Editorial acusou juízes de prejudicar neutralidade eleitoral, mas omitiu decisão anterior favorável ao Novo e usou linguagem carregada de qualificadores morais. Leitores questionaram equivalência entre decisões do STF e golpismo, além da falta de menção ao cancelamento do debate pela TV Globo e Flávio Bolsonaro.
Ombudsman critica tom inflamado de editorial da Folha sobre debate cancelado
Moderar o tom não significa abrir mão da gravidade
Por que o ombudsman achou necessário criticar o tom de um editorial sobre um tema tão grave quanto interferência judicial?
Porque o tom inflamado pode obscurecer os argumentos. Se você está preocupado com a credibilidade do jornal, usar linguagem carregada de qualificadores morais enfraquece a posição, não a fortalece.
Mas o editorial estava certo sobre a interferência? Ou a crítica é só sobre como foi dito?
A crítica é principalmente sobre como foi dito e sobre o que foi omitido. A decisão favorável ao Novo deveria ter sido mencionada para que o leitor pudesse avaliar se havia um padrão consistente.
Os leitores que reclamaram tinham razão em questionar a equivalência entre decisões judiciais ruins e golpismo?
Sim. Marcia Meireles concordava com os fatos do editorial, mas achava excessivo equiparar os dois fenômenos. É uma questão legítima de proporcionalidade.
A métrica de 325% mais qualificadores morais — isso é realmente comparável? Um editorial de 2016 sobre Dilma é contexto muito diferente de um sobre interferência judicial em 2026.
É verdade que os contextos são diferentes. Mas o ponto não é que o tom deva ser idêntico. É que a Folha parece estar usando mais dramaticidade agora, e isso pode estar prejudicando sua credibilidade.
O ombudsman está dizendo que o jornal deveria ser mais neutro?
Não. Está dizendo que pode ser firme e claro sem ser inflamado. O editorial de 2016 pediu a saída de uma presidente, mas fez isso com argumentos, não com rajadas verbais.
Mas quem define o que é "inflamado" versus "firme"? Isso não é subjetivo?
Sim, há subjetividade. Por isso o ombudsman usou a comparação com 2016 — para mostrar que a própria Folha já demonstrou que é possível ser grave sem ser dramático.
E quanto ao cancelamento do debate? Por que isso importa?
Porque o editorial focou em criticar decisões judiciais mas dedicou apenas quatro palavras ao cancelamento do debate pela Globo e à desistência de Flávio Bolsonaro. Se o objetivo era analisar o que prejudicou a eleição, essa omissão é significativa.
Mas o editorial era sobre interferência judicial, não sobre o cancelamento do debate. Talvez não fosse o lugar para isso.
Talvez não. Mas então por que o editorial não deixou claro qual era seu escopo? A falta de clareza é parte do problema que o ombudsman está apontando.
El Pulso
- Editorial da Folha sobre cancelamento de debate continha 18 qualificadores morais em 346 palavras, versus 8 em 500 palavras no editorial de 2016 sobre Dilma
- Leitores apontaram que editorial omitiu decisão anterior de Kassio Nunes Marques favorável ao Novo
- Comparação com editorial de O Globo mostrou que rival conseguiu expor argumentos com mais clareza e menos dramaticidade
- Thiago Netz criticou que editorial dedicou apenas quatro palavras ao cancelamento do debate pela Globo e desistência de Flávio Bolsonaro
Editorial acusou juízes de prejudicar neutralidade eleitoral, mas omitiu decisão anterior favorável ao Novo e usou linguagem carregada de qualificadores morais. Leitores questionaram equivalência entre decisões do STF e golpismo, além da falta de menção ao cancelamento do debate pela TV Globo e Flávio Bolsonaro.
Editorial da Folha sobre cancelamento de debate da Globo gerou críticas de leitores por tom inflamado e falta de análise equilibrada sobre decisões judiciais na eleição.
Na quinta-feira à noite, quando a Globo cancelou seu debate presidencial, a Folha publicou um editorial intitulado "Ataque de juízes prejudica neutralidade da eleição". O texto, que expressa a posição institucional do jornal, provocou mais reações de leitores do que o habitual — nem todas favoráveis. O que começou como um comentário sobre interferência judicial na campanha terminou como uma discussão mais ampla sobre o tom e a precisão do jornalismo de opinião num momento de polarização extrema.
