A cada seis pessoas no mundo, uma enfrenta dificuldades para conceber — e entre as mulheres afetadas, mais de um terço sofre violência por parte dos seus parceiros. A OMS, ao lançar um guia com 40 recomendações, reconhece que a infertilidade não é apenas uma condição médica, mas uma questão de justiça social, onde o acesso ao cuidado é moldado pelo género, pela classe e pelo silêncio que ainda envolve o tema. Tratar a infertilidade como um problema negligenciado é, em si, um ato político.
OMS alerta: infertilidade afeta uma em cada seis pessoas e 36% das mulheres sofrem violência
Capacitar as pessoas a tomar decisões informadas sobre a sua reprodução é uma questão de justiça social
Como é que a OMS chegou ao número de uma em cada seis pessoas? É uma estimativa global ou baseada em dados de regiões específicas?
A OMS trabalha com dados de múltiplos estudos e registos de saúde de todo o mundo. O número reflete a prevalência da infertilidade em algum momento da vida reprodutiva, mas é verdade que a realidade varia muito entre países e contextos socioeconómicos.
Exatamente. E esse número de 36% das mulheres que sofrem violência — é específico das mulheres com infertilidade ou é uma estimativa mais ampla que a OMS está a aplicar? Porque a fonte não deixa claro se este é um achado novo ou uma sobreposição de duas estatísticas já conhecidas.
Ótima questão. Então o guia com 40 recomendações — é vinculativo para os países ou é apenas orientativo?
É orientativo. O guia é dirigido a profissionais de saúde e decisores políticos, mas cada país tem autonomia para implementar ou adaptar as recomendações conforme a sua realidade.
O que significa que um país pode ignorá-lo completamente. E quanto aos tratamentos caros — a OMS está a dizer que os países devem cobrir estes custos através do sistema de saúde, ou está apenas a reconhecer que o problema existe?
A questão do custo é central aqui. Se uma tentativa de fertilização in vitro custa dois anos de rendimentos, como é que o guia da OMS resolve isto?
O guia não resolve diretamente o problema do custo. O que faz é recomendar abordagens mais acessíveis primeiro — mudanças de estilo de vida, monitorização do ciclo menstrual — antes de recorrer a procedimentos caros. É uma forma de reduzir a necessidade de tratamentos dispendiosos.
Mas isso assume que as pessoas têm tempo para experimentar estas abordagens mais simples. Se uma mulher tem 40 anos e quer engravidar, esperar meses para tentar modificações de estilo de vida pode não ser realista. O guia não aborda esta tensão entre o que é acessível e o que é urgente.
O Pulso
- Uma em cada seis pessoas enfrenta infertilidade ao longo da vida, mas a condição permanece entre as mais ignoradas pelos sistemas de saúde globais.
- As mulheres suportam o peso desproporcionalmente: 36% das afetadas também vivem violência doméstica, enquanto a culpa recai quase sempre sobre elas e os homens permanecem à margem da conversa.
- O custo de uma única tentativa de fertilização in vitro pode equivaler a dois anos de rendimentos familiares, transformando o desejo de ter filhos num privilégio de quem pode pagar.
- A OMS lançou um guia com 40 recomendações que prioriza tratamentos acessíveis e eficazes, e exige apoio psicológico antes de qualquer procedimento invasivo.
- A organização reposiciona a infertilidade como uma questão de direitos e igualdade, exigindo respostas sistémicas em vez de soluções individuais e caras.
A cada seis pessoas no mundo, uma enfrenta dificuldades para conceber — e entre as mulheres afetadas, mais de um terço sofre violência por parte dos seus parceiros. A OMS, ao lançar um guia com 40 recomendações, reconhece que a infertilidade não é apenas uma condição médica, mas uma questão de justiça social, onde o acesso ao cuidado é moldado pelo género, pela classe e pelo silêncio que ainda envolve o tema. Tratar a infertilidade como um problema negligenciado é, em si, um ato político.
A Organização Mundial da Saúde emitiu esta semana um alerta sobre a infertilidade, classificando-a como um dos problemas de saúde mais negligenciados do nosso tempo. Uma em cada seis pessoas enfrenta dificuldades para conceber em algum momento da vida reprodutiva — um número expressivo que esconde uma realidade ainda mais perturbadora: entre as mulheres afetadas, 36% são também vítimas de violência por parte dos seus parceiros.
O alerta coincidiu com o lançamento de um guia com 40 recomendações dirigidas a profissionais de saúde, decisores políticos e instituições. O documento denuncia um padrão persistente: as mulheres são frequentemente culpabilizadas pela infertilidade, enquanto os homens permanecem invisíveis na equação. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, descreveu a condição como "um desafio global para a igualdade", sublinhando que a questão é tanto médica quanto de justiça.
