Em 1961, um grupo de artistas alugou um galpão vazio no Bexiga, em São Paulo, e passou décadas transformando aquele espaço nu em uma casa de teatro. Hoje, quando o Oficina se aproxima de seus 70 anos, a companhia convida o público a percorrer seus corredores e seu acervo, como quem abre as portas de uma memória que também é coletiva. O reconhecimento da Folha, pelo terceiro ano seguido, confirma que essa trajetória ainda pulsa, mesmo sem seu fundador mais emblemático, e que o teatro segue sendo um lugar onde o corpo e a arquitetura conversam.
Oficina, melhor teatro experimental, abre sede e acervo com visitas guiadas rumo aos 70 anos
O início da história do espaço foi no vazio, um galpão sem equipamentos
Por que o prêmio de terceiro ano seguido importa agora?
Porque chega perto dos 70 anos, em 2028, e as visitas guiadas já abrem a sede e o acervo, com 3.000 peças.
O que a visita de 1º de novembro mostra?
O encontro de Lina Bo Bardi com o Oficina, a partir de "As Bacantes", e a montagem "Ham-let", de 1993.
O prêmio é a escolha do júri da Folha, um juízo específico, não um consenso geral.
E a história do espaço?
Começou em 1961 num galpão vazio, na rua Jaceguai, e só em 1993 ganhou o projeto de Lina Bo Bardi e Edson Elito.
Zé Celso falou dos bancos em 1994; é a visão dele, e o texto não traz a opinião do público.
Como o grupo segue sem ele?
Mantém duas peças em cartaz, "Rasga Coração" e "O Ovo e a Galinha", e levou a arquitetura do teatro ao Rio.
Fica sem resposta o que o programa dos 70 anos incluirá além das visitas; o texto não detalha.
Le Pouls
- O Oficina conquistou pelo terceiro ano consecutivo o prêmio de melhor teatro experimental da Folha, e a notícia chega cercada de expectativa.
- A companhia abre sua sede da rua Jaceguai e a casa de acervo para visitas guiadas, com 3.000 peças de figurinos, cenários e objetos ao alcance dos visitantes.
- O roteiro de 1º de novembro gira em torno de Lina Bo Bardi e do espetáculo "As Bacantes", que inspirou a arquiteta a moldar o palco-passarela.
- Enquanto isso, "Rasga Coração" e "O Ovo e a Galinha" revezam-se em cartaz, e a montagem de "Senhora dos Afogados" no Rio levou a arquitetura do teatro a outro palco.
- Tudo converge para a celebração dos 70 anos, em 2028, que já começa a ganhar forma com essas visitas.
Em 1961, um grupo de artistas alugou um galpão vazio no Bexiga, em São Paulo, e passou décadas transformando aquele espaço nu em uma casa de teatro. Hoje, quando o Oficina se aproxima de seus 70 anos, a companhia convida o público a percorrer seus corredores e seu acervo, como quem abre as portas de uma memória que também é coletiva. O reconhecimento da Folha, pelo terceiro ano seguido, confirma que essa trajetória ainda pulsa, mesmo sem seu fundador mais emblemático, e que o teatro segue sendo um lugar onde o corpo e a arquitetura conversam.
Em agosto de 1961, o grupo Oficina alugou um galpão no Bexiga, em São Paulo, e encontrou um espaço sem equipamentos nem mobiliário. Foi preciso reinventá-lo muitas vezes até que, em 1993, o projeto de Lina Bo Bardi e Edson Elito ganhou forma, com palco-passarela e arquibancadas. Pelo terceiro ano consecutivo, o júri da Folha escolheu o Oficina como campeão da categoria experimental, numa fase em que a companhia se prepara para completar 70 anos.
A celebração já começou com visitas guiadas à sede e a uma casa de acervo vizinha, que guarda 3.000 peças. O ingresso dá direito a meia-entrada para uma peça no teatro. No dia 1º de novembro, o roteiro traz o encontro de Lina Bo Bardi com o grupo a partir de "As Bacantes", além de "Ham-let", montagem que reinaugurou o edifício ainda inacabado.
