Operação Fluxo Oculto: fintechs usadas pelo PCC descobertas via sistema e-Financeira

A organização criminosa continuou agindo com o mesmo grau de sofisticação
Mesmo após a primeira fase da operação em agosto de 2025, o PCC mantinha suas atividades de lavagem de dinheiro e adulteração de combustíveis.
Mark

Por que exatamente as fintechs se tornaram tão atrativas para o PCC? Não havia alternativas mais tradicionais?

Mimi

As fintechs operavam numa zona cinzenta. Até 2025, elas não tinham a mesma obrigação de reportar que os bancos. Eram mais ágeis, menos burocráticas, e muitas vezes menos escrutinadas. Perfeito para quem precisa mover dinheiro rápido sem deixar rastro.

Mark

E como alguém descobre um esquema desses? Parece invisível.

Mimi

Não seria, se o governo não tivesse implementado o e-Financeira. Quando as fintechs começaram a enviar dados em meados de 2025, as inconsistências apareceram. Cinquenta e seis postos de combustível movimentando tudo por uma única conta? Isso não passa despercebido quando você está olhando.

Mark

Mas eles sabiam que estavam sendo monitorados, certo? Por que não pararam?

Mimi

Porque parar significa perder a fonte de renda. Então eles se adaptaram. Migraram para novas fintechs, substituíram as antigas. Mas cada mudança deixa um rastro. O crime organizado é como um organismo vivo — ele evolui, mas não desaparece.

Mark

Essa história do Pix, da "crise" — isso realmente atrasou a descoberta?

Mimi

Segundo o ministro, sim. Se a implementação do e-Financeira tivesse acontecido sem atrasos, talvez o esquema tivesse sido descoberto meses antes. Mas é difícil saber. O que sabemos é que quando o sistema finalmente funcionou, funcionou.

Mark

E agora? Isso resolve o problema?

Mimi

Resolve parte dele. Você cortou os fluxos, prendeu os operadores. Mas a organização continua existindo. Ela vai encontrar outro jeito, outra fintech, outro setor. A asfixia financeira é uma estratégia, não uma solução final.

  • Seis fintechs foram alvo da operação, com três delas movimentando cerca de R$ 8 bilhões entre janeiro e dezembro de 2025
  • Cinquenta e seis postos de combustíveis canalizavam operações através de uma única conta bancária
  • 59 mandados de busca e apreensão executados em cinco estados brasileiros
  • Sistema e-Financeira implementado em agosto de 2025 permitiu descoberta do esquema

Seis fintechs foram alvo da operação, com três delas tendo movimentado cerca de R$ 8 bilhões entre janeiro e dezembro de 2025. O PCC utilizava as fintechs para dissimular recursos criminosos provenientes de sonegação de impostos e adulteração de combustíveis em 56 postos.

Operação Fluxo Oculto desmantelou esquema de fintechs utilizadas pelo PCC para lavagem de dinheiro e adulteração de combustíveis. Descoberta foi possível graças ao sistema e-Financeira implementado em 2025.

Na manhã de quinta-feira, o ministro da Fazenda Dario Durigan anunciou os detalhes de uma operação que desmantelou um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro: seis fintechs operando como intermediárias financeiras para o Primeiro Comando da Capital. O que torna essa descoberta particularmente significativa é como ela veio à tona — não por acaso, mas através de um sistema de monitoramento que o próprio governo havia implementado meses antes, um sistema que enfrentou resistência política feroz.

Em agosto de 2025, a Receita Federal começou a exigir que instituições financeiras, incluindo fintechs, enviassem declarações periódicas de movimentações de clientes através do sistema e-Financeira. Até então, as fintechs operavam numa zona cinzenta regulatória, sem a obrigação que pesava sobre os bancos tradicionais. A mudança foi imediata em escopo: mais de 450 instituições adicionais passaram a reportar dados. Durigan não deixou passar a oportunidade de apontar que essa implementação havia sido alvo de campanhas de desinformação e pressão política que a atrasaram, crítica que dirigiu especificamente a deputados e influenciadores da oposição que, segundo ele, criaram o que ficou conhecido como a "crise do Pix" em 2025.

Quando os dados começaram a chegar à Receita Federal em meados de 2025, as inconsistências saltaram aos olhos. Das seis fintechs investigadas, três delas haviam declarado movimentações de aproximadamente R$ 8 bilhões apenas entre janeiro e dezembro de 2025. As outras três não cumpriram sequer a obrigação de envio e agora enfrentam autuações fiscais. Durigan enquadrou a descoberta como um exemplo de "asfixia financeira" — a estratégia de cortar os fluxos de dinheiro que alimentam as organizações criminosas, em vez de perseguir apenas os crimes de rua.

Na quinta-feira, 28 de maio, o Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal executaram a segunda fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Operação Fluxo Oculto. Foram cumpridos 59 mandados de busca e apreensão em pessoas físicas e jurídicas espalhadas por cinco estados: São Paulo (incluindo a capital, Arujá, Atibaia, Barueri, Itupeva, Jardinópolis, Mogi das Cruzes, Paulínia, Rafard, Santos, São José do Rio Preto, Sorocaba e Votorantim), Paraná (Cascavel e Paranavaí), Mato Grosso do Sul (Iguatemi), Minas Gerais (Belo Horizonte) e Rio de Janeiro. Cerca de 135 auditores-fiscais, analistas-tributários e servidores administrativos da Receita Federal participaram, junto com dezenas de agentes de órgãos parceiros.

O que a operação revelou foi um esquema de notável sofisticação. O PCC havia infiltrado o setor de combustíveis, operando uma rede de 56 postos que canalizavam suas operações através de uma única conta bancária para despistar a fiscalização. Quando essa estratégia começou a falhar, a organização migrou seus recursos entre várias fintechs, substituindo as antigas por novas empresas conforme as anteriores eram expostas. Um braço do esquema importava nafta — um solvente — para adulterar combustíveis, o que permitia sonegar impostos federais. Os lucros obtidos dessa sonegação eram então investidos em fintechs localizadas na Avenida Faria Lima, em São Paulo, um endereço que funciona como centro financeiro da cidade. As fintechs serviam um propósito claro: dissimular a origem criminosa dos recursos.

A operação de maio de 2026 demonstrou que, mesmo após a primeira fase da Carbono Oculto em agosto de 2025, a organização criminosa não havia desistido. Continuava operando com o mesmo grau de organização, apenas adaptando suas táticas. Os principais alvos agora eram empresários, operadores logísticos e pessoas usadas como laranjas — intermediários que emprestavam seus nomes e documentos para abrir contas e empresas. Durigan mencionou também a identificação de criptoativos sendo utilizados para lavagem de dinheiro, sugerindo que a investigação havia descoberto múltiplas camadas de sofisticação financeira.

O que fica claro é que o crime organizado não é estático. Ele se adapta, muda de forma, encontra novos intermediários. Mas agora, com o sistema e-Financeira em funcionamento, há um olho digital monitorando os fluxos. A questão que permanece é se as autoridades conseguem acompanhar a velocidade com que essas organizações se reinventam.

Essas fintechs foram identificadas graças às informações que a Receita passou a receber em meados de 2025
— Ministro da Fazenda Dario Durigan
A gente espera avançar no combate ao crime organizado da maneira inteligente, que é fazendo asfixia financeira
— Ministro da Fazenda Dario Durigan
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