A barreira económica é uma das mais cruéis. Em vários países, uma única tentativa de fertilização in vitro pode custar o equivalente a dois anos de rendimentos familiares, tornando a infertilidade uma questão de classe. A isso somam-se os custos invisíveis: ansiedade, depressão, estigma social e problemas de relacionamento que recaem desproporcionalmente sobre as mulheres.
O guia propõe uma mudança de abordagem: antes de procedimentos invasivos, recomenda modificações no estilo de vida e atenção aos dias férteis do ciclo menstrual. Recomenda também avaliação do apoio psicológico necessário, reconhecendo que a infertilidade não é apenas biológica. Pascale Allotey, diretora de Saúde Sexual e Reprodutiva da OMS, sintetizou o espírito do documento: capacitar as pessoas a decidir sobre a sua reprodução é, ao mesmo tempo, um imperativo de saúde e uma questão de justiça social.
A Organização Mundial da Saúde divulgou esta semana um alerta que coloca a infertilidade entre os problemas de saúde mais negligenciados do nosso tempo: uma em cada seis pessoas enfrenta dificuldades para conceber em algum momento da sua vida reprodutiva. O número é vasto, mas há um detalhe que torna a questão ainda mais grave. Entre as mulheres afetadas pela infertilidade, 36% também sofrem violência por parte dos seus parceiros — uma sobreposição de vulnerabilidades que a organização internacional não pode ignorar.
O alerta surgiu no mesmo dia em que a OMS lançou um guia abrangente com 40 recomendações dirigidas a profissionais de saúde, decisores políticos, organizações de apoio a pacientes e instituições. O documento reconhece um padrão persistente: as mulheres são frequentemente culpabilizadas pela infertilidade enquanto os homens permanecem invisíveis na conversa. A agência define infertilidade como uma doença do sistema reprodutivo — masculino ou feminino — caracterizada pela incapacidade de engravidar após 12 meses de relações sexuais regulares sem proteção. É uma definição clínica, mas carrega consigo uma realidade humana complexa.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, descreveu a infertilidade como "um desafio global para a igualdade". A questão não é apenas médica; é também uma questão de justiça. Milhões de pessoas enfrentam uma escolha impossível: pagar por tratamentos caros e muitas vezes ineficazes ou renunciar ao desejo de ter filhos para manter a segurança financeira. Em alguns países, uma única tentativa de fertilização in vitro pode custar a uma família o equivalente a dois anos de rendimentos. Essa barreira económica transforma a infertilidade numa questão de classe, deixando os mais pobres sem acesso a soluções que os mais ricos podem comprar.
Além do custo financeiro, a infertilidade carrega um peso psicológico e social desproporcionalmente suportado pelas mulheres. A condição leva frequentemente a ansiedade, depressão, problemas de relacionamento e estigma social — um conjunto de consequências que afeta a saúde mental e o bem-estar geral. O novo guia da OMS reconhece estas dimensões invisíveis da infertilidade e propõe uma abordagem mais humana.
As 40 recomendações do guia priorizam tratamentos que são simultaneamente eficazes e acessíveis, rejeitando a lógica de que a medicina reprodutiva deve ser necessariamente cara. Antes de recorrer a procedimentos invasivos como inseminação intrauterina ou estimulação dos ovários, a OMS recomenda que os profissionais de saúde sugiram modificações no estilo de vida ou se concentrem nos dias mais férteis do ciclo menstrual — abordagens simples que não exigem tecnologia sofisticada. O guia também enfatiza a importância de avaliar se os casais precisam de apoio psicológico ou social, reconhecendo que a infertilidade não é apenas um problema biológico.
O documento aborda ainda fatores que podem afetar a fertilidade, como o uso de tabaco ou as infeções sexualmente transmissíveis, oferecendo informações que permitem às pessoas tomar decisões informadas sobre a sua reprodução. Pascale Allotey, diretora de Saúde Sexual, Reprodutiva, Materna, Infantil e do Adolescente da OMS, sublinhou que "capacitar as pessoas a tomar decisões informadas sobre a sua reprodução é um imperativo de saúde e uma questão de justiça social". Esta frase resume a mudança de perspetiva que o guia representa: a infertilidade deixa de ser apenas um problema individual a resolver através do consumo de tratamentos caros e passa a ser reconhecida como uma questão de direitos e igualdade que exige respostas sistémicas.
Citações Notáveis
É um dos problemas de saúde mais negligenciados da nossa época e um desafio global para a igualdade— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
Capacitar as pessoas a tomar decisões informadas sobre a sua reprodução é um imperativo de saúde e uma questão de justiça social— Pascale Allotey, diretora de Saúde Sexual e Reprodutiva da OMS