Em meio às florestas brasileiras, onde a Mata Atlântica foi reduzida a fragmentos, um pequeno mamífero voador ganha um papel que quase ninguém lhe atribuía: o de semeador. Pesquisadores do Paraná e de outras instituições descobriram que os morcegos frugívoros, guiados pelo olfato, podem ser atraídos com compostos sintéticos que imitam o cheiro de frutos maduros, levando sementes para áreas degradadas. Trata-se de uma tentativa de devolver à natureza, com a ajuda de quem sempre esteve ali, a capacidade de se regenerar.
Olfato de morcegos vira pista para restaurar florestas com aromas que atraem dispersores de sementes
Os morcegos não querem saber se são exóticas, nativas ou invasoras.
Por que o cheiro é a chave nessa história?
Porque os morcegos acham os frutos pelo odor. Se você reproduz esse cheiro num ponto da paisagem, os animais vêm até ele e soltam sementes ali.
E por que usar compostos sintéticos?
Extrair óleo dos frutos naturais exigiria coleta extensa e tiraria alimento da fauna, como explicou Mikich. Os sintéticos já são produzidos pela indústria farmacêutica.
Vale separar o que está medido. Os 73,3% de sementes de espécies pioneiras vêm dos experimentos nos pontos de atração, não de florestas inteiras restauradas.
Então ainda não sabemos se uma floresta se recompõe só com isso?
Não é isso que a reportagem afirma. Bianconi fala em ferramenta complementar e diz que falta um protocolo padronizado.
E há o risco apontado por Brancalion: morcegos não distinguem nativas de exóticas, como a castanhola.
Isso muda o que se espera da técnica?
Muda. Ela depende de dispersores já presentes e de fragmentos de floresta por perto. Quanto ela reduziria custos é opinião de Bianconi, não um número.
Ainda assim, o animal que muitos só associam a vampiros aparece como parceiro real da regeneração.
O Pulso
- Restaurar florestas degradadas exige plantar muito e com custo alto, e a nova técnica tenta contornar esse gargalo com um simples cheiro.
- Os morcegos conseguem percorrer longas distâncias e soltar sementes em pleno voo, o que os torna dispersores poderosos, mas pouco considerados até agora.
- Os pesquisadores substituíram a extração de óleo natural, cara e danosa, por compostos sintéticos que atraem os animais para pontos escolhidos.
- Especialistas alertam que a técnica pode espalhar espécies exóticas invasoras, e o desafio agora é transformá-la em protocolo padronizado.
Em meio às florestas brasileiras, onde a Mata Atlântica foi reduzida a fragmentos, um pequeno mamífero voador ganha um papel que quase ninguém lhe atribuía: o de semeador. Pesquisadores do Paraná e de outras instituições descobriram que os morcegos frugívoros, guiados pelo olfato, podem ser atraídos com compostos sintéticos que imitam o cheiro de frutos maduros, levando sementes para áreas degradadas. Trata-se de uma tentativa de devolver à natureza, com a ajuda de quem sempre esteve ali, a capacidade de se regenerar.
Na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a professora Parolin carrega uma tatuagem do morcego-da-cara-branca no braço, lembrança de um primeiro encontro e de uma tese que defende há anos: morcegos podem restaurar florestas, mas quase ninguém pensa neles. Enquanto o imaginário ocidental os associa a vampiros desde o Drácula de Bram Stoker, os dados contam outra história. Os morcegos frugívoros dispersam sementes de mais de 140 espécies na Mata Atlântica, inclusive em áreas degradadas, e fazem isso voando, espalhando sementes ao longo de quilômetros.
A pista para aproveitá-los está no olfato. Sandra Bos Mikich, da Embrapa Florestas, e Gledson Vigiano Bianconi, do Instituto Federal do Paraná, testaram frutos artificiais com óleo essencial de pariparoba, um dos favoritos dos animais, em uma área agrícola perto da borda da floresta. Extrair óleo de frutos em larga escala seria caro e prejudicial, então a equipe passou a isolar compostos sintéticos capazes de atrair os morcegos sozinhos, como os de frutos dos gêneros Ficus, Piper e Solanum. A vantagem, segundo Mikich, é poder posicionar o odor exatamente onde se deseja mais chegada de sementes.
O trabalho de campo acompanhou mais de 1.800 indivíduos marcados e 32 morcegos com transmissores. Os resultados mostraram que a matriz agrícola não impede os deslocamentos entre fragmentos, e que os animais fazem voos exploratórios em torno dos pontos com cheiro por até quatro minutos, tempo suficiente para dispersar milhares de sementes. Entre as sementes recolhidas, 73,3% eram de espécies pioneiras, capazes de preparar o terreno para outras plantas.
Ainda assim, os especialistas pedem cautela. Pedro Brancalion, da USP, lembra que os morcegos dispersam também espécies exóticas, como a castanhola, e que a técnica só funciona onde já há dispersores e fragmentos florestais. Bianconi a vê como complemento às métodos convencionais, capaz de reduzir custos, e o próximo passo é transformá-la em protocolo padronizado. Marco Mello, da UFMG, lembra que só nos últimos 10 a 15 anos o lado animal entrou na restauração, e que, para os maias, esses morcegos eram deuses da fertilidade.
