Há séculos, o mundo aprendeu a ver-se através de uma lente que encolhe África e engrandece o Norte — não por má-fé, mas por necessidade náutica. Quando a ONU votou, em setembro de 2026, para recomendar mapas mais fiéis às proporções reais dos continentes, parecia um gesto de justiça cartográfica. Mas a geometria do planeta nunca é apenas geometria: ao tentar corrigir uma distorção visual, a resolução revelou que cada linha traçada num mapa carrega o peso de soberanias, memórias e disputas que nenhuma projeção consegue neutralizar.
ONU muda mapa-múndi e desencadeia disputa diplomática sobre territórios
Numa mapa político, até uma tonalidade pode tornar-se uma questão diplomática
Então a ONU simplesmente decidiu que os mapas antigos estavam errados?
Não exatamente. A projeção de Mercator não está "errada" — foi excelente para navegação. Mas distorce muito os tamanhos dos continentes. A ONU apenas recomendou que se considerem alternativas mais precisas.
Mas a recomendação é só isso, uma recomendação? Porque parece que desencadeou uma crise diplomática real.
Sim, é apenas uma recomendação. Mas quando os países começaram a examinar o novo mapa Equal Earth, viram que territórios disputados estavam representados de formas que não gostavam.
Como assim? Um mapa é um mapa, não é?
Não quando há conflitos territoriais. A Crimeia aparece numa cor que a aproxima visualmente da Rússia. As ilhas Curilas aparecem com cores russas. Jammu e Caxemira aparecem de forma que a Índia não aprova.
Mas essas cores são escolhas dos cartógrafos, não da ONU. A ONU apenas recomendou a projeção.
Exato. Mas a recomendação da ONU dá legitimidade ao mapa, e isso torna as escolhas gráficas politicamente sensíveis.
Então a Ucrânia, o Japão e a Índia estão preocupados que este mapa se torne o padrão internacional?
Sim. Se escolas e organizações internacionais adotarem este mapa, as representações dos territórios disputados tornam-se a imagem "oficial" que milhões de pessoas veem.
Mas a ONU não pode forçar ninguém a usar este mapa. Os países podem continuar a usar Mercator ou criar os seus próprios mapas.
Verdade. Mas a influência diplomática é real. Uma recomendação da ONU tem peso.
E os Estados Unidos? Por que votaram contra?
Argumentaram que a Assembleia Geral deveria concentrar-se em problemas mais importantes do que projeções cartográficas do século XVI.
Isso é uma crítica válida, ou é apenas uma desculpa?
Provavelmente ambas. Mas também reflete uma realidade: para muitos países ocidentais, Mercator é o mapa "normal". Mudar isso tem implicações políticas que vão além da cartografia.
O Pulso
- A ONU aprovou por 164 votos uma resolução recomendando o uso da projeção Equal Earth, que representa África e o Sul Global com proporções muito mais próximas da realidade do que o mapa de Mercator, usado há 500 anos.
- A Ucrânia absteve-se porque a Crimeia aparece no novo mapa numa tonalidade visualmente próxima da cor da Rússia — uma escolha gráfica que Kyiv lê como concessão política à ocupação russa.
- O Japão votou a favor mas exigiu alterações: as ilhas Curilas, que Tóquio reivindica como 'Territórios do Norte', surgem coloridas como território russo, perpetuando uma narrativa que o Governo japonês rejeita.
- A Índia apoiou a resolução com ressalvas explícitas, deixando claro que nenhuma projeção cartográfica altera a sua posição sobre Jammu e Caxemira e Ladakh — regiões disputadas com Paquistão e China.
- Os Estados Unidos foram o único voto contra, argumentando que a Assembleia Geral tem problemas mais urgentes do que debater heranças cartográficas do século XVI.
- A controvérsia expõe uma verdade incómoda: não existe mapa neutro, e a escolha de uma simples tonalidade pode transformar-se, quase instantaneamente, numa crise diplomática.
