria". Era uma reafirmação dos temas que o mantiveram no poder durante 16 anos. Mas agora, essas palavras ecoavam de um homem que já não governava, que liderava um partido em oposição, e cujo regresso ao poder parecia cada vez mais improvável — não por falta de apoio dentro do Fidesz, mas porque as próprias regras do jogo político haviam sido reescritas contra ele.
Notable Quotes
Sou responsável pelos erros estratégicos e não qualquer outra pessoa— Viktor Orbán, ao congresso do Fidesz
A União Europeia representa atualmente o maior perigo para a soberania da Hungria— Viktor Orbán, em documento publicado no congresso
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que Orbán consegue manter este apoio quase unânime dentro do partido depois de uma derrota tão clara?
O Fidesz é uma estrutura que ele construiu e controlou durante três décadas. Os delegados que votam são, em grande medida, pessoas que devem as suas posições a ele. Mas há algo mais — é também uma questão de identidade. Para muitos no partido, Orbán é o Fidesz. Votar contra ele seria questionar tudo aquilo que o partido representa.
E as vozes críticas que se ouviram? Isso não sugere que algo está a mudar?
Sim, mas de forma limitada. Oito delegados votaram contra — um número pequeno, mas simbólico. Mostra que há desconforto, talvez dúvidas sobre a estratégia. Mas não é suficiente para desafiar a liderança. É mais um murmúrio do que uma revolta.
Orbán diz que o Fidesz precisa de se "renovar". O que significa isso, na prática?
É vago de propósito. Ele admite que o partido não está preparado para ser uma oposição eficaz, o que é uma confissão importante. Mas "renovação" pode significar qualquer coisa — desde mudanças de pessoal até reposicionamento ideológico. O que é claro é que ele quer tempo para reconstruir.
A lei sobre mandatos presidenciais muda tudo, não é?
Muda completamente o cálculo. Orbán pode controlar o Fidesz indefinidamente, mas nunca mais pode ser primeiro-ministro. É uma derrota política disfarçada de vitória interna. Ele sabe isto. Por isso o discurso sobre "estar preparado para quando o Governo falhar" soa mais como esperança do que como plano.
Qual é o próximo passo para o Fidesz?
Depende de como Magyar governa. Se o Tisza comete erros graves, há espaço para o Fidesz recuperar apoio. Mas sem Orbán como candidato presidencial viável, o partido terá de encontrar uma nova face. E isso é algo que ainda não aconteceu.