Promessas de salário e qualificação, mas documentos retidos e mobilidade limitada
Portais Vermelho e Rede PT, além de ONGs feministas, promoveram vagas na Alabuga Start sem mencionar que é fábrica de drones militares já bombardeada pela Ucrânia. Organização internacional Global Initiative Against Transnational Organized Crime investigou o programa por suspeitas de tráfico de pessoas, encontrando padrão similar em África, Ásia e América Latina.
- Fábrica Alabuga Start em Tartaristão produz drones Shahed usados na invasão da Ucrânia
- Portais Vermelho e Rede PT, além de ONGs feministas, promoveram vagas sem mencionar produção de drones militares
- Global Initiative Against Transnational Organized Crime investigou programa por suspeitas de tráfico humano
- Rússia recruta em pelo menos 11 países; estratégia inclui infiltração em eventos do BRICS
Organizações ligadas ao PT e PCdoB divulgaram propaganda russa para recrutar brasileiras de 18 a 22 anos para trabalhar na Alabuga Start, fábrica de drones usados na invasão da Ucrânia, alvo de denúncias internacionais de tráfico humano.
Na região de Tartaristão, na Rússia, existe uma fábrica chamada Alabuga Start. Lá são construídos drones Shahed — máquinas de guerra que custam cerca de vinte mil dólares cada uma e carregam até noventa quilos de explosivos. Todas as semanas, milhares desses aparelhos saem dessa fábrica rumo à Ucrânia, onde atacam alvos militares e civis. A fábrica já foi bombardeada pelo menos duas vezes. Um alojamento de trabalhadores foi um dos alvos atingidos. E nos últimos meses, organizações não governamentais, sindicatos e portais de internet ligados ao Partido dos Trabalhadores e ao Partido Comunista do Brasil começaram a divulgar anúncios de emprego para essa mesma fábrica, direcionados a mulheres brasileiras entre dezoito e vinte e dois anos.
Os anúncios prometem bom salário, moradia e formação técnica. Nenhum deles mencionava que o local de trabalho era uma das maiores fábricas de drones da Rússia, considerada um alvo legítimo pela Ucrânia. O recrutamento começou no ano anterior, principalmente por influenciadores em redes sociais. Alguns desses influenciadores foram acusados de envolvimento com tráfico humano e pararam a campanha. Mas o esforço foi retomado recentemente, dessa vez por meio de portais de notícias, confederações sindicais e organizações feministas.
A reportagem da Gazeta do Povo encontrou material de recrutamento no portal Vermelho, ligado ao Partido Comunista do Brasil, no site Rede PT, associado ao Partido dos Trabalhadores, e na página da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino, também vinculada ao PCdoB. Também identificou a União Brasileira de Mulheres da Cidade de São Paulo promovendo as vagas. Quando a reportagem simulou interesse no programa, foi direcionada a um formulário que solicitava nome, data de nascimento, e-mail e conta em redes sociais. O formulário encaminhava a candidata para o aplicativo Telegram, onde um especialista em recursos humanos do programa pedia novamente dados pessoais e número de passaporte. Fotos e vídeos explicando o interesse também eram solicitados. Quando a reportagem fingiu não entender como obter um passaporte brasileiro, foi imediatamente orientada a procurar a embaixada da Rússia no Brasil. Mesmo após a reportagem encerrar os contatos, a Alabuga continuou enviando mensagens por e-mail, tentando dar continuidade ao processo de recrutamento.
A organização internacional Global Initiative Against Transnational Organized Crime investigou o programa Alabuga e divulgou relatório em maio de 2025 analisando seu funcionamento. A organização sustenta que o programa integra um complexo industrial ligado à produção de drones e equipamentos estratégicos. Segundo o relatório, mulheres migrantes de diferentes países estariam sendo recrutadas com promessas de qualificação profissional e oportunidades educacionais, mas encontrariam condições restritivas, contratos pouco transparentes e dificuldades para se desligar. Havia relatos de retenção de documentos, limitação de mobilidade e barreiras linguísticas que dificultariam a autonomia das trabalhadoras. A BBC também havia publicado reportagem mostrando como mulheres africanas foram recrutadas e exploradas na Rússia através do mesmo programa.
O programa Alabuga foi criado por Moscou para tentar suprir a escassez de mão de obra em suas fábricas da Zona Econômica Especial. A Rússia começou recrutando estudantes de Uganda e da África do Sul com promessas de salários de mil dólares por mês, moradia e curso superior gratuito. Mas a estratégia se expandiu. Organizações de fiscalização identificaram atividades de recrutamento em Botsuana, Zâmbia, Lesoto, Namíbia, Ilhas Maurício, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Equador, Panamá e Peru. A Rússia tem enviado representantes a esses países para organizar a propaganda. Uma das estratégias envolve infiltrar recrutadores em eventos ligados ao bloco diplomático dos BRICS, particularmente nas Cúpulas de Juventude, que reúnem representantes dos países-membros para discutir o papel da juventude no desenvolvimento científico e tecnológico.