Há séculos, o mundo aprendeu a ver-se através de uma lente que encolhe África e engrandece o Norte — não por má-fé, mas por necessidade náutica. Quando a ONU votou, em setembro de 2026, para recomendar mapas mais fiéis às proporções reais dos continentes, parecia um gesto de justiça cartográfica. Mas a geometria do planeta nunca é apenas geometria: ao tentar corrigir uma distorção visual, a resolução revelou que cada linha traçada num mapa carrega o peso de soberanias, memórias e disputas que nenhuma projeção consegue neutralizar.
No início de setembro de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou com larga maioria uma resolução que incentiva governos, escolas e empresas a adotarem mapas com projeções de área equivalente — em particular a Equal Earth, desenvolvida em 2018. A iniciativa, liderada pelo Togo e pela União Africana, visava corrigir séculos de distorção visual herdada da projeção de Mercator, criada em 1569 para fins de navegação. Nesse mapa, a Gronelândia parece tão grande quanto África, quando na realidade África é cerca de 14 vezes maior. A Europa aparece quase tão extensa quanto a América do Sul, tendo apenas metade da sua área.
A resolução não proíbe Mercator nem torna o Equal Earth obrigatório — é apenas uma recomendação. Mas foi precisamente aí que começaram as tensões. A Ucrânia absteve-se porque a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, surge no novo mapa numa tonalidade graficamente próxima da cor russa. Para Kyiv, uma escolha de design pode ser lida como reconhecimento tácito da ocupação. O representante ucraniano alertou para o risco de abrir uma 'caixa de Pandora' na representação de territórios disputados.
O Japão votou a favor, mas solicitou alterações: as ilhas Curilas — que Tóquio designa como 'Territórios do Norte' e reivindica desde o fim da Segunda Guerra Mundial — aparecem coloridas como território russo. A Índia também apoiou a resolução, mas deixou um aviso formal: o seu voto não implica qualquer aceitação de representações alternativas de Jammu e Caxemira e Ladakh, regiões disputadas com Paquistão e China. Os Estados Unidos foram o único voto contra, considerando o debate uma distração face a problemas internacionais mais prementes.
O episódio ilumina uma verdade que a cartografia conhece bem: projetar a superfície esférica da Terra num plano exige sempre sacrifícios — de área, forma, distância ou direção. Nenhum mapa é neutro. E quando a ONU tentou tornar o mundo visualmente mais justo, descobriu que até uma simples tonalidade pode rapidamente converter-se numa questão de Estado.
No início de setembro, a Assembleia Geral das Nações Unidas votou a favor de uma resolução simples em aparência: incentivar governos, escolas e empresas a usarem mapas que representem os continentes com maior precisão. A votação foi esmagadora — 164 votos a favor, apenas um contra (dos Estados Unidos) e seis abstenções. Parecia um triunfo da cartografia científica sobre séculos de distorção visual. Mas quando os diplomatas começaram a examinar o novo mapa proposto, descobriram algo que nenhuma projeção consegue evitar: a política.
O problema tem raízes profundas. Desde 1569, quando o cartógrafo Gerardus Mercator criou sua projeção revolucionária, o mundo aprendeu a ver a si mesmo através de uma lente distorcida. Mercator não estava errado — sua projeção foi concebida para navegação e preserva ângulos e direções com precisão admirável. Mas quando usada para comparar tamanhos, produz distorções dramáticas. Quanto mais perto dos polos, maior um território parece. A Gronelândia, neste mapa, tem dimensões semelhantes às de África, quando na verdade África é cerca de 14 vezes maior. A Europa aparece quase tão grande quanto a América do Sul, embora tenha apenas metade de sua área.