Em 1994, Zé Celso lembrava o ceticismo que cercou "Ham-let", com suas quatro horas e meia de duração e os bancos que muitos consideravam desconfortáveis. Para ele, os bancos eram cúmplices de um público ativo. Após sua morte, em 2023, o Oficina segue em cena com "Rasga Coração" e "O Ovo e a Galinha", e "Senhora dos Afogados", com parte da arquitetura do teatro recriada no Rio, foi aplaudida por Caetano Veloso, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro. Com os 70 anos no horizonte, as visitas são o primeiro passo visível de uma celebração que está apenas começando.
Em agosto de 1961, o grupo Oficina alugou um teatro na rua Jaceguai, no Bexiga, em São Paulo, e encontrou um galpão sem equipamentos nem mobiliário, bem diferente do que os artistas imaginavam. A história do espaço começou, portanto, no vazio. Ele foi transformado várias vezes até chegar, em 1993, ao projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi e Edson Elito, com palco-passarela e arquibancadas para o público.
Pelo terceiro ano consecutivo, o Oficina é o campeão da categoria experimental, segundo a escolha do júri da Folha. O prêmio chega quando a companhia, criada por José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi e Amir Haddad, entre outros artistas, se prepara para comemorar 70 anos, em 2028.
Parte da celebração já começou, com visitas guiadas em dois endereços. Num deles, a sede do teatro pode ser percorrida à luz do dia, acompanhada por representantes da trupe. O outro é a casa de acervo, na vizinhança, que guarda 3.000 peças entre figurinos, cenários e objetos de montagens do grupo. O ingresso da visita dá direito a meia-entrada para assistir a uma peça no Oficina.
No domingo, 1º de novembro, a visita ao teatro tem como tema o encontro de Lina Bo Bardi com o Oficina, a partir de "As Bacantes", espetáculo que inspirou a arquiteta. Também entra no roteiro "Ham-let", a montagem que reinaugurou o edifício em 1993, ainda inacabado.
Em entrevista à Folha em 1994, sobre o sucesso desse espetáculo, Zé Celso contou que havia ceticismo em torno de "Ham-let": a duração de quatro horas e meia, o som e a luz inicialmente precários e uma suposta maldição sobre o desconforto dos bancos criados pela arquiteta. Para ele, os bancos são maravilhosos e cúmplices de uma posição ativa do corpo durante os espetáculos. "Nós não só abrimos o teatro, como consolidamos uma companhia voltada para esse tipo de trabalho", disse o diretor na ocasião.
O Oficina segue intenso depois da morte do encenador, aos 86 anos, em 2023, após um incêndio em seu apartamento. Em dias alternados, duas peças estão em cartaz. Uma é o musical "Rasga Coração", dirigido por Felipe Botelho e Roderick Himeros. A outra é "O Ovo e a Galinha", em que Ana Hartmann interpreta Clarice Lispector no momento em que a escritora leu o conto homônimo no 1º Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia, em 1975.
Entre setembro e o início de outubro deste ano, parte da arquitetura do teatro foi recriada no Galpão Ação e Cidadania, na região portuária do Rio de Janeiro, para "Senhora dos Afogados", de Nelson Rodrigues, com 24 artistas em cena. Dirigida por Monique Gardenberg, a peça cumpriu temporadas esgotadas em São Paulo e foi vista no Rio por Caetano Veloso, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro. Aos 96 anos, Fernanda Montenegro definiu o espetáculo como um reencontro de sonhos.
Escrita em 1947, a obra mergulha no inconsciente familiar e compõe uma tragédia brasileira de paixões, mortes e desejos incestuosos. A montagem, protagonizada por Leona Cavalli e Marcelo Drummond, homenageou Zé Celso: sua imagem surgia num telão ao fim de cada sessão e era aplaudida pelo público. Com os 70 anos em 2028 no horizonte, as visitas guiadas são o primeiro passo visível dessa celebração.
Citations marquantes
Nós não só abrimos o teatro, como consolidamos uma companhia voltada para esse tipo de trabalho.— Zé Celso, em entrevista à Folha em 1994