Ingressos para três shows do BTS no MorumBIS esgotaram em apenas 23 minutos, com 250 mil entradas vendidas desde abril. Centro Cultural Coreano relata mudança de público: de maioria coreana em 2013 para brasileiros de todas as idades interessados em k-pop, k-dramas, gastronomia e skincare.
Onda coreana rompe bolha e transforma restaurantes, lojas e feiras de SP
Uma coisa puxa a outra. Se algo viralizou, as pessoas pesquisam.
Como você explica que 250 mil ingressos desapareçam em 23 minutos? Isso é só fã de BTS ou é algo maior?
É algo muito maior. O BTS é o símbolo mais visível, mas a onda coreana está em tudo—nos restaurantes, nas lojas, nas séries que as pessoas assistem em casa. O isolamento pandêmico foi um acelerador.
Mas espera. Esses números de ingressos—250 mil em 23 minutos—vêm de onde exatamente? É a capacidade total do estádio ou é só o que foi liberado para venda geral?
É a quantidade de ingressos gerais que foram disponibilizados. Depois disso, restam apenas camarotes. Então sim, é um número real de demanda, não é especulação.
E o Centro Cultural Coreano viu essa mudança acontecer em tempo real?
Exatamente. Em 2013, quando abriu, era principalmente coreanos e descendentes. Agora recebem brasileiros de todas as idades interessados em k-pop, k-dramas, gastronomia, skincare. A diretora diz que o interesse não está mais limitado a uma única área.
Mas isso é baseado em observação ou em dados concretos? Quantas pessoas a mais? Qual é o crescimento real?
A reportagem não traz números específicos de crescimento. É mais observação qualitativa—o que a diretora e os donos de restaurante percebem mudando. É real, mas não é quantificado.
Os chefs notam algo diferente no jeito que as pessoas pedem comida?
Muito. Chegam mostrando referências dos dramas, tentando pronunciar nomes em coreano, pedindo pratos específicos. Dez anos atrás, ninguém vinha pedindo kimchi por nome.
E esses pratos virais—hot-dog coreano, pão de alho coreano—eles realmente vêm da Coreia ou foram criados lá recentemente?
Um chef explica que alguns não têm origem na culinária tradicional. São fusões ou criações recentes. Mas uma vez que viralizam, as pessoas pesquisam e descobrem outras coisas.
O Bom Retiro sempre foi assim ou virou polo coreano recentemente?
Virou. A Prefeitura reconheceu oficialmente como polo. Donos de estabelecimentos perceberam a mudança no perfil da clientela, especialmente durante a pandemia.
Quando exatamente? A reportagem diz que perceberam "em especial no período pandêmico", mas não dá datas de quando as lojas abriram ou quando a mudança começou a ser visível.
Verdade. Sabemos que o Otugui abriu em 1989, o K-Square em 2000, mas a maioria das lojas e restaurantes mais novos não tem data clara. É um processo que acelerou, mas não está completamente mapeado.
O Pulso
- 250 mil ingressos para três shows do BTS esgotados em 23 minutos em abril
- Centro Cultural Coreano mudou de público majoritariamente coreano (2013) para brasileiros de todas as idades
- Bom Retiro reconhecido oficialmente pela Prefeitura como polo da cultura coreana
- Otugui, maior mercado coreano, abriu em 1989; K-Square Shopping em 2000
Ingressos para três shows do BTS no MorumBIS esgotaram em apenas 23 minutos, com 250 mil entradas vendidas desde abril. Centro Cultural Coreano relata mudança de público: de maioria coreana em 2013 para brasileiros de todas as idades interessados em k-pop, k-dramas, gastronomia e skincare.
A cultura coreana transcende comunidades imigrantes em São Paulo, impulsionada por k-pop, k-dramas e gastronomia. Shows do BTS com 250 mil ingressos esgotados em 23 minutos refletem fenômeno global chamado 'hallyu'.
Quando os ingressos para os três shows do BTS começaram a ser vendidos em abril, 250 mil entradas desapareceram em 23 minutos. Restam apenas camarotes no estádio MorumBIS, começando em R$ 4.990. Os números não são apenas sobre um grupo de música. Eles refletem algo maior: uma onda cultural coreana que transbordou das comunidades imigrantes e transformou a forma como São Paulo come, compra, se diverte e se relaciona com a Ásia.