Na África do Sul, a Aliança Empresarial de Mulheres serviu de base para o governo assinar uma parceria com a Rússia para levar cinco mil e seiscentas mulheres para o país. Embora ao menos parte do recrutamento fosse destinado à Alabuga Start, não foi possível confirmar com fontes independentes quantas foram enviadas para a produção de drones. Em seguida, o governo da Nigéria autorizou a Aliança de Mulheres do BRICS a abrir um escritório em seu território. De acordo com a página oficial do BRICS, a aliança também opera no Brasil, mas por enquanto não há conexão oficial de suas atividades com a iniciativa de Alabuga.
Os portais que divulgaram as vagas no Brasil enfatizavam benefícios como qualificação técnica, experiência internacional, alojamento e salário em moeda local. Os textos reproduziam informações institucionais do programa e destacavam a possibilidade de inserção profissional em ambiente industrial de alta tecnologia. Não havia, porém, menção às controvérsias internacionais envolvendo a Alabuga Start e a fabricação de armas de guerra. O portal Vermelho foi fundado por Bernardo Joffily, militante e ex-integrante da direção nacional do PCdoB, que se desfiliou da legenda em fevereiro de 2025. O domínio está registrado atualmente com o CNPJ do Partido Comunista do Brasil. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino também publicou conteúdo sobre o programa; seu presidente, Railton Nascimento Souza, foi candidato a deputado federal pelo PCdoB nas eleições de 2022. O site Rede PT está registrado em nome de José Alfredo Carvalho, ex-vereador pelo Partido dos Trabalhadores e atual secretário de Finanças e Planejamento do diretório municipal de Ribeirão Preto.
A União Brasileira de Mulheres mantém histórico de interlocução com o PCdoB e é beneficiária de emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Orlando Silva, do PCdoB do Rio de Janeiro. O domínio da UBM Capital SP está registrado em nome de sua presidente, Claudia Rodrigues. Em suas redes sociais, há publicações relacionadas ao PCdoB, incluindo participação em propaganda partidária da legenda na televisão. Embora a existência de vínculos políticos não implique, por si só, irregularidade, o alinhamento partidário das entidades que deram visibilidade ao programa russo passa a ter relevância diante das denúncias internacionais sobre as condições de trabalho oferecidas às migrantes. Uma influenciadora russa chamada Ekaterina Bobrovnikova, que afirma ter sido criada no Brasil, publicou conteúdo sobre a Alabuga em sua conta no Instagram, mostrando a cidade e entrevistando uma brasileira de vinte e um anos que saiu de São Paulo em junho de 2025 para trabalhar no programa.
Notable Quotes
Não temos notícias suas há algum tempo e gostaríamos muito de saber se você tem interesse em continuar— Mensagem enviada pela Alabuga Start à reportagem após mais de um mês de primeiro contato
Mulheres migrantes estariam sendo recrutadas com promessas de qualificação profissional, mas encontrariam condições restritivas, contratos pouco transparentes e dificuldades de desligamento— Global Initiative Against Transnational Organized Crime, relatório de maio de 2025
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que uma fábrica de drones militares precisaria recrutar mulheres jovens de países em desenvolvimento?
Porque a Rússia está produzindo drones em escala massiva — milhares por semana — e precisa de mão de obra barata e abundante. A fábrica foi expandida justamente para isso, e a escassez de trabalhadores russos a forçou a olhar para o exterior.
E por que especificamente mulheres entre dezoito e vinte e dois anos?
Porque são mais fáceis de controlar. Jovens, longe de casa, sem redes de apoio, falando idiomas diferentes. Menos propensas a questionar, mais vulneráveis a isolamento. É um padrão que a Global Initiative encontrou em todos os países onde o programa opera.
Como é que portais ligados ao PT e PCdoB começaram a divulgar isso?
Não está claro se houve coordenação deliberada ou se foi uma questão de oportunismo ideológico — a ideia de uma oportunidade de trabalho e qualificação profissional alinha-se com pautas de esquerda. Mas o resultado é que essas plataformas amplificaram a mensagem russa sem questionar o contexto.
E as mulheres que já foram? O que acontece com elas lá?
Algumas trabalham diretamente na produção de drones. Outras em tarefas auxiliares. Não está claro a proporção. Mas há relatos de retenção de documentos, limitação de movimento, barreiras linguísticas que as deixam isoladas e dependentes da empresa. É difícil sair.
A embaixada russa no Brasil está envolvida nisso?
A reportagem tentou contato oficial e não recebeu resposta. Mas o padrão internacional sugere que as embaixadas orquestram a estratégia — recrutam influenciadores locais, fornecem material de propaganda, coordenam com intermediários. É uma operação diplomática.
E o que vem depois? Isso vai continuar?
A Rússia está expandindo para eventos do BRICS, tentando infiltrar recrutadores em estruturas diplomáticas. O Brasil é parte dessa estratégia maior. Se não houver intervenção, provavelmente vai continuar.