A resolução aprovada em 4 de setembro, apresentada pelo Togo e impulsionada pela União Africana, promove a adoção de projeções de área equivalente, particularmente a Equal Earth, desenvolvida em 2018 pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Bernhard Jenny e Tom Patterson. Neste mapa, África, América Latina, Sul da Ásia e Oceânia recuperam proporções muito mais próximas da realidade, enquanto Europa, América do Norte, Rússia e Gronelândia encolhem visualmente. Importa esclarecer: a ONU não proibiu Mercator nem tornou obrigatório o Equal Earth. A resolução é apenas uma recomendação. Mas foi precisamente neste ponto que começaram os problemas diplomáticos.
A Ucrânia foi um dos seis países que se abstiveram. Não é a projeção Equal Earth em si que preocupa Kyiv, mas como a Crimeia aparece representada. A península, ocupada e anexada pela Rússia em 2014, surge numa tonalidade diferente do território continental ucraniano — e essa tonalidade aproxima-se visualmente mais da cor usada para a Rússia. Para a Ucrânia, uma simples escolha gráfica pode ter leitura política profunda. Andrii Melnyk, representante permanente ucraniano na ONU, explicou que o país não se opõe ao objetivo principal da resolução, mas alertou para o risco de abrir uma "caixa de Pandora" na representação de territórios disputados.
O Japão votou a favor, mas depois pediu alterações. As ilhas Curilas, conhecidas em Tóquio como Territórios do Norte, aparecem no mapa com cores semelhantes às do território russo. Essas quatro ilhas são administradas pela Rússia desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas o Japão continua a reivindicá-las. O Governo japonês confirmou que solicitou aos responsáveis pela Equal Earth mudanças na representação, argumentando que é necessário evitar a propagação de perceções incorretas sobre territórios que reivindica.
A Índia também apoiou a resolução, mas deixou um aviso claro. Nova Deli não aceita que novas projeções cartográficas alterem a forma como Jammu e Caxemira e Ladakh devem ser representados. A região permanece dividida e disputada entre Índia, Paquistão e, parcialmente, China. O Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano fez questão de salientar que seu voto favorável dizia respeito apenas à utilização de projeções que preservem melhor as áreas, não à aceitação de um mapa político específico. Segundo o Governo indiano, o território soberano da Índia, incluindo Jammu e Caxemira e Ladakh, deverá continuar representado de acordo com o mapa oficial indiano.
Os Estados Unidos foram os únicos a votar contra. A representante norte-americana Yaryna Ferencevych criticou a iniciativa, argumentando que a Assembleia Geral deveria concentrar-se em problemas internacionais mais importantes em vez de discutir projeções cartográficas com origem no século XVI. Sua posição contrastou claramente com o apoio quase generalizado à iniciativa africana.
A verdade é que não existe um mapa do mundo "correto". Transformar a superfície aproximadamente esférica da Terra numa folha plana implica sempre algum tipo de distorção. Não é possível preservar simultaneamente, e de forma perfeita, áreas, formas, distâncias e direções. Mercator privilegia aspetos úteis à navegação. Equal Earth procura preservar melhor as áreas relativas. A escolha depende da finalidade. A decisão da ONU tem sobretudo dimensão educativa e política: mostrar que o mapa que milhões aprenderam a considerar como representação "normal" do planeta distorce significativamente a dimensão dos continentes. África não ficou maior, nem a Europa ficou mais pequena. O que mudou foi a forma como as vemos. E a controvérsia que se seguiu demonstra algo fascinante: num mapa político, até uma simples tonalidade pode transformar-se rapidamente numa questão diplomática.
Citações Notáveis
O país não se opõe ao objetivo principal da resolução, mas alertou para o risco de se abrir uma 'caixa de Pandora' na representação de territórios disputados— Andrii Melnyk, representante permanente ucraniano nas Nações Unidas
A Assembleia Geral deveria concentrar-se em problemas internacionais mais importantes em vez de discutir projeções cartográficas com origem no século XVI— Yaryna Ferencevych, representante norte-americana