Esse fenômeno tem nome em coreano: hallyu, a onda coreana. O Centro Cultural Coreano no Brasil acompanhou a mudança de perto. Quando abriu em 2013, seus cursos de língua e workshops eram frequentados principalmente por coreanos e descendentes. Hoje, a instituição oficial do governo sul-coreano recebe pessoas de todas as idades, majoritariamente brasileiros. A diretora Jeonghee Jong observa que o interesse não se concentra mais em uma única área. A gastronomia, o k-pop, os k-dramas e o skincare despertam interesse simultâneo e crescente.
O isolamento pandêmico acelerou tudo. Quando as pessoas ficaram em casa, séries como "Round 6" e "Pousando no Amor" ganharam popularidade. Muitos espectadores passaram a se interessar não apenas pelos dramas, mas pelo modo de vida, pela história e pelas tradições coreanas. Os chefs perceberam isso na prática. Regina Hwang, do restaurante Portal da Coreia, nota que nos dramas coreanos a comida é onipresente. Daniel Park, à frente do Komah, relata que o público chega mostrando referências dos seriados, tentando pronunciar nomes em coreano, pedindo pratos específicos como kimchi. "Só o fato de vir querendo provar algo específico já é algo que não era realidade dez anos atrás", diz.
Os pratos tradicionais—bulgogi, a carne marinada em molho à base de shoyu, e bibimbap, o mexidão de arroz com legumes—continuam populares. Mas também explodiram comidas virais: hot-dog coreano, pão de alho coreano, criações que às vezes nem têm origem na culinária tradicional, mas em fusões ou invenções recentes. Gregório Kang, chef do Bicol, explica que isso não é problema. "Se algo que veio da Coreia viralizou, as pessoas se interessam, pesquisam e acabam descobrindo um monte de outras coisas." Uma coisa puxa a outra.
O Bom Retiro, reconhecido oficialmente pela Prefeitura como polo da cultura coreana, é onde tudo converge. Restaurantes com propostas autorais como o Komah dividem espaço com cafeterias inspiradas em Seul, como a Kooi Mooa, e confeitarias que trazem sabores coreanos, como a By Kim. Lojas de cosméticos importados da Coreia do Sul abriram e se multiplicaram. O K-Square Shopping, que começou em 2000 voltado a roupas, agora tem 36 espaços majoritariamente sul-coreanos com vestuário, maquiagem, papelarias, serviços de estética e alimentação. O Otugui, maior e mais tradicional mercado coreano, abriu em 1989 como comércio de bairro que importava produtos. Hoje é referência.
A presença cultural se estende além do consumo. Feiras de sábado no Bom Retiro reúnem cerca de 20 expositores com produtos de k-pop e k-drama, polaroides de artistas por R$ 2, camisetas por R$ 60, atividades de dança com o público e workshops de taekwondo. O Centro Cultural Coreano mantém exposições como "K-pop Encontra a Música Tradicional Coreana", com entrada gratuita, além de cursos regulares de língua, taekwondo, k-dance, caligrafia e pintura. O Korean Film Festival chegou a São Paulo com 18 longas e 59 curtas, programação gratuita. O Hybe Cinefest 2026 coloca o Brasil como peça central pela primeira vez, com transmissões ao vivo dos shows do BTS em redes de cinema.
O que começou como interesse de uma comunidade imigrante se tornou fenômeno de massa. Não é mais bolha. É transformação visível nas ruas, nas mesas dos restaurantes, nas filas de shows, nas prateleiras das lojas. A onda coreana não apenas chegou a São Paulo. Ela mudou a cidade.
Citações Notáveis
Hoje, recebemos pessoas de todas as idades, principalmente brasileiros, e percebemos que o interesse pela Coreia não está mais limitado a uma única área. A gastronomia, o k-pop, os k-dramas e o skincare despertam ainda mais interesse.— Jeonghee Jong, diretora do Centro Cultural Coreano
O público vê um preparo nas séries e já chega mostrando a referência, tentando fazer a pronúncia do coreano. Só o fato de vir querendo provar algo específico, como o kimchi, já é algo que não era realidade dez anos atrás.— Daniel Park, chef do Komah