Alguns leitores apoiaram o posicionamento. Diogo Molina, de Itajubá em Minas Gerais, elogiou a tomada de posição. Mas outros discordaram frontalmente. Abel Cabral, de Campinas, argumentou que a Folha havia sido leniente com abusos anteriores do Supremo e agora colhia as consequências. "Existe muito mais desrespeito à Constituição nas práticas do STF", escreveu. "E eis que, de repente, a imprensa se vê vítima." Ainda assim, reconheceu que "a imprensa não pode ser calada". José Hamilton Cruz viu no editorial motivo para classificar o Brasil como ditadura, enquanto Marcia Meireles se sentiu desconfortável com o que chamou de equivalência excessiva entre má conduta judicial e golpismo.
Mas a crítica mais substantiva veio de leitores que apontaram omissões factuais. Vários observaram que o editorial não mencionava a primeira decisão da série de intervenções judiciais — uma do ministro Kassio Nunes Marques, favorável ao governador Romeu Zema do partido Novo. Fernando, um paulistano que preferiu não divulgar o sobrenome, questionou por que o jornal não examinava essa decisão se sua preocupação era a previsibilidade das regras e a interferência de magistrados no processo. "Se a preocupação editorial é a interferência de magistrados no processo eleitoral, por que o caso do Novo não integra a análise?", perguntou. Outro leitor levantou uma questão metodológica: uma decisão produzir efeitos politicamente convenientes a alguém não demonstra, por si só, que tenha sido proferida com essa intenção.
Thiago Netz, também de São Paulo, lamentou o que chamou de editorial "provavelmente escrito às pressas". Apontou que o texto reclamava da decisão do ministro Gilmar Mendes mas dedicava apenas quatro palavras ao cancelamento do debate pela própria emissora e à desistência do candidato Flávio Bolsonaro. "O editorial é uma opinião, mas essa opinião na forma e nos termos em que foi apresentada mostra que o jornalismo da Folha, em especial o praticado por sua diretoria, carece de mais esforço para não se deixar levar por leituras rasas e parciais", afirmou.
O ombudsman então ampliou a crítica para um padrão mais amplo. Observou que a Folha parecia priorizar um tom inflamado em seus editoriais de destaque — talvez reflexo da ascensão da linguagem populista e radicalizada. Num contexto em que as redes sociais já garantem inflamação permanente, questionou se essa abordagem realmente servia aos interesses dos assinantes e do próprio jornal. O editorial em questão estava repleto de qualificadores carregados: "corroendo", "audaciosas", "impróprias", "partidárias", "desespero da autopreservação", "rasgam a toga", "fazem o diabo". Essa dramaticidade vinha à custa de explicações mais didáticas e sóbrias. O editorial do jornal O Globo sobre o mesmo tema, por comparação, havia conseguido expor melhor seus argumentos conjugando firmeza com clareza.
Para quantificar a mudança, o ombudsman comparou o editorial de quinta-feira com outro marcante da história recente do jornal: "Nem Dilma nem Temer", de 2016, que pediu a saída da então presidente e do vice. Aquele texto de 500 palavras continha 8 qualificadores morais ou axiológicos — um a cada 62 palavras. O editorial de quinta-feira, com apenas 346 palavras, continha 18 desses qualificadores — um a cada 19 palavras. A métrica indicava que a Folha estava 325% mais disposta àquilo que ficou conhecido como "lacração". Moderar o tom, ressaltou o ombudsman, não significa abrir mão da gravidade. O editorial de 2016 não era suave, mas conseguia se apoiar mais em argumentos do que em rajadas verbais.
O ombudsman encerrou refletindo sobre um dilema maior. Num mundo dominado pela comunicação personalista dos influenciadores, guiado por algoritmos e descargas dopaminérgicas, um jornal generalista que consegue ponderar, buscar o contraditório e exercitar a dúvida é visto como exótico — quase mitológico. Abrir mão dessas qualidades, porém, não o torna menos vulnerável. Apenas adianta sua extinção. A Folha havia publicado, no ano anterior, um editorial sobre reação do Supremo ao presidente americano que concluía: "apenas os Bolsonaros e os Trumps lucram quando a irracionalidade que irradiam passa a ser utilizada por seus opositores". O mesmo parecia se aplicar ao jornal e à incorporação dos trejeitos da "besta do populismo autoritário".
Citas Notables
A Folha já tem elementos suficientes para classificar o Brasil como uma ditadura— José Hamilton Cruz, leitor de São Paulo
Enxergar equivalência entre os malfeitos de meritíssimos e o golpe bolsonarista não dá, é excessivo— Marcia Meireles, leitora de São Paulo
O jornalismo da Folha, em especial o praticado por sua diretoria, carece de mais esforço para não se deixar levar por leituras rasas e parciais— Thiago Netz, leitor de São Paulo