Na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a professora Parolin carrega no braço uma tatuagem do morcego-da-cara-branca (Artibeus lituratus), espécie com duas faixas claras na cabeça. A imagem lembra o primeiro encontro dela com o animal e resume uma tese que a pesquisadora defende: morcegos são dispersores de sementes com potencial para restaurar áreas naturais, mas quase ninguém se lembra deles. Segundo ela, as pessoas só pensam nas aves.
O imaginário ocidental associa o morcego aos vampiros desde que o irlandês Bram Stoker publicou "Drácula", em 1897. Fora da ficção, os números contam outra história. Dados da Embrapa Florestas indicam que os morcegos frugívoros dispersam sementes de mais de 140 espécies de plantas na Mata Atlântica e podem depositar entre 600 e 25.930 sementes por hectare por dia, inclusive em áreas degradadas. Eles comem nas florestas, cruzam áreas agrícolas por vários quilômetros e soltam as sementes durante o voo, ao contrário da maioria dos pássaros, que as espalha apenas ao pousar.
Há mais de 20 anos, pesquisadores tentam aproveitar esse comportamento, e a pista está no olfato apurado dos animais, que localizam os frutos pelo cheiro. No início dos anos 2000, a pergunta era se seria possível reproduzir o aroma de frutos maduros e usá-lo como chamariz. Sandra Bos Mikich, da Embrapa Florestas, e Gledson Vigiano Bianconi, do Instituto Federal do Paraná, testaram frutos artificiais com óleo essencial de pariparoba (Piper gaudichaudianum), um dos preferidos dos morcegos, no Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo. O experimento foi levado a uma área agrícola a 50 metros da borda da floresta.
A análise dos óleos dos frutos favoritos mostrou que alguns compostos ajudam o animal a encontrar o alimento, enquanto outros indicam que o fruto está maduro. Só a pariparoba libera 95 compostos, em proporções que mudam conforme a maturação e o horário da coleta. Extrair o óleo dos frutos em grande escala seria caro e prejudicial, explicou Mikich, pois exigiria uma coleta extensa que tiraria alimento da fauna e comprometeria a dispersão dessas plantas.
Por isso a equipe fragmentou as essências e testou suas frações. Os cientistas selecionaram compostos sintéticos capazes de atrair os morcegos mesmo sem o restante do óleo. O foco foram frutos dos gêneros Ficus, Piper e Solanum, base da dieta dos principais frugívoros estudados. Segundo Parolin, são compostos fáceis de comprar, já produzidos sinteticamente pela indústria farmacêutica. Mikich resume a vantagem: é possível pôr o odor exatamente onde se quer que a chegada de sementes aumente. Como frugívoros do mundo todo usam o olfato, Parolin vê potencial para a ferramenta ser global, onde houver espécies que comem frutos.
A mobilidade dos animais sustenta a proposta. O morcego-da-cara-branca, o morcego-de-cauda-curta-comum (Carollia perspicillata) e o morcego-de-ombros-amarelos (Sturnira lilium) digerem em cerca de 30 minutos e percorrem longas distâncias entre alimentação e abrigo, carregando sementes para longe das plantas-mãe. Estima-se que um indivíduo gere numa noite uma chuva de centenas de sementes. Bianconi conta que a equipe marcou mais de 1.800 indivíduos de duas espécies e acompanhou por radiotelemetria 32 morcegos com transmissores. Para ele, o principal resultado foi mostrar que a matriz agrícola, apesar dos riscos, não impede os deslocamentos entre fragmentos florestais.
Em áreas abertas com atrativos olfativos perto de fragmentos, os morcegos faziam voos exploratórios em círculos ao redor do ponto, por até quatro minutos, tempo considerado suficiente para dispersar milhares de sementes de diferentes espécies. Das sementes achadas nesses pontos, 73,3% eram de espécies pioneiras, capazes de se estabelecer em áreas degradadas e preparar o terreno para outras plantas.
Os especialistas pedem cautela. Pedro Brancalion, da USP, lembra que os morcegos frequentemente dispersam espécies que não foram plantadas, o que é positivo, mas citou a castanhola (Terminalia catappa), árvore exótica: para o animal, tanto faz se a planta é nativa, invasora ou ameaçada. O atrativo só funciona onde os dispersores já circulam e há fragmentos de floresta como habitat. Bianconi vê a técnica como complemento às convencionais, capaz de reduzir custos e ampliar a diversidade, e diz que o desafio agora é transformá-la em protocolo operacional padronizado para diferentes ecossistemas.
Marco Mello, da UFMG, mantém o NeoBat, banco de dados com registros de artigos, livros, dissertações, monografias e relatórios sobre morcegos e plantas. Ele lembra que só nos últimos dez ou 15 anos o lado animal passou a ser considerado na restauração, e que, para os maias, os morcegos eram deuses da fertilidade.
Citações Notáveis
Posso colocar esses odores exatamente onde quero que a chegada de sementes aumente.— Sandra Bos Mikich, Embrapa Florestas
O principal desafio é transformar a técnica em protocolo operacional padronizado para diferentes ecossistemas.— Gledson Vigiano Bianconi, IFPR