Dispararam 58 vezes em gente que levava vida pacata
Na manhã de 20 de janeiro, quatro homens foram mortos por policiais militares de Goiás durante uma operação em uma fazenda na Chapada dos Veadeiros — uma região conhecida pela beleza e pela paz. A desproporção entre os 58 disparos efetuados pela PM e a única espingarda atribuída às vítimas, somada à ausência de antecedentes criminais dos mortos, levanta questões que atravessam o tempo: onde termina a lei e começa a violência do Estado? A comunidade que os conhecia foi às ruas, e o silêncio das autoridades ecoa mais alto do que qualquer resposta oficial.
- A Polícia Militar disparou 58 vezes contra quatro homens sem ficha criminal, enquanto a versão oficial de confronto armado desmorona diante dos fatos.
- A queima imediata da plantação pelos próprios policiais — sem a presença obrigatória de um delegado — apagou provas antes que qualquer investigação independente pudesse começar.
- Moradores de São Jorge foram às ruas no domingo seguinte, carregando faixas que acusavam a PM de chacina e exigindo justiça pelos quatro homens que conheciam pelo nome.
- Sete policiais foram afastados e o Ministério Público abriu investigação, mas o governo estadual e a Secretaria de Segurança Pública permaneciam em silêncio quatro dias após as mortes.
- A namorada grávida de uma das vítimas presenciou tudo e conseguiu fugir — testemunha viva de uma versão que contradiz o boletim de ocorrência.
Na manhã de 20 de janeiro, sete policiais do Grupo de Patrulhamento Tático de Niquelândia chegaram a uma fazenda rural próxima a Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros, motivados por uma denúncia anônima sobre plantação de maconha. Ao fim da operação, quatro homens estavam mortos. A PM havia disparado 58 vezes — 40 de fuzil, 18 de pistola. A versão oficial falava em confronto armado. A comunidade não acreditou.
Os quatro mortos eram conhecidos em São Jorge: Alan Pereira Soares, 27 anos, cuja namorada grávida presenciou tudo e fugiu; Antônio da Cunha dos Santos, 35, da comunidade quilombola kalunga, apreciador de plantas medicinais; Ozanir Batista da Silva, 46, filho de uma família pioneira da região; e Salviano Souza Conceição, 63, descrito por todos como homem tranquilo. Nenhum tinha antecedentes criminais. A polícia alegou que os quatro possuíam revólveres; amigos dizem que havia apenas uma espingarda na fazenda.
As contradições se acumularam. O número de pés de maconha registrado no boletim inicial — cerca de 2 mil — foi revisado horas depois para entre 500 e 600. A plantação foi queimada pelos próprios policiais logo após as mortes, sem a presença de um delegado exigida por lei para preservar as provas. Ninguém respondeu por essa irregularidade.
No domingo seguinte, moradores de São Jorge foram às ruas com faixas pedindo justiça e acusando a PM de chacina. A resposta institucional chegou tarde e incompleta: os sete policiais foram afastados quatro dias depois, o Ministério Público anunciou investigações em Cavalcante e Niquelândia, mas o governo estadual, a Polícia Civil e a Secretaria de Segurança Pública permaneciam em silêncio — como se o peso daqueles 58 disparos ainda não tivesse encontrado quem quisesse carregá-lo.
Na manhã de 20 de janeiro, uma operação da Polícia Militar de Goiás em uma fazenda rural próxima a Cavalcante terminou com quatro pessoas mortas. Os policiais dispararam 58 vezes — 40 tiros de fuzil e 18 de pistola — em resposta ao que descreveram como um confronto armado. A versão oficial, porém, enfrenta contestação feroz na Vila de São Jorge, a comunidade turística da Chapada dos Veadeiros mais próxima do local dos fatos. Familiares e amigos das vítimas afirmam que nenhuma delas tinha histórico de violência, que todas levavam vidas ordinárias, e que a ação policial foi uma execução sem chance de defesa.
O alvo declarado da operação era uma plantação de maconha. Os números já começam a divergir: no boletim de ocorrência inicial, os policiais registraram cerca de 2 mil pés; horas depois, revisaram para entre 500 e 600 pés. As plantas foram queimadas pelos próprios militares logo após as mortes, um procedimento que a lei diz deve ser acompanhado por um delegado para preservar as provas. Ninguém comentou sobre essa irregularidade.
Os quatro mortos tinham nomes, histórias, raízes na região. Alan Pereira Soares, 27 anos, morava em Colinas do Sul e tinha uma namorada grávida que presenciou tudo e conseguiu fugir. Antônio da Cunha dos Santos, 35 anos, conhecido como Chico, era da comunidade quilombola kalunga e gostava de jardinagem e plantas medicinais. Ozanir Batista da Silva, 46 anos, chamado de Niro ou Jacaré, vinha de uma família pioneira de São Jorge e fazia pequenos trabalhos. Salviano Souza Conceição, 63 anos, o mais velho, era morador antigo e conhecido de São Jorge, descrito como homem de comportamento tranquilo. Nenhum tinha antecedentes criminais. A polícia alegou que os homens tinham quatro revólveres, embora amigos digam que o dono da fazenda possuía apenas uma espingarda.
Sete policiais participaram da operação, todos do Grupo de Patrulhamento Tático, um batalhão especializado baseado em Niquelândia. Pelo menos seis deles atiraram. Os nomes foram divulgados: os sargentos Aguimar Prado de Morais e Mivaldo José Toledo; os soldados Welborney Kristiano Lopes dos Santos, Eustáquio Henrique Nascimento Lopes e Italo Vinicius Rodrigues de Almeida; e os cabos Mascarenhas e Jean Roberto Carneiro dos Santos. A operação havia sido motivada por uma denúncia anônima. Os policiais estacionaram as viaturas em um ponto alagado da estrada de terra e seguiram a pé até a fazenda.
No domingo seguinte, 23 de janeiro, moradores de São Jorge saíram às ruas em protesto. Faixas pediam justiça e acusavam a polícia de chacina. O clima era de revolta contida, de gente que conhecia os mortos e não acreditava na versão oficial. As quatro vítimas foram levadas para o hospital de Colinas — não havia sinal de telefone na chácara, segundo a PM — e chegaram já sem vida.
A resposta institucional foi lenta e parcial. A Polícia Militar afastou todos os sete policiais envolvidos e anunciou uma apuração rigorosa, mas só se manifestou quatro dias após as mortes. O Ministério Público informou que acompanhava investigações em Cavalcante, onde a Polícia Civil apurava os fatos, e em Niquelândia, onde os policiais eram baseados. O núcleo de controle externo da polícia foi acionado. A Secretaria de Segurança Pública de Goiás, a Polícia Civil estadual e o Governo de Goiás permaneciam em silêncio. Ninguém comentou sobre a legalidade da queima da plantação sem supervisão de delegado.
Notable Quotes
As vítimas eram conhecidas por ter uma vida pacata e não ter histórico de violência— Familiares e amigos das vítimas
A ação policial promoveu uma verdadeira chacina e os mortos não tiveram sequer chance de defesa— Familiares e amigos das vítimas
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa operação gerou tanta revolta se a polícia diz que houve confronto?
Porque as pessoas que vivem lá conheciam essas quatro vítimas. Nenhuma tinha antecedentes criminais. Niro fazia bicos, Chico gostava de plantas. Salviano era um senhor de 63 anos conhecido por ser tranquilo. Não é o perfil que você espera de alguém que vai trocar tiros com a polícia.
Mas a polícia disparou 58 vezes. Isso não sugere que havia resistência real?
Sugere que havia muita força. Quarenta tiros de fuzil, dezoito de pistola. O dono da fazenda tinha uma espingarda, segundo amigos. A polícia diz que havia quatro revólveres, mas ninguém viu isso acontecer além dos próprios policiais.
E a plantação de maconha? Isso não justificaria uma operação?
Justificaria uma operação, sim. Mas não justificaria queimar as plantas sem um delegado presente, como a lei exige. E não justificaria disparar 58 vezes em pessoas que não tinham histórico de violência.
A polícia foi afastada. Isso significa que há dúvidas sobre o que aconteceu?
Significa que há dúvidas suficientes para que as autoridades sintam pressão. Mas afastar não é o mesmo que investigar de verdade. O governo estadual ainda não se posicionou. Ninguém comentou sobre a queima da plantação.
O que as pessoas em São Jorge esperam agora?
Justiça. Respostas. Saber por que quatro pessoas que conheciam saíram de uma fazenda mortas. E saber se isso foi um confronto ou